O sonho foi assim. Havia uma grande mesa e era claro pra mim que pessoas estavam jantando, mas mais do que isso, era uma espécie de celebração. Fui logo perceber que na verdade se tratava de uma despedida. Na cabeceira dessa grande mesa, uma mulher. Uma senhora com fáceis 90 anos de idade, cada um deles identificado no rosto, no corpo, na testa avantajada e nos longos e ralos cabelos brancos amarrados num rabo de cavalo. Ela parecia a Nicole Kidman, fazia lembrar ao menos. Ela diz coisas para as pessoas. Não consigo ouvir. Aí então finalmente me faço presente nessa história. Meu peito dói tanto ali que parece que vai explodir de verdade. Digo: “Eu vou perder você de novo!” Abraço a velhinha com força, sinto seu corpo fraco, seus ossos saltando da vida, beijo a velhinha que agora não é mais velhinha. Acordo com o coração acelerado e uma puta tristeza do tipo sozinho de novo ou pior perdi de novo ou quem sabe as duas coisas juntas ao mesmo tempo agora.
A tempestade
Lara sempre achou que sabia como seria o fim. E esse traria explosões, portas fechadas com violência, raiva e ódio. Lara esperava esse fim há tempos e por isso mesmo estava preparada. Claro, não imaginava, porém, que aquele momento tão orquestrado em sua mente estaria agora sim nesse exato instante se tornando real. Havia uma sala. Ela sentada numa cadeira que perfeitamente a colocava no meio da grande mesa. Outras pessoas estrategicamente se colocavam do outro lado. A olhavam com resignação e preocupação. Lara então percebeu que o fim se desenhava e mesmo pronta pra isso suas mãos gelaram e seu coração disparou quase saindo pela boca. Ninguém percebeu isso porque claro ninguém nunca percebeu nada.
“Você tem algum problema?” E essa foi a senha para tudo ter início. Chocada com a pergunta, Lara pensou responder “tenho há tempos, você nunca percebeu?”, mas estranhamente a velha moça se calou e as palavras se soltaram daquelas bocas e eram tantas e tantas coisas diziam que Lara se confundiu. “Será de mim que estão falando?” E as frases se multiplicavam, o volume aumentava e Lara não via as explosões nem as portas fechadas com violência, nem a raiva e ódio. Lara naquela cadeira imensa, no meio da sala, se apequenava e, misteriosamente, pela primeira vez talvez, não reagia, nada dizia, apenas escutava a reverberação de sons que agora a deixavam surda.
As pedras foram atiradas em sua direção, os dedos apontados para ela diziam “ela é o cão, ela é o mal, ela não presta, ela deve morrer, ela não presta”, no entanto, quando tudo isso começou Lara pequeninha quase não distinguia o som das letras, palavras, períodos. Lara se calava e agora não mais ela, Lara andava pequena demais para andar sozinha segurando as mãos de um homem mais velho. Ele segurava um pequeno balde cor de rosa e dentro as conchinhas que Lara achava feliz quando as ondas do mar partiam felizes para qualquer lugar. Lara segurava com força aquelas mãos velhas e agora sabia sim ela sabia que não poderia dar errado e que no fim ah esse fim tudo teria valido a pena ou não, mas Lara não se importava mais com isso…
“Pai, achei mais uma”
MAMÃE
Foram tantos e muitos diriam que no fundo todos foram iguais. Eu que vivo essa vida há tempos, percebo as nuances. Não são iguais. Fazia o que faço ainda hoje há cinco, seis anos quando me deparei com Bia e Luca. Bia era a filha, cinco primaveras no máximo. Luca era o pai, mais de 30, cabelos grisalhos, barba feita, um olhar cansado e triste, que poucos, ou talvez ninguém, notassem ser cansado e triste. Ambos enterravam a mãe, a esposa, e um vendaval de sentimentos – perda, tristeza, solidão – inundava aquela sala pequena de velório.
Eu, espectador de sempre, via Bia sentada na cadeira ao lado do caixão. Bia se levantava, sentava de novo, ficava de pé, mas em nenhum momento tirava os olhos da mãe. Luca estava ao lado da menina e assim foi o tempo todo. Às vezes, uma lágrima escorria, em outros momentos, ele encostava a cabeça na parede e fechava os olhos. A menina, nessas horas, pulava em seu colo. Com a mãozinha, acariciava o rosto do pai, brincava de roubar o nariz. O pai sorria, sorria sincero. Assim foi. Poucos segundos um dos dois saía da sala, que se enchia conforme a madrugada partia. Nem Bia, nem Luca, deixavam a esposa, a mãe, sozinha por muito tempo.
