SÓ MARiA

Ahhh, Maria, pobre Maria. O que te espera nesse futuro que logo chega é tão triste. Tanto fardo para carregar sozinha. Todas as dores e tormentos de um só mundo. Doce Maria, dói se dor eu sentisse imaginar sua solidão, seu medo, suas perdas. E serão tantas perdas, tanta solidão, tanto medo.  Acorda, Maria, acorda. O tempo é esse. Estás só… como foi ontem, como será amanhã!

Maria abriu os olhos, a baba da noite impregnada no canto esquerdo da boca, os cabelos curtos quase arrumados apesar do sono agitado. Ela se sentou, mas ainda sentia que os restos dos sonhos ainda a perseguiam. A voz ressoava na sua cabeça. Até que o despertador tocou e tudo se foi. Maria tomou seu banho de 15 minutos, passou a mão pelas curtas madeixas (que prático, ela sempre pensava), escovou seus dentes. Camiseta básica, calça básica, como todo dia. Corre para a rua porque, pra variar, estava atrasada, sempre, para qualquer coisa.

Quando ela saberá? Hoje, talvez! Nada para impedir isso agora? Não. Ele decidiu. Ele quer. Ele deseja. Assim será! Poxa, poxa, mas Maria? Justamente Maria? É o que tem que ser feito.  Por que Ele tem tanta certeza que agora será diferente? Ele sabe. Valerá a pena? Eu não sei. Você sabe o que ela terá que enfrentar? Tudo? Claro, eu estava lá da primeira vez. Não é certo isso. Nunca foi. Não será.

Ela viu essa cena em um filme. O rapaz encarava um espelho no banheiro. A câmera se aproximava de seus olhos, tanto, tanto, tanto e num instante o moço via seu futuro. Toda vez que se via num espelho, cara a cara, Maria lembrava disso. Hoje, porque hoje tudo mudará, a menina foi além. Arriscou. Tornou realidade a ficção. Mergulhou em seus olhos castanhos tão castanhos que parecem a noite sem lua de um poema triste. Maria foi… recuou… percebeu que era real e foi. Pulou. Braços abertos. Um leve sorriso de conquista, quem sabe. Em seus olhos redondos, gigantes, lindos, tão tristes de outras vidas, Maria viu e soube que tudo aconteceria novamente. E seria ela a escolhida, again. Aí seu peito doeu como nunca e faltou ar. Tentou chegar à superfície, não deu.

Não tenha medo, Maria. Ele está contente com você. Mentiu a sombra. Na verdade, queria dizer o gigante que a moça precisava ter medo, estar precavida, sair correndo para qualquer lugar. Mas o menino mentiu como fizera da outra vez. Cumpriu seu dever. No entanto, agora, poucos minutos antes de trazer a boa nova à menina escolhida, o homem chorou. Não precisa ser ela. Maria já passou por isso. Por que seria diferente dessa vez? Eles não aprenderam nada. Deixe Maria em paz. Por favor. Por favor. Por favor. Ninguém o ouvia. O moço sentou-se ao lado de Maria, que dormia um sono agitado. Tocou seus cabelos curtos. Sorriu pra ela. Sorriu triste porque assim se sentia, mesmo sem entender direito o que se passava dentro dele. Sussurrou algo nos ouvidos de Maria. Segundos. Lá fora, um raio espoca com força. Tudo treme. Maria treme. Não é de frio.

Ela acorda. Percebe o silêncio de seu quarto e o vazio que tudo isso faz gritar de dentro dela. Maria agora sabe. Toca sua barriga. A protege com suas mãos pequenas. Sabe que ali dentro vai a sua vida, seu futuro, todas as perdas que virão do simples ato de dizer sim. Maria, na verdade, não lembra de ter dito sim, nem se foi assim. Ela prefere acreditar que tenha decidido e não apenas, bem, Maria não quer pensar nas possibilidades. Se levanta da cama, ainda a escuridão lá fora. No reflexo da janela, vê seus olhos gigantes. Fecha-os. Não há mais nada. Está feito.

Pobre Maria. É a última coisa que o filho diz antes do fim. Ele toca seu rosto, a consola como pode, num átimo de tempo, o filho quer dizer tanto, não diz, pensa, a dor é tão grande, forte, impede um sorriso mentiroso, dói, é o que ele pensa. Seus olhos fecharão em um momento, mas antes os olhões da mãe que fica é o que vê. O filho parte, Maria fica, segurando-o no colo como um bebê fosse. Um longo suspiro do menino. Maria nada pensa, nada faz. Protege o homem que se foi e partir sempre foi o destino desse homem.

Maria sofre apenas isso porque somente sofrer coube a ela.

 

 

PS: Meu jeito de dizer obrigado a um contador de histórias que morreu esse ano e me faz uma falta danada…

 

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