Crônica

Uma noite…

Nascemos, vivemos e morremos…

Essa é a única certeza durante toda a nossa existência. Lição simples, de fácil aprendizagem e que nunca nos é ensinada. Vivemos – ou quase todos vivem – com medo da morte, consequentemente, medo de viver. Se aprendêssemos essa lição simples desde o início, passaríamos desde pequenos a apreciar o agora, o presente, aquilo que está acontecendo. Não viveríamos para o futuro, formulando projetos que nada mais são do que projetos, não olharíamos para o amanhã. E por que digo isso?

Porque esse é um agora que vale muito ser vivido intensamente. Esse agora no qual estamos presentes, vivenciando, curtindo nessa noite é daqueles instantes que ficam para sempre, que nos deixam marcas, são gostosos de serem lembrados. Se tivéssemos aprendido na escola a apreciar esses segundos, minutos no exato momento em que ocorrem pode ter certeza que encontraríamos com facilidade o caminho da tal felicidade, felicidade que não deveria ser um projeto pra amanhã e sim algo a ser sentido agora…

Nossos meninos cresceram. Talvez, chamá-los de meninos seja um exagero carinhoso, mas tenho tendência a exageros sempre. Foram tantos ao longo desses mais de sete anos de convivência. Renata, Luis Roberto, Vinícius, Lucas, Bruna, Kaíque, Karina, que eu tornaria presidenta do Brasil se não tivesse nos deixado no meio do caminho. Há tantos… E há os que ficaram até o fim. O quarteto de moços que deu tanto trabalho, mas tanto trabalho… Chegava na sala, cadê os meninos? Diretoria, professor! Vários de meus cabelos brancos têm seus nomes, mas não posso dizer que não tenha me divertido um bocado.

Já as meninas, tantos grupinhos, briguinhas, mas no fim, e que bom isso, tudo terminou bem. Ana, Letícia, Bruna, Tabatha, Stephanie, Rafaela, Raquel, Natália Costa e Nathália Torres trilharão caminhos distintos, mas sei que graça e talento não faltarão a nenhuma delas nesse contato com o mundão… Me orgulho do tempo em que passamos juntos…

Enfim, aproveitemos o agora, estejamos felizes, missão cumprida… sobre o amanhã, não sei, ninguém sabe, talvez não importe de fato… mas agora sim, sorria, agora, está tudo bem!

Contos

Aquela tal felicidade

Parte I

Nunca entendi direito como a vida funcionava. Em vários momentos, lutei contra ela, contra as coisas, bati demais e apanhei muito mais, me perdi, uma overdose aos 24, sanatório aos 30 até que me calei, parei de falar alto, bater as portas e procurar desesperadamente por sentir algo que não fosse ódio ou raiva. Aí, Bia apareceu, pagou minha fiança, me trancou num quarto, fez prometer que nunca mais me furaria, me mataria, cheiraria… Não disse nada, mas ela viu em meus olhos que não havia mais força para o combate. Me rendia, de joelhos, clássico, um clichê. Então Bia me lavou, me amou, cortou meus cabelos, limpou todas as minhas feridas, engravidou e morreu. E ficamos eu e o menino.

Queria tanto aquele menino que o luto se esvaía a cada sorriso bobo ou a cada brincadeira no parquinho. Por tanto tempo entorpecido e aquele menino me fazia tomar banho, virar um professorzinho de periferia, jogar fora toda a tequila e vodka (o vinho não joguei não, ninguém é de ferro). O mundo estava mais estranho do que sempre fora, a intolerância era a ordem, os falsos profetas clamavam por seus deuses, os carros engoliam as pessoas, a polícia decidia quem vivia quem morria, o bandido decidia quem vivia e quem morria, os jornais diziam que tudo estava bem. Demorei pra abrir os olhos para esse mundo afinal meu mundo era um garotinho órfão de mãe e isso me bastava.

Numa tarde de domingo, depois de um temporal e uma soneca imensa no sofá da sala, ouvi barulhos no meu quarto. O menino brincando, claro. Fui de mansinho para não assustá-lo. A porta estava apenas encostada, pela fresta podia vê-lo. Não posso dizer que não me surpreendi. Na verdade, nunca havia pensando nessas coisas, nas possibilidades, desejos, carências de meu filho. Eu era tão tosco, às vezes. Sei lá. O menino vestido como a mãe, passava um batom na boca, imitava uns trejeitos de uma moça da novela. Fiquei ali vendo meu filho travestido. Não posso dizer que fiquei chocado. O moleque tinha sete anos, deixa ele brincar. Ponto final.