Percebia a dificuldade de Luca receber as pessoas. De fato, era evidente, o quanto o incomodava ter que ser sociável nesse momento. Parecia que ele queria que todos fossem embora ou explodissem. A menina não. Bia recebia a todos com simpatia.
“Você veio ver minha mãe? Ela tá ali, tá bonita, mas não faz barulho não, senão ela acorda! Deixa mamãe dormir quietinha!”
Poucos antes do sol aparecer, Luca aconchegava Bia, que finalmente tirava um soninho. Coisa rápida, vinte minutos. Quando a menina acordou, ainda deitada no colo do pai, ela o encarou. Estava séria, como não estivera até aquele momento. Luca estranhou, sua menina sempre acordava disposta.
“Sonho ruim?”
“A mamãe falou comigo!”
“Que bom, Bia!”
“Ela mandou eu cuidar de você, não deixar você de barba grande, não deixar você parar de correr, pediu também para você dormir no meu quarto porque eu tenho medo do escuro, né?”
“Hum, Bia, sua mãe não mandaria eu dormir no seu quarto (risos)”
“Verdade, papai. Ela falou que você pode dormir lá enquanto eu tiver cinco anos. Porque quando eu fizer seis não terei mais medo de nada!’
“O pai dorme contigo…”
Bia continuou encarando o pai que perdeu o olhar em alguma coisa que ele não sabia dizer o que era, quem sabe, o futuro.
“A mamãe não tá dormindo né?”
“Não…”
“Pai, eu não tenho medo só do escuro.”
“Eu sei… eu cuido de você”
A conversa silenciou. Bia saiu correndo. “Vou ver o cemitério!” e foi. Luca ficou. Quando se viu de fato sozinho, foi até o caixão. Passou a mão pelos cabelos da moça, “roubou o nariz”, sorriu. Disse algo baixinho. E se deixou levar pela dor que doía tanto tanto tanto que nem eu pude evitar sofrer junto. Luca sozinho chorava a vida que partia.
Quando Bia voltou, toda excitada, contando suas aventuras em meio a tumbas e gatos gigantes e esqueletos falantes, o velório estava no fim. Alguém puxou uma oração, que a menina fazia questão de acompanhar. O pai não, ele não acreditava em deus. Amém. Vão fechar o caixão e Bia não entende. Ela se aperta no pescoço do pai, sem tirar os olhos da mãe. O que se passou, então, me deixou marcas.
“Pai, acorda a mamãe! Ela também tem medo do escuro. Não deixa ela no escuro. Pai, a mãe não vai acordar? Mamãe, vai embora não! Mãe… fica!”
E aí a menininha não disse mais nada. Luca a apertou mais ainda no seu colo. Beijou sua testa.
“Vamos, Bia, a mamãe precisa descansar!”
A sala ficou vazia em alguns minutos. O céu estava azul. Era um belo dia, sim, um belo dia.
DÉJÀ VU
Ato I
Um coquetel. Uma mistura das mais variadas químicas existentes no submundo circulava pelo seu sangue. Isso não o matava, ainda. Porém, seus movimentos e a razão se perdiam a cada segundo entre algo que se encontra no caminho que separa o inferno do purgatório. “Que dia difícil”, ele pensava. Um instante foi suficiente para recordar sua festa de casamento e o quanto estava feliz. Sua mulher era linda. É linda. E ele ali, com uma puta que provavelmente o roubaria no final de tudo. Júlio César Guedes era gerente de contas de uma agência de publicidade famosa. Tinha muito dinheiro. Era muito bom no que fazia. Com 48 anos, os cabelos já não existiam e uma barriga do tipo lua cheia formava um biótipo comum, sem graça. Sua conta bancária, no entanto, bancava aquilo que queria. Casado, três filhas, católico (ia à missa todo domingo). Sexo casual como o dessa tarde (quase noite) com quem quer que desperte seus desejos. Ele tinha dinheiro. Ele podia tudo.
