A besta e a menininha

O elevador estacionou no quarto andar. Não era o meu destino. As portas ficaram abertas enquanto me recusei a dar os três passos que me colocariam naquele corredor. Não o notei, não guardei detalhes daquele lugar, não percebi rotas de fugas, nem portas, nada. Apenas na minha cabeça a decisão de sair ou não daquela máquina que parecia teimosamente empacada no lugar que não era a minha escolha. Dei os três passos. Como mágica, as portas se fecharam atrás de mim.

Sobre mim a mais negra escuridão que um homem já possa ter conhecido. Era densa, podia ser sentida entre os dedos. Sufocava. Assustado, sem um rastro de luz que pudesse me guiar, congelei. Não percebia que o caminho de volta estava a três passos para trás. Mas não estava, sabe. Não adiantaria procurar o botão que chamaria o elevador de volta. Ele não ouviria, não voltaria. O coração disparava, sentia o suor de medo escorrendo pela testa. Já não pensava mais direito. Quando andei, fui para a frente. Aí, me perdi de vez. Três passos para trás não serviam para mais nada. Estava perdido.

Então…

A podridão tomou conta e se alinhou à aquela escuridão e como uma irmã se fez presente. Eu não conseguia suportar aquele cheiro. Não havia como evitá-lo. Vomitei, vomitei, vomitei. Caí. De joelhos, rendido, derrotado, indefeso. Como saio daqui? Lá longe, passos. Não consegui gritar, pedir ajuda, nada. Estava atordoado e algo me dizia que aquele que dava aquela caminhada não era meu salvador. Quase nunca erro. O som aumentava. Agora, havia a escuridão, a podridão e os passos vagarosos de algo que parecia de fato se divertir com sua presa.

Consegui me levantar, mas queria mesmo deitar, deitar pra sempre, fechar meus olhos, dormir a eternidade, deitar e acordar outro, dormir, fechar os olhos e ver outra escuridão, não aquela, essa de agora me torturava, me assustava, era fria, imensa, era um pai severo. Deitar eu queria pra todo o sempre porque o cansaço era real, doía nos ossos, na alma. Deitar, no entanto, me levantara. Respirava mal e nada havia no estômago para cuspir fora. Um medo assim, eu merecia? Foi a última coisa que pensei antes dos passos pararem.

“Hummmmmmmm, quem veio pro titio? Aiaiai, que gostoso o que sinto aqui! Cadê, você, meu fofinho? Vem pro titio? Vem pra mim, vem gostosinho!!!!!!”

As garras em meu pescoço, meu peito, meu pinto, minhas pernas. Eram tantas. O bafo daquilo na minha cara. A língua roçava meu rosto. E ele falava, falava, falava. Não sei como, o empurrei. Parti para não sei onde, não tão longe, perto daquele que me devoraria em instante.

“Ahhhhh, foge não, filhotinho. Daqui ninguém nunca escapou. Você é meu, só meu, meu lanchinho. HAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHA”

Coloquei as mãos nos ouvidos, mas era impossível se defender, não ouvir, resistir. O coração acelerava cada vez mais, as mãos gelaram, a garganta secara. Chorei porque chorar era o que me restava, mas chorei baixinho porque assim tinha que ser…

“Vem pro titio, vem, vem… Tô chegando pertinho, to aqui do seu ladinho. Ahhhhhhhhhhh, você vai ser o melhor de todos… Vem, bebê, vem”.

Ele me farejava, me procurava, estava tão perto, perto demais, estava ali a um toque da minha alma. Estava ali pronto me engolir. “Me ajudem, por favor”, mas as palavras não saíram pela minha boca.

Tumtumtumtumtumtumtumtumtumtumtumtutmutmtutmtutmt

MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO

Então…

Aquelas mãozinhas. Pequeninhas. Fortes. Delicadas. Aquelas mãozinhas. Ambas puxaram meu casaco, procuraram pela minha mão. Encontraram. Me distraíram do fim que estava ali tão perto segundos antes. Aquelas mãozinhas me puxaram pra baixo. A voz dela, nos meus ouvidos, ali, de novo, como tinha sido antes.

“Pai, ele não sabe que eu to aqui. Shuuuu. Não diz nada. Eu sei sair daqui. Segura bem forte minha mão, bem fortão, assim muito forte, não vou te soltar nunca. Vem pai, vamos pra casa…”

“Pai, lembra quando eu te contei que tinha feito sexo pela primeira vez?”

“Eu lembro de você ter dito que tinha ficado com uma menina, não tinha ideia que ficar com uma menina agora era fazer sexo. No meu tempo, eram só uns beijinhos”

“Achei que você ia brigar comigo porque eu era novo demais pra aquilo tudo!”

“Ah, Leo, eu era tão velho na minha primeira vez e isso não ajudou as coisas serem mais fáceis na vida… Então, como poderia brigar com você?”

“Foi uma manhã bacana aquela que conversamos tanto, né, pai?”

“Eu fui um bom pai???”

A besta uivava, com ódio, arranhava a escuridão, comia a podridão, ela perdera sua presa, ela queria aquela comida, estava tão perto, seu coração a besta já o tinha há tanto tempo, ela queria o corpo agora, queria inteiro, o comeria uma parte de cada vez, com cerimônia, sem pressa, deleite.

A besta foi enganada por uma menininha chamada Bia, só Bia mesmo.

“Pai, por quê?”

“Cansaço demais, precisava dormir, perdi a conta, foi só isso…”

“Pai, você tá tão machucado…”

“Não se preocupa, verdade, está tudo bem…”

“Meu irmãozinho vai voltar pra você, papai, espera ele, não desiste, procura ele, verdade verdadeira, papai, ele vai voltar pra você”

“Isso não é real, não é?”

“Quem sabe, meu pai, quem sabe…”

Calili, sentada, me olhava com aqueles olhos mais tristes do mundo. Se ela pudesse falar, falaria putz, que noite, hein? Mas nada disse porque cachorros não falam. Me levantei, tomei água no gargalo da garrafa, a chuva havia parado. Calili me seguiu com a galinha sem cabeça na boca, queria brincar a danada. Olhei pela janela. A antena iluminada, uma estrela cadente, faz um pedido, fiz, antes de voltar para o meu quarto, passei pelo dela. Vazio. Nada. Um bercinho apenas, parado, sem vida, sem respirar, sem festa, sem choro, sem aqueles olhões castanhos imensos.

“Isso não é real, não é?”

“Quem sabe, meu pai, quem sabe…”

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