Alguns anos depois, a diretora da escola me chamou. “Puta que pariu, vou ser demitido!” Meu coração pulava no peito porque precisava daquele emprego, talvez não porque gostasse, mas o dinheiro era fundamental pra cuidar do meu menino. Fazia conjecturas, criava desculpas, imaginava o pior cenário quando ao abrir a porta da sala de reuniões dou de cara com meu filho, todo machucado, olho roxo, nariz escorrendo sangue, chorando em silêncio. “Ele atacou um colega!”, disse a inspetora. Caralho, se meu filho estava detonado daquele jeito imagina o outro então, “atacou um colega?”. Quando a inspetora terminou a frase imbecil, o menino levantou a cabeça e o olhar que tinha naquele rostinho… ah aquele olhar… aquilo foi como uma estaca no meu peito…”Nunca mais meu filho terá aquele olhar na cara!”. Deixei a besta falando sozinha, peguei o menino, fomos pra casa. Em silêncio.

Tirei sua roupa. Lavei seu corpo. Não curei a dor, incapaz eu de cuidar do meu filho. “Pai, o Miguel estava pelado no vestiário, sem querer, eu juro, fiquei olhando, eu só fiquei olhando, aí aconteceu algo comigo, os meninos viram… e…” te espancaram covardemente … respondi pra mim mesmo. Enxuguei o corpinho machucado do meu moleque, mas sabia que tudo estava apenas começando. Eu precisava voltar a ser aquele homem que não levava desaforo pra casa, aquele animal precisava voltar, sim, era o jeito de proteger minha cria.

Mudamos de escola. Os roxos sumiram do corpo, mas a alma do menino estava incomodada, ele não se encaixava, ele queria voar livre, não se esconder, queria encontrar um sentido, um caminho. Tudo isso passava pela cabecinha do meu filho. Eu apenas deixava “todas as portas abertas” pra que ele soubesse que seu pai estaria ali pra qualquer coisa e que se fosse necessário o animal que seu pai fora um dia, voltaria pra protegê-lo. Aquele mundo não aceitaria aquilo que meu menino queria… Eu estava pronto pra briga…

“Pai”, ele tinha 14 quando decidiu falar comigo de homem pra homem. Eu sabia o que vinha a seguir, não me importava, eu o amava tanto, tanto, tanto. “Pai, eu gosto de meninos…” Olhei pra ele com tanta coisa (amor?) que não sei descrever, mais do que preocupado com aquilo que via na TV e que se referia também ao meu filho, senti um orgulho tão grande dele ter confiado naquele podre pai… Eu o abracei, não precisava dizer nada. Ele sabia que o pai estava ali… Dois anos depois, na noite de Natal, o menino chegou em casa com um moço mais ou menos de sua idade. Eu terminara de fazer uma lasanha esquisita (?) pra janta natalina, estava tenso, sei lá o que pensava quando abri a porta. “Pai, esse é o Luca… meu ami… meu namorado…” Luca olhou com um carinho imenso para o meu filho. Meu coração se acalmou, meu menino encontrara o amor de sua vida, a tal da paz que tanto procurei me abraçava, me aceitava…

Contos

A besta e a menininha

O elevador estacionou no quarto andar. Não era o meu destino. As portas ficaram abertas enquanto me recusei a dar os três passos que me colocariam naquele corredor. Não o notei, não guardei detalhes daquele lugar, não percebi rotas de fugas, nem portas, nada. Apenas na minha cabeça a decisão de sair ou não daquela máquina que parecia teimosamente empacada no lugar que não era a minha escolha. Dei os três passos. Como mágica, as portas se fecharam atrás de mim.

Sobre mim a mais negra escuridão que um homem já possa ter conhecido. Era densa, podia ser sentida entre os dedos. Sufocava. Assustado, sem um rastro de luz que pudesse me guiar, congelei. Não percebia que o caminho de volta estava a três passos para trás. Mas não estava, sabe. Não adiantaria procurar o botão que chamaria o elevador de volta. Ele não ouviria, não voltaria. O coração disparava, sentia o suor de medo escorrendo pela testa. Já não pensava mais direito. Quando andei, fui para a frente. Aí, me perdi de vez. Três passos para trás não serviam para mais nada. Estava perdido.

Então…

A podridão tomou conta e se alinhou à aquela escuridão e como uma irmã se fez presente. Eu não conseguia suportar aquele cheiro. Não havia como evitá-lo. Vomitei, vomitei, vomitei. Caí. De joelhos, rendido, derrotado, indefeso. Como saio daqui? Lá longe, passos. Não consegui gritar, pedir ajuda, nada. Estava atordoado e algo me dizia que aquele que dava aquela caminhada não era meu salvador. Quase nunca erro. O som aumentava. Agora, havia a escuridão, a podridão e os passos vagarosos de algo que parecia de fato se divertir com sua presa.