Júlio nunca vira aquela garota antes. Era nova no pedaço. Rodou duas vezes com o carro pela região antes de parar. Parou. Linda. Uma puta linda e Júlio entendia de putas. Nunca tinha visto uma tão bela, tão jeitosa, tão cheia de vida. Era pequena (não chegava a 1,60). A saia curta mostrava coxas firmes, gostosas de apertar e morder. O decote escondia e mostrava ao mesmo tempo seios não grandes, nem pequenos. Perfeitos. Na barriguinha, um piercing de um símbolo que ele conhecia. Não sabia seu nome. Loira. São Paulo enfrentava seu pior inverno em 100 anos. No termômetro da esquina, o negativo era constante. Ele podia ver que ela estava arrepiada, com frio. Biquinhos durinhos. Exposta como uma carne no açougue. Júlio estava excitado. Júlio tivera um dia complicado no trabalho. “Dar uma rapidinha” (todas as últimas que ele “tinha dado”, nos últimos tempos, não tinham sido demoradas, convenhamos) e ir para o aconchego do lar no qual a mulher linda e as filhas maravilhosas o esperavam. Final de dia.
O carro para ao lado da menina. “Será que tem mais de 18?” Ele abre a porta. “Tá frio demais menina. Entra aí”. Ela entra. Não diz nada. A saia curta expõe a calcinha de algodão, branquinha. Júlio enlouquece. Quer comer ela de qualquer jeito. O cheiro. Hum.
“Quanto?”
“15, o boquete!”, “90, tudo!”
“Carinha você hein? É de ouro?”, a gargalhada de Júlio ecoa pelo dia cinzento. Foi a sua última.
Num hotel barato de bairro esquecido no centro da Capital, Júlio não sente mais movimento algum em seu corpo. Seus olhos se movimentam com rapidez. Ele já se mijou três vezes. Está em pânico, mas não há mais nada para se fazer. A menina linda agora sem roupa passeia ao seu lado. Aquele corpo gordo de homem escroto só espera o fim. Júlio tem consciência disso. Pensa na família, nos seus pecados. Não há mais saída. No quarto fedido, só se ouve a sua respiração cada vez mais acelerada. A mulher se transfigura. Não é mais pura e indefesa. Ela mudou. Sua cara de anjo traz junto um quê diabólico. Mas e daí?
Ele vê o piercing na barriguinha da moça.
Depois, uma estocada no peito e o sangue de verdade jorra. Doeu, mas Júlio não sentiu. Outra e mais outra e mais outra.
Júlio respira com dificuldade…. até que não respira mais.
Um clichê de filme noir.
Devotada, ela tatua nas costas do infeliz mais um recado. O canivete não tem mais corte. Serve, porém. Ela admira sua obra e sorri. Está em paz mais uma vez.
“Com carinho pra você, papai!”
Ato II
A sopa quente na caneca alivia o frio da minha alma. O cheiro é bom, a sopa é rala. Tudo bem. Não posso exigir mais de quem não tem obrigação de fazer o que faz. São Paulo mudou muito nos últimos anos. E isso não significa nada. Zumbis como eu proliferam em cada esquina. Pobreza, violência, solidão. Inverno terrível. Impensável há alguns anos. Não importa o meu nome e o que eu fiz antes. Um dia desisti de tudo, deixei a porta bater atrás de mim e caí do precipício. Eu fui alguém. Fui.
A primeira coisa que se aprende quando se vai para as ruas é que o fedor no seu corpo é necessário. Ele espanta todo o resto. Espanta todo mundo. Espanta seu passado, seus erros, seus sonhos. Logo você se acostuma a isso. A barba. O cabelo. O corpo. Tudo muda. Se contorce, explode dentro de si. O que vislumbra, então, é uma imagem desagradável que os outros fingem não existir. Esmolas aqui, migalhas ali. Um cobertor velho acolá. E ando, ando, ando, até me cansar e cair exausto em alguma esquina para dormir. O barulho do trânsito não ouço mais. Somos um só. Faço parte da paisagem e isso também não quer dizer coisa alguma.
Sou um nada em lugar nenhum…
As prostitutas daquela rua no centro sofrem com a temperatura baixa desse inverno maluco. Algumas improvisam um casaco, mas roupa demais significa cliente de menos. Os escrotos querem ver pelinhos arrepiados. Faz uns dois meses, aquela menina aparece no mesmo lugar. Me chamou a atenção desde o início. Ela era diferente das outras. Tinha um ar indefeso, casto até. Não mostrava na cara o frio que sentia. Era turrona e cabeça dura. Isso dava para perceber de longe. Claro, se alguém quisesse perceber algo nela além de seu corpo. Era linda. Fazia tempo que não sentia aqui dentro algo como agora.
A expectativa…
O importado passa uma vez. Uma segunda vez. Para. Sempre acontece desse jeito. Hoje, ela me olhou antes de entrar no carro do lobo mau. Me olhou e sorriu. Não entendi. Não havia mais ninguém naquele beco que transformaraem casa. Erasó eu e Deus. Ela não iria sorrir para Deus.
A neblina chega e me cubro como posso. Não estou com fome. Mais um dia e mais um dia. Há tempos ninguém notava minha existência. Ela notou.
Acendo uma pedra para não pensar. Viajo. Há cores agora. Estou em paz.
Ato III
O celular não dá sossego. Toca insistentemente, mas ele não atende. A noitada solitária de vodka e cocaína tinha detonado ele mais uma vez. O frio ajuda no ato de se esconder do mundo. Nunca um inverno tão rigoroso aportaraem São Paulo. Tudocinza. Tudo triste. Araújo está comemorando 20 anos de polícia. Estereótipo. Capitão de uma Força Tarefa especial, corrupto (claro), hipócrita (óbvio), racista, divorciado. Passado repleto de pecados que deixariam envergonhados criminosos de primeiro nível. Araújo é um homem comum, apesar disso. Alcoólatra não assumido. Usuário ocasional de drogas das ruas… em todos os sentidos. Quando entrou para a polícia, Araújo acreditava no sistema. Logo viu que o sistema não era o que pensava numa “faxina” que a PM fez numa favela da periferia. Doze mortos, três desaparecidos. Nenhum fichado, mas e daí? Araújo caiu na real e cresceu na carreira. Era um bem sucedido policial. Não era bonito, nem tinha charme. Por isso, não era requisitado pelas câmeras de TV quando necessário. Araújo não se importava com isso. A barriga só incomodava na hora de correr. No entanto, ele já não corria mais. Há tempos, deixara de correr. Pecados não faltavam no curriculum de Araújo.
Clichê de um filme noir proibido.
“Capitão, capitão, está me ouvindo?”
“Fala, porra!”
“Mais um corpo no centro. Outro homem de meia idade. Bem sucedido. Carro importado no estacionamento”
“Tá!”
“E capitão… mais uma mensagem foi talhada no corpo da vítima!”
“Sei!”
“Capitão, estamos esperando o senhor aqui!”
“Não enche. Eu sei o que tenho que fazer”
Tumtumtumtum.
Araújo sabia o que fazer. O quarto corpo em três meses. Prostitutas matando clientes ou vice-versa não era novidade nessa nova São Paulo velha. O que incomodava é que essa puta estava matando gente graúda. A imprensa vai cair matando. A primeira coisa que chamou a atenção de Araújo quando a primeira vítima foi encontrada foi um cheiro suave. Ele não era bom em reconhecer cheiros, mas aquele era diferente. Uma puta não usaria aquele perfume. Tinha estilo. Uma puta de esquina não tem estilo, pensava Araújo. Outros dois corpos, nada roubado, quatro, cinco estocadas no peito, a mensagem nas costas, o importado na rua. Mas tudo isso se perdia quando Araújo respirava fundo na cena do crime. O odor quase puro o dominava.
Um quarto corpo.
“Capitão, o nome da vítima é Júlio César Guedes. Publicitário, casado e blablablabla…”
Araújo não ligava para a ficha do safado. Ele fecha os olhos. O sangue já não pinga mais na poça ao lado da cama. As luzes dos carros da polícia piscando lá fora dão um charme especial quando refletem nas paredes do quarto. Ele fecha os olhos. Respira fundo. O cheiro… suave…. o absorve…. Araújo está em paz.
A família
Não tenha pena de mim. Sou totalmente responsável pelos meus atos e fiz o que fiz porque quis. Estava enfastiada, irritada, sem saída. Então abri a caixa e deixei saírem todos os demônios. Confesso apenas que me assustei por um ou dois segundos quando percebi que eu era a irmã do meu irmão. Eu era como ele.