Consegui me levantar, mas queria mesmo deitar, deitar pra sempre, fechar meus olhos, dormir a eternidade, deitar e acordar outro, dormir, fechar os olhos e ver outra escuridão, não aquela, essa de agora me torturava, me assustava, era fria, imensa, era um pai severo. Deitar eu queria pra todo o sempre porque o cansaço era real, doía nos ossos, na alma. Deitar, no entanto, me levantara. Respirava mal e nada havia no estômago para cuspir fora. Um medo assim, eu merecia? Foi a última coisa que pensei antes dos passos pararem.

“Hummmmmmmm, quem veio pro titio? Aiaiai, que gostoso o que sinto aqui! Cadê, você, meu fofinho? Vem pro titio? Vem pra mim, vem gostosinho!!!!!!”

As garras em meu pescoço, meu peito, meu pinto, minhas pernas. Eram tantas. O bafo daquilo na minha cara. A língua roçava meu rosto. E ele falava, falava, falava. Não sei como, o empurrei. Parti para não sei onde, não tão longe, perto daquele que me devoraria em instante.

“Ahhhhh, foge não, filhotinho. Daqui ninguém nunca escapou. Você é meu, só meu, meu lanchinho. HAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHA”

Coloquei as mãos nos ouvidos, mas era impossível se defender, não ouvir, resistir. O coração acelerava cada vez mais, as mãos gelaram, a garganta secara. Chorei porque chorar era o que me restava, mas chorei baixinho porque assim tinha que ser…

“Vem pro titio, vem, vem… Tô chegando pertinho, to aqui do seu ladinho. Ahhhhhhhhhhh, você vai ser o melhor de todos… Vem, bebê, vem”.

Ele me farejava, me procurava, estava tão perto, perto demais, estava ali a um toque da minha alma. Estava ali pronto me engolir. “Me ajudem, por favor”, mas as palavras não saíram pela minha boca.

Tumtumtumtumtumtumtumtumtumtumtumtutmutmtutmtutmt

MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO

Então…

Aquelas mãozinhas. Pequeninhas. Fortes. Delicadas. Aquelas mãozinhas. Ambas puxaram meu casaco, procuraram pela minha mão. Encontraram. Me distraíram do fim que estava ali tão perto segundos antes. Aquelas mãozinhas me puxaram pra baixo. A voz dela, nos meus ouvidos, ali, de novo, como tinha sido antes.

“Pai, ele não sabe que eu to aqui. Shuuuu. Não diz nada. Eu sei sair daqui. Segura bem forte minha mão, bem fortão, assim muito forte, não vou te soltar nunca. Vem pai, vamos pra casa…”

“Pai, lembra quando eu te contei que tinha feito sexo pela primeira vez?”

“Eu lembro de você ter dito que tinha ficado com uma menina, não tinha ideia que ficar com uma menina agora era fazer sexo. No meu tempo, eram só uns beijinhos”

“Achei que você ia brigar comigo porque eu era novo demais pra aquilo tudo!”

“Ah, Leo, eu era tão velho na minha primeira vez e isso não ajudou as coisas serem mais fáceis na vida… Então, como poderia brigar com você?”

“Foi uma manhã bacana aquela que conversamos tanto, né, pai?”

“Eu fui um bom pai???”

A besta uivava, com ódio, arranhava a escuridão, comia a podridão, ela perdera sua presa, ela queria aquela comida, estava tão perto, seu coração a besta já o tinha há tanto tempo, ela queria o corpo agora, queria inteiro, o comeria uma parte de cada vez, com cerimônia, sem pressa, deleite.

A besta foi enganada por uma menininha chamada Bia, só Bia mesmo.

“Pai, por quê?”

“Cansaço demais, precisava dormir, perdi a conta, foi só isso…”

“Pai, você tá tão machucado…”

“Não se preocupa, verdade, está tudo bem…”

“Meu irmãozinho vai voltar pra você, papai, espera ele, não desiste, procura ele, verdade verdadeira, papai, ele vai voltar pra você”

“Isso não é real, não é?”

“Quem sabe, meu pai, quem sabe…”

Calili, sentada, me olhava com aqueles olhos mais tristes do mundo. Se ela pudesse falar, falaria putz, que noite, hein? Mas nada disse porque cachorros não falam. Me levantei, tomei água no gargalo da garrafa, a chuva havia parado. Calili me seguiu com a galinha sem cabeça na boca, queria brincar a danada. Olhei pela janela. A antena iluminada, uma estrela cadente, faz um pedido, fiz, antes de voltar para o meu quarto, passei pelo dela. Vazio. Nada. Um bercinho apenas, parado, sem vida, sem respirar, sem festa, sem choro, sem aqueles olhões castanhos imensos.

“Isso não é real, não é?”

“Quem sabe, meu pai, quem sabe…”

Crônica

Som do ambiente

Som conhecido. Terminava meu trabalho. A música me chamava a atenção. Segui. Músico colombiano, conversa trivial, nem lembrei de perguntar o nome. Pedi um retrato. Ele deu. Deixei dois reais. Não precisava, ele disse. Canção boa merece. Poderia ter ficado mais. Poderia ter ouvido mais. Fui adiante. A melodia conhecida. Isso é um bom dia, pensei…

 

 

Contos

SÓ MARiA

Ahhh, Maria, pobre Maria. O que te espera nesse futuro que logo chega é tão triste. Tanto fardo para carregar sozinha. Todas as dores e tormentos de um só mundo. Doce Maria, dói se dor eu sentisse imaginar sua solidão, seu medo, suas perdas. E serão tantas perdas, tanta solidão, tanto medo.  Acorda, Maria, acorda. O tempo é esse. Estás só… como foi ontem, como será amanhã!

Maria abriu os olhos, a baba da noite impregnada no canto esquerdo da boca, os cabelos curtos quase arrumados apesar do sono agitado. Ela se sentou, mas ainda sentia que os restos dos sonhos ainda a perseguiam. A voz ressoava na sua cabeça. Até que o despertador tocou e tudo se foi. Maria tomou seu banho de 15 minutos, passou a mão pelas curtas madeixas (que prático, ela sempre pensava), escovou seus dentes. Camiseta básica, calça básica, como todo dia. Corre para a rua porque, pra variar, estava atrasada, sempre, para qualquer coisa.

Quando ela saberá? Hoje, talvez! Nada para impedir isso agora? Não. Ele decidiu. Ele quer. Ele deseja. Assim será! Poxa, poxa, mas Maria? Justamente Maria? É o que tem que ser feito.  Por que Ele tem tanta certeza que agora será diferente? Ele sabe. Valerá a pena? Eu não sei. Você sabe o que ela terá que enfrentar? Tudo? Claro, eu estava lá da primeira vez. Não é certo isso. Nunca foi. Não será.

Ela viu essa cena em um filme. O rapaz encarava um espelho no banheiro. A câmera se aproximava de seus olhos, tanto, tanto, tanto e num instante o moço via seu futuro. Toda vez que se via num espelho, cara a cara, Maria lembrava disso. Hoje, porque hoje tudo mudará, a menina foi além. Arriscou. Tornou realidade a ficção. Mergulhou em seus olhos castanhos tão castanhos que parecem a noite sem lua de um poema triste. Maria foi… recuou… percebeu que era real e foi. Pulou. Braços abertos. Um leve sorriso de conquista, quem sabe. Em seus olhos redondos, gigantes, lindos, tão tristes de outras vidas, Maria viu e soube que tudo aconteceria novamente. E seria ela a escolhida, again. Aí seu peito doeu como nunca e faltou ar. Tentou chegar à superfície, não deu.

Não tenha medo, Maria. Ele está contente com você. Mentiu a sombra. Na verdade, queria dizer o gigante que a moça precisava ter medo, estar precavida, sair correndo para qualquer lugar. Mas o menino mentiu como fizera da outra vez. Cumpriu seu dever. No entanto, agora, poucos minutos antes de trazer a boa nova à menina escolhida, o homem chorou. Não precisa ser ela. Maria já passou por isso. Por que seria diferente dessa vez? Eles não aprenderam nada. Deixe Maria em paz. Por favor. Por favor. Por favor. Ninguém o ouvia. O moço sentou-se ao lado de Maria, que dormia um sono agitado. Tocou seus cabelos curtos. Sorriu pra ela. Sorriu triste porque assim se sentia, mesmo sem entender direito o que se passava dentro dele. Sussurrou algo nos ouvidos de Maria. Segundos. Lá fora, um raio espoca com força. Tudo treme. Maria treme. Não é de frio.

Ela acorda. Percebe o silêncio de seu quarto e o vazio que tudo isso faz gritar de dentro dela. Maria agora sabe. Toca sua barriga. A protege com suas mãos pequenas. Sabe que ali dentro vai a sua vida, seu futuro, todas as perdas que virão do simples ato de dizer sim. Maria, na verdade, não lembra de ter dito sim, nem se foi assim. Ela prefere acreditar que tenha decidido e não apenas, bem, Maria não quer pensar nas possibilidades. Se levanta da cama, ainda a escuridão lá fora. No reflexo da janela, vê seus olhos gigantes. Fecha-os. Não há mais nada. Está feito.