15 anos antes…
Quando nasci, Igor já tinha seis anos. Claro que não lembro disso, mas a primeira coisa que ele fez ao me ver foi arremessar um molho de chaves que acertaram a cara de minha avó (para a minha sorte e azar dela). Ouvi minha mãe contando essa história para uma amiga. Eu crescia e sempre ao lado de Igor, as ofensas e agressões se avolumavam. Não havia por parte dele – e disso me recordo – nenhum desejo de cuidar de mim, de ser bom pra mim. Quando fiz cinco, ganhei uma boneca linda. Ela vinha com duas roupas. Eu até chorei de emoção rasgando a embalagem cor de rosa com o nome da loja. Igor não estava em casa naquele dia. Teve a boneca, bolo e brigadeiro e um monte de amiguinhos da escola. Usava um vestidinho azul escuro e uma tiara que combinava com os sapatos. Todos foram embora, meu irmão chegou. Ele não sabia de meu aniversário e estranhou aquele ar de festa que preenchia cada sombrio canto de nossa casa. Eu havia esquecido a porta de meu quarto aberta e ficou fácil para o Igor. Ele viu os presentes, o vestido novo e a minha primeira boneca – toda linda. Demorei para perceber que Igor estava em casa. Só quando ouvi o estridente barulho de alegria de sua risada demoníaca que corri para o meu quarto. Lá, numa pequena fogueira, derretia minha boneca, queimava meu vestido, tudo. A fumaça preta tomava conta do lugar e Igor ria, ria, ria.
Paralisada de medo (seria tristeza?) via todo o meu mundinho se desfazer. E não entendia minha culpa nisso tudo.
Aos 15, papai e mamãe saíram de casa para espairecer. Me deixaram sozinha com Igor. Eu ainda sonsa, pouco entendia das razões que levavam meu irmão tanto me odiar, me castigar, me punir. Antes de entrar no carro, mamãe gritou da calçada “seu remédio tá em cima da pia, Igor!” Meu irmão não estava resfriado. Tranquei a porta de meu quarto, deitei na cama e lá fiquei horas, dormi e fui capturada dos braços de Morpheus graças aos gritos terríveis que vinham do quintal. Meu coração acelerado de um jeito que nunca ficara e aquele grito, aquele grito, meu deus, aquele grito. Mesmo aflita corri para o quintal, o dia já tinha ido e o quintal não era dos lugares mais convidativos da minha casa durante a noite. Mesmo assim, fui… fui sabendo que algo meu irmão fizera e que isso marcaria de vez toda a nossa família.
Encostado no muro, Igor fazia desenhos abstratos usando o sangue da filha da vizinha como tinta. Tanto sangue. Ela tinha só sete anos. Igor jogou pra longe o pequeno corpo, olhou pra mim com tanta fúria “agora é tua vez, sua vadia!” Corri, mas não consegui sair do lugar. Um soco me acertou o olho direito, outro meu estômago e desabei feliz sabendo que não estaria acordada dali a um segundo porque o pior ainda aconteceria. E aconteceu. Meus pais voltaram no dia seguinte, encontraram o corpo da filha da vizinha, eu ainda deitada de bruços exausta, sem forças no quintal, toda quebrada em todos os sentidos. Igor na sala banhado em vermelho sangue assistia futebol na sala, indignado com o “juiz filho da puta que só rouba contra meu time!”
Um grave transtorno de personalidade, disseram sobre ele.
Minha volta para casa depois de anos coincidiu com uma breve saída do manicômio para Igor. Ele passaria os feriados de fim de ano em casa. Parecia outro quando entrou pela porta de casa. Abraçou papai, beijou mamãe que chorava emocionada. Ao se aproximar de mim, disse aos prantos “não era eu, me perdoe, me perdoe, agora estou curado!” me abraçou.
Eu nada falei e apenas esperei as luzes de toda casa serem desligadas. Estava na cozinha olhando o vazio da minha vida e o quanto dela (a minha vida) havia restado depois de 15 anos vivendo com Igor e pais que não me protegeram. Percebi que a minha vida não existia mais e que eu era apenas um resto, um nada, um fantasma daquela menina que queria ser médica. Eu agora não era nada e abri a caixa e deixei saírem todos os demônios.
Gaveta da pia aberta. Uma faca grande, afiada. O fim desenhado na minha cabeça. Subi as escadas, a porta do quarto de Igor encostada. Ando devagar porque já tive pressa e sei todos os passos e caminhos que darei e seguirei. Sorrio. Sento ao lado do corpo quente do meu irmão. “Igor, acorda!” Ele abre os olhos, sonolento, não entende direito e só percebe que o fim é agora quando leva a segunda estocada no peito. Enfio a faca fundo, sinto o colchão. Trabalho na perfeição daquele momento durante uma hora. Nada do pouco de humano de Igor resta. Agora ele sabe no que me transformou.
A porta do quarto de meus pais está fechada. “Por quê não?”
Mamãe se afogou no próprio sangue. Papai nem abriu os olhos.
“Polícia”
“Eu terminei a história do meu jeito. Eles estão lá em cima… “
“Moça, não entendi…”
Quando a PM chegou, eu estava sentada no sofá da sala olhando meu reflexo na TV… pensava nas ondas do mar batendo nos meus pés e do quanto eu gostava dessa sensação …
Novo livro do SANTOS
RASCUNHO #5
Eu sei apenas que de tempos pra cá ao ver o Flamengo no campo me irrito, não me alegro. Ao ver a camisa rubro-negra (belíssima diga-se) sendo usada de qualquer jeito me entristeço, não comemoro. Lá se vão mais de duas décadas. Só eu como flamenguista estou vendo isso? Estou ranzinza demais e as coisas são assim mesmo e ponto final? Poderia ter sido diferente? Fiquei mal acostumado com o Flamengo dos anos 80 e, portanto, essa sensação é meramente culpa minha? Isso significaria que o Mengo de agora é o que é e chega de esperar algo melhor?
Um monte de perguntas que ninguém faz questão alguma de responder. O Flamengo é uma instituição com mais de 100 anos de vida. Houve um tempo que treinadores, jogadores, qualquer um, queria fazer parte desse universo em vermelho e preto. Hoje, acumulam-se dívidas, péssimas administrações, jogadores de aluguel, treinadores de aluguel. Enfim, apenas coisas ruins que jogam o nome desse clube na lama. Tem camisa 10 nessa fase medonha que não treina. Zico era um dos primeiros a chegar e sempre foi a estrela da companhia. Não tinha frescura com ele. Hoje, bom, deixa pra lá, devo ser um velho chato mesmo que não consegue viver nesse estranho mundo e se adaptar ao show de horror que vejo sempre que ligo a TV. Uma pena.
Virei flamenguista com quatro anos de idade. Lembro que acabavam os anos 70, Zico era uma realidade, na verdade, todo aquele time que conquistaria o mundo em 1981 já era real. O que espanta no fato de virar rubro-negro é que eu nasci em São Paulo. Não sou do Rio, fui ao Maracanã uma vez apenas, mas abracei essa camisa como nunca. Era fanático mesmo, de chorar e fazer cara feia quando a equipe perdia qualquer coisa. Aí os anos 90 começaram, Zico se aposentou (nossa, ainda recordo do vazio no peito assistindo aquele jogo de despedida e minha sensação de impotência, chorei sentido aquele dia), Júnior também se foi conquistando o Brasileirão de 1992 e depois nada, nada, nada, nada, nada. Lamento se pareço exagerar, mas é só isso e uma vergonha atrás da outra que me faz a cada rodada querer mudar de time. É fato, vejo os torcedores do Napoli, Bilbao, do próprio Barcelona e lá não é a questão do vencer que importa e sim ser um TIME, ser algo de fato importante que marque sim a sociedade.
Ah, sei lá, acho que estou querendo demais e que eu fique quieto e pare de reclamar e não leve tão a serio esse tal de futebol. Mas, poxa, era “tão bonito ver o Flamengo no Maracanã”.
Epifania
No instante em que eu fechei meus olhos, soube tudo. Toda a história brotou no meu cérebro. Tudo, tudinho. O começo. A direção. A conclusão. As palavras se sucediam e cada parágrafo se formava na minha cabeça, cada frase era degustada. Eu sabia qual o tempo, qual o ponto da virada, sabia das mortes, sabia da solidão que aquela moça pequena de olhos grandes viveria, entendia perfeitamente porque o antagonista jamais seria o protagonista. Via os cenários, via os figurinos, sabia tudo de suas cores, sons e cheiros.
Aquela história que nasceu como mágica no instante em que meus olhos fecharam (se eu acreditasse em magia ou coisa que valha) teria quatro atos. Em cada um deles, o homem seria criança, seria homem, seria velho, seria nada. Esse homem (e eu o conhecia tão bem, tão por inteiro e fazia apenas segundos que ele invadira minha mente) não queria mais nada. A cada final de ato, a cada final de capítulo, ele procuraria uma saída. Eu já sabia como resolver cada um dos seus dilemas. Eu poderia ver como a sua vida se desenrolaria e como essa afetaria e seria afetada por um mundo de melancolia que nascia e morria a todo instante.