Pobre Maria. É a última coisa que o filho diz antes do fim. Ele toca seu rosto, a consola como pode, num átimo de tempo, o filho quer dizer tanto, não diz, pensa, a dor é tão grande, forte, impede um sorriso mentiroso, dói, é o que ele pensa. Seus olhos fecharão em um momento, mas antes os olhões da mãe que fica é o que vê. O filho parte, Maria fica, segurando-o no colo como um bebê fosse. Um longo suspiro do menino. Maria nada pensa, nada faz. Protege o homem que se foi e partir sempre foi o destino desse homem.

Maria sofre apenas isso porque somente sofrer coube a ela.

 

 

PS: Meu jeito de dizer obrigado a um contador de histórias que morreu esse ano e me faz uma falta danada…

 

Contos

Meu primeiro cadáver

Não lembro de conhecer a morte antes de meus treze anos. Assunto que hoje domino, conheço, discurso e vivo, morrer para mim quando criança era algo distante, que não entendia ou não fazia sentido algum. Foi com o fim de meu avô que tomei contato pela primeira vez com a única certeza dessa vida. O ano de 1988 foi daqueles que guardo com carinho, nem sei bem a razão disso, mas quando volto à essa época, sorrio ou pelo menos não me entristeço. No entanto, foi nesse ano que meu avô Joaquim morreu. Não me veja como alguém insensível afinal há pouco falei que fora um período bacana, sem maiores percalços. “Mas seu avô morreu!”  Eu sei, tente entender.

Não lembro os detalhes de como aconteceu. Recordo que o velho Joaquim teve um derrame e ficou com o lado esquerdo do corpo (ou direito?) paralisado. Tinha pouco mais de 60 anos, fumava pacas e não era das companhias mais agradáveis. Cuidar dele, às vezes ou quase sempre, era um tormento. Por não conseguir se mexer direito e por depender de todos o tempo todo, o velho usava aquilo que sempre fizera muito bem: xingava, xingava e xingava. Ele morava com a mulher numa casinha nos fundos da minha. Por isso mesmo e por eu ser o mais velho dos três irmãos, cabia a mim cuidar do velhinho sempre que fosse necessário. Levar ao banheiro, tomar um sol, pegar água, ler um jornal, uma vez quase tive que dar banho, mas fui salvo por pouco.

Desde sempre, eu tivera dificuldades com relacionamentos. Sem amigos, distante dos irmãos e primos, nada de pai e pouco de conversa com a mãe. Fato, então, notar que eu e meu avô éramos nada mais do que conhecidos. Nunca houvera uma palavra doce dele pra mim e, em contrapartida, eu também não ajudara muito para que fosse diferente. Enfim, dois estranhos e conviver com estranhos e rir dissimuladamente passou a ser a tônica da minha vida. Eu, um muro imenso no meio e o resto do mundo. Talvez, culpa minha, como de todo resto. Mas então meu avô foi internado pela última vez e morreu.

Não posso dizer que fiquei chocado. Até fui treinar naquela tarde enquanto o corpo dele estava no hospital. Na verdade, Joaquim fora um fardo no final e mente quem diz que não estava cansado. Sua morte foi um descanso para todos, inclusive para ele. Não lembro onde foi velado, nem com quem eu fui, mas vejo como se visse agora o momento exato da minha chegada àquele lugar. Parei por segundos na entrada da sala, que estava cheia, vi de longe o perfil do velho, meu coraçãozinho de criança desatou a bater forte. Cheguei perto do caixão e fui apresentado ao primeiro morto de minha vida.

Aquilo foi um choque de verdade. Acho que minha mãe estava ao meu lado, não sei, mas virei meu rosto e desabei um choro tão sentido e verdadeiro apoiado pelo braço que estava ao meu lado. Eu nem gostava tanto dele assim, nem sei se gostava na verdade dele, porém, o choro vinha em soluços e soluços e meu peito doeu pela primeira vez… Ficamos até a madrugada.  Na manhã seguinte, de volta à sala fria, olhava fixamente o corpo daquele homem e esperava atentamente para ver seus olhos abrirem. Eu sabia que os olhos abririam e provavelmente daquela boca suja viria um puta que pariu ou algo do gênero. Os olhos não piscaram, a boca não se mexeu e eu chorei de novo agora abandonado do lado daquele ser sem vida…

Então, as velhas entoaram uma canção que nunca prestara atenção: “Segura na mão de Deus, Segura na mão de Deus, pois ela blablablablablabla Segura na mão de Deus e vai”. Ficou tão bonita naquelas vozes. E eu secava por dentro e não sabia mais por quem chorava, se por meu avô, pelo mundo, por mim.

O caixão foi fechado, minutos depois levado para a tumba e fim.

Estava cansado como nunca e não sei a razão, no entanto, acho que minha ingenuidade se foi naquele dia, naquela madrugada, naquela noite.

Depois enterrei meu pai, enterrei meu filho, enterrei meu cachorro.

Eu fui ficando e já não chorava mais. Apenas esperava os olhos abrirem, abram olhos, olhe pra mim, me veja, levanta daí e diga que me ama, diga que não me deixará mais sozinho…

No dia da minha morte, só de sacanagem, abri meus olhos… não ficou cristo de pé em volta do caixão. Foi engraçado…

Crônica

Leonardo

Menino perdido, largado no chão,

Desde cedo bandido, pediu nascer não

É bala da Polícia

É bala do Ladrão

Menino perdido, brinca de botão,

Roda, capoeira, pé no chão,

Cabeça no mundo da lua,

Como o pai que nunca viu e tá na prisão,

Menino, moleque, cansado de guerra,

Deita no colo dela

Viajar pelo mundão,

perdeu-se no meio da favela

Queria sair, partir, fugir, por que não?

Menino tinhoso, medo tem não, viver ele quer

Amar ele quer

Bala da Polícia, Bala do ladrão

É tudo igual, diferença tem não

Que pena…

Menino, quer voar, tirar os pés do chão

Vento bateu forte, as ondas da praia num vai e vão…

Menino pergunta pro pai… Posso voar?

Pai fecha os olhos, pensa muito não, diz, vai…

Menino foi…  olhos azuis da cor do mar,

Perdido, não tá mais não,

onda vai e vem,

Dança de salão…

Não tem mais bala de polícia,

não tem mais bala de ladrão…

 

Contos

A professora

Luna era a última. Depois, antes, ao lado, ninguém. Não importa de verdade como chegamos a essa situação e nem quem foi Luna. O que nos interessa nesse breve relato é que essa jovem senhora de 48 anos era aquela que apagaria a luz, como dizia um antigo provérbio usado por nossos ancestrais. Dito, não faz sentido entender as razões de Luna, muito menos descrevê-la por dentro e por fora. O que vem a seguir é apenas a história do fim. Como Luna era a última, sob seus cuidados num grande teatro havia mais de dez mil alunos. Todos a circundavam como naquelas velhas arenas que há eras deixaram de existir. Para a mulher sozinha de tudo, havia uma mesa de madeira da velha floresta que só conhecíamos por fotos. Tinha também um quadro negro pintado de verde. Giz quebradiços. Não havia mais ninguém naquele mundo que sabia fazer o que Luna fazia. Mas os lobos sentados esperando os leões romanos não se importavam. A doce senhora olhava, rodava seus olhos intensamente de leste pra oeste e ninguém, ninguém percebia sua presença.

A professora tentou uma vez. Dois mais … e os gritos à sua direita foram gigantescos. Alguém fizera uma piada e todos comemoravam como gol em final de temporada. Luna nunca gritara, nunca perdera a calma, nunca tantas coisas. Tentou mais uma vez. Quando os portugueses invadiram… sua voz agora era sufocada pelo trins e tiques e tacs de celulares tocando ao mesmo tempo e ao mesmo tempo todos eram atendidos e as palavras se perdiam num ruído imenso. Luna suava frio agora. Ela finalmente tomara a sua decisão. Daria apenas mais uma chance, mais uma, só uma… Como podemos ver a nossa atmosfera é formada … De seu canto esquerdo da imensa sala bolas de papel que ninguém sabe de onde vieram já que árvores não existiam há décadas passaram por sua cabeça para atingir o lado rival.

Cansada, vencida. Nada mais por se fazer. Luna deixou o giz branco escorregar de sua pequena mão. Ela viu seu instrumento deslizando milésimo de segundo atrás de milésimo de segundo. O giz caiu no chão de terra batida. Um som seco, duro, ecoou pelo coliseum. Como se milagre existisse o silêncio se fez. Todos, os dez mil, olhavam atônitos aquele pedaço de giz caído no chão. Quem o atirou? De onde veio? Como pode acontecer isso? Alguém, não se sabe quem era ou onde estava, gritou: “A professora foi embora!” Outro silêncio, mas agora a resposta a ele veio num estrondoso espocar de rosnados, latidos, grunhidos, gritos. “Festa!!!!!!!!!!!!!” E todos deixaram suas carteiras, cadeiras, alguns mais afoitos arremessaram a velha mesa contra o quadro negro de cor verde. Ruídos. Ruídos. Ruídos. Liberdadeeeeeeeeeeeeeeeee.

Luna não olhou pra trás e ninguém nunca mais perguntou ou soube dela. Quando o tempo passou tempo demais, os mais velhos que a tinham conhecido, com restinho de memória que ainda havia desenharam seu rosto em paredes pela cidade perdida. Os cabelos amarelos, a boca cerrada, os olhos caídos, tristes, em silêncio… Assim Luna ficou marcada em muros e cavernas… Foi o que restou dela.

Antes, porém, a liberdade, a festa, a comemoração. Não havia mais professores para pegar nos pés dos pobres alunos. Não havia mais “encheção de saco desses velhos frustrados”. Não havia mais escola para atrapalhar. Férias eternas. Celebrações eternas.

Assim foi por semanas, talvez anos.

Porém, o tempo de felicidade extrema cobrou um preço. As máquinas pararam de funcionar. Ninguém sabia delas, ninguém as conhecia, ninguém as havia tocado. O que aquela sociedade sempre soubera é que as máquinas existiam e faziam todo o serviço. Nada mais. O que parece ter acontecido foi que num efeito cascata, dominó, enfim, uma atrás da outra, a máquina falhou, engasgou, quebrou e parou. Claro, havia manuais para consertá-las e tudo voltaria ao normal. “Como se lê isso?” “Que língua é essa?” “Como abrimos essa máquina?”

A festa cessou e a tensão se fez presente naquele mundo que não sabia ler nem sequer um simples manual.

Mais tempo, mais silêncio de objetos que não faziam mais os trabalhos dos humanos. As fábricas empoeiraram, mas a tragédia maior ainda viria. No campo, a colheita não existia. O sol cada vez mais perto queimava qualquer coisa. Não havia comida vinda direto da terra há 50 anos. E a indústria eclodira. Fome, fome, fome. Havia livros que diziam o que fazer,  que davam alternativas, que explicavam como as coisas funcionavam. Ninguém os conheceu, ninguém os procurou.

Quando o mais terrível inverno aportou o planeta, o último livro foi queimado para aquecer os ignorantes…

“Ocê, comida ?”

“Fio muito agora!”

As conversas não existiam mais.

Todos esfomeados, devastados, perdiam também as palavras…

“Huhuh”

“Huhars”

“Mrteis”

“Aiiii”

As histórias, os períodos, as frases, as palavras, as letras tudo virou pó

Ninguém mais lembrava como o fim tinha começado.

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Tê batia uma pedra sobre a outra. Alguém, um louco talvez, teria dito que desse ato o fogo emergiria. Tê bateu pedra contra pedra por horas. Se cansou, jogou-as longe, o frio gigantesco. Tê, como todos os outros, não teria o dia seguinte…

E nenhum planeta, nem a Terra, sentiu falta de Tê e dos outros.

Contos

A ÚLTIMA HISTÓRIA

Há coisas que são. Outras não. Ele era. Não tinha dúvida alguma. E graças a essa certeza, quando fez tudo o que fez, fez sem pensar duas vezes, sem arrependimentos, sem nostalgia, sem lágrimas de adeus.  Ele acordou numa manhã de sexta, depois de uma madrugada difícil de sangue, catarro e dor e decidiu que faria o que tinha que fazer. Antes de tudo, se olhou nos olhos no pequeno espelho de borda laranja. Olhou fundo nos olhos e viu tudo. Desta vez, não se assustou e sorriu seu sorriso mais honesto.

E aquela gota intermitente, persistente, aborrece. Fecho a torneira. E aquela gota intermitente, persistente, aborrece. Fecho a torneira. E aquela gota intermitente, persistente, aborrece. Fecho a torneira. E aquela gota intermitente, persistente, aborrece. Fecho a torneira. Um vulcão explode em meu quarto. A picada não dói mais. Ela alcança meu sangue, minha alma. Agora, sinto sentir.

Todos os quadros que pintou, mantidos guardados metodicamente, foram levados para o escritório. Uma análise séria de uns, descarte rápido de outros. Em alguns, um olhar sempre rabiscado de preto que atormentou quase toda a sua existência, um painel em especial cores vivas, radiantes, num cenário vazio e triste, sem vida. Coisas que só ele conseguia ver e unir: festa e tristeza numa mesma cena. Passa os dedos nos relevos, lembra das pinceladas, da sensação e sentimentos quando tudo transpôs para as telas. Recorda dos cheiros do óleo de linhaça, das tintas, do quanto macios eram os pincéis, das formas que deixavam no quadro indo e vindo em movimentos não organizados. Lembra que era feliz pintando. Era sim.

A picada não dói mais. Em segundos, ela alcança meu sangue, minha alma. Sinto um frio imenso. Acho que posso voar. Minhas asas (onde estão minhas asas?) não são necessárias. Posso voar. Meu pai, que desistiu de mim, empurra o êmbolo com prazer, seus olhos brilham. Uhnnhhhhh. A calmaria se dispersa e como num temporal sem aviso, estou confuso e assustado. Meu coração sai pela boca. Seguro ele com cuidado, não quero machucá-lo. Ele bate em minhas mãos. Fede como bosta. Engra-çado, meu coração é um monte de merda. Aperto com força e ele escorre pela minha mão

A montanha de passado no meio do escritório.  Quadros menores em cima dos maiores. Ele pensa pintar essa cena, mas logo deixa pra lá. Abre duas gavetas grandes. Dentro delas, pilhas de negativos, cromos, fotos em papel. Cor, preto e branco, suaves, discretas, românticas. Fotos de toda uma vida de câmera na mão. Olhar apurado, ultrapassado, diferente e quase sempre incompreendido, ignorado. Não há datas nelas, mas ele pode se lembrar de cada clique, cada processo, cada viagem. O cheiro do mar, do lixão, da morte, da vida. Os olhões dela. Tudo isso ali naqueles segundos de uma vida toda. Perde tempo com uma. Olha com atenção, procura o conta-fio, vê o grão, sorri de novo, mas agora é um sorriso nervoso, um sorriso de por quê? Todas as cenas empilhadas, arremessadas para cima da escultura desajeitada construída de telas.

Puxo o cobertor até o seu queixo. Ela não se mexe, esboça um sorriso. Nenhuma luz, nenhum barulho. Apenas a respiração da moça. Ela dorme em paz. Amei, amei, sim, amei. Deixo o dinheiro em cima da cômoda. O perfume dela me acompanha. É suave. Nunca mais a vi naquelas esquinas nos invernos que se passaram. As mãos naqueles cabelos. Não sei nada dela, nem seu nome. Talvez, pense em mim, quem sabe? Minha primeira paixão não foi uma mentira. Eu quero acreditar que foi real. “Strawberry fields forever”, vomita o outdoor que iluminava meu rosto infeliz, velho e cansado.

Todos os livros nas estantes. Uma passada rápida de olhos. Com fúria e força, empurra suas estantes para o chão. Todos os livros agora estatelados, judiados, amassados, jogados e perdidos no meio do escritório. Um se abre num poema. O homem o lê. Confirma com a cabeça. “Pois é”. Ainda não acabou. Dentro da pequena gaveta, uma máquina de cortar cabelos. Ele a liga. Passa o instrumento por toda a cabeça cinza e nada resta depois de alguns minutos. No chão, ao lado dos livros, fotos e quadros, os cabelos oleosos, brancos, fracos. No armário, cabides com camisas, calças, camisetas, tudo retirado com violência e pressa.

Então é assim que acaba? Um apagar de luz? Um big bang ao contrário? E nada mais seremos? Ninguém para lembrar que um dia existimos? Ninguém?

Faltavam apenas as roupas do corpo que são tiradas com paz, sem pressa, como se um ritual de purificação se iniciasse. Camisa, calça, cueca, meias. Todas no monte de vida e passado jogado no chão.

Caminha até a cozinha. Há uma caixa de fósforos em cima da pia. Ele volta ao escritório. Revê tudo aquilo, está decidido mesmo.  Acende um fósforo e o atira na pilha de coisas e histórias que contou. A fogueira logo se instala. Ele sorri o nada. “I’m free”  e diz em inglês porque acredita ser assim mais bonito de dizer. Dá as costas ao incêndio que cresce sem temor algum, como se quisesse dizer “eu agora dou as cartas”.

Sentado, as mãos cruzadas entre joelhos, a sua frente o mar e o menino chutando ondas.  Cabelo do pai/menino escorrido na testa. Entorpecido com a vida e tudo o que ela é e não será. O menino tem medo do mar, mas só quando o pai não está por perto. O menino quer voar. Posso?Vai! E o filho foi… perdido entre as ondas.

O homem abre a porta da casa. Sai por ela. A fecha. Duas voltas e um clique. Porta fechada. Vai pela rua sem querer saber de mais nada. Não olha para trás porque assim tem que ser e será e foi. Simples assim.

Da janela entreaberta, a fumaça preta quer voar, voa, voa longe, bem longe.