Havia um filho desse homem e se houvesse luz nessas palavras todas estariam voltadas para o garotinho que não viveria mais do que dez anos. Mas sempre que o moleque aparecesse na história, o homem saberia que tudo teria valido a pena.
Eu já via, então, o romance pronto, delineado, com capa dura e desenho pintado na aquarela, desenho que nada significaria para os outros, mas que faria sentido sim não importa para quem. Sentia em meu delírio o sucesso das vendas, dos editores me querendo, dos cineastas me querendo, do Jô Soares me querendo. Meu best-seller. Via as edições traduzidas para o russo, francês, tupi. As longas e excitantes viagens de promoção. Perguntas inteligentes de repórteres que haviam lido de fato o livro e não o resumo. No instante em que eu fechei meus olhos, soube como seria o futuro
Mas… abri os olhos, o despertador marcava quatro da manhã e nada havia restado de lembrança daquela história que mudaria o mundo.
Nada.
NADA DE FLORES
A saga de um tomate podre que não serve para os porcos, mas alimenta os humanos sem donos. Idéias contraditórias e que surgem na tela como verdadeiros socos no estômago são o fio condutor de Ilha das Flores. Quando lançado no final dos anos 80, o documentário experimental em curta metragem, causou polêmica justamente por apresentar uma realidade brasileira caótica de forma irônica. Dirigido e roteirizado pelo gaúcho Jorge Furtado (responsável pelo politicamente incorreto e delicioso O HOMEM QUE COPIAVA), o filme ganhou prêmios mundo a fora e se firmou como um marco na cinematografia nacional. E o melhor de tudo: coloca o dedo na ferida daquele que o maior problema do Brasil – a desigualdade social.
Ilhas das Flores, em seus treze minutos, faz um painel contundente do quanto a degradação humana atinge níveis impensáveis. No início, o filme surge como uma comédia. Algo para se fazer rir, graças às boas tiradas de um roteiro rápido e objetivo. Não se demora muito, no entanto, para a aparente diversão se mostrar de fato o que é. A explosão da bomba atômica, numa imagem que não dura na tela mais do que um segundo, deixa clara qual é a intenção de Furtado. E o incômodo só cresce para o espectador.
Como dito antes, o ponto de partida de Ilha das Flores é o tomate. Um inofensivo tomate produzido por um japonês gaúcho no extremo do país. Da utilidade do produto até o descarte do que surge estragado para uma dona de casa, o simples tomate tem sua “experiência” de vida e morte contada num ritmo de videoclip. Apontando para uma conclusão terrível: a comida podre que não serve para o porco, serve para o morador pobre da Ilha das Flores – local, aliás, que chamou a atenção das autoridades (autoridades?) tamanha comoção levantada pela película na época. Problema que todos sabiam existir muito antes do filme ser lançado, mas…
A comédia, o bom humor, sempre foram as armas do cinema italiano para denunciar a soberba das elites. Etore Scola, Fellini e, mais recentemente, Roberto Begnini fazem a platéia rir incomodando-os com a própria incoerência de sua sociedade. Jorge Furtado segue essa escola. Seus filmes posteriores fogem do estereótipo da pura diversão. É difícil não ficar incomodado com seu jeito de ver o mundo e ILHA das Flores é um exemplo claro disso. A crueldade de Furtado se mostra por completo com a utilização de trechos da obra o GUARANI de Carlos Gomes. A grandiosidade da trilha, aquela coisa de país em desenvolvimento rumo ao primeiro mundo, contrasta com seres humanos agindo como ratos e porcos atrás de comida podre que não serviu a outros seres humanos. Detalhe: Ilha das Flores não é uma ficção.
Um três de julho qualquer…
Há brinquedos em todos os cantos. Soldados, heróis, vilões, carrinhos, motos, um trem ainda sem trilhos para correr e trilhos como montanha para os guerreiros de plástico se divertirem. Uma bagunça. Adorável. Vejo tudo isso, deitado de lado no sofá. A TV está ligada, não me importo. Sono chega. Menino no quarto sonha, respiração suave. Bálsamo.
Desperto antes do despertador. Saio da cama num pulo. O menino ainda dorme. Vai dar tempo. Coloco um casaco de capuz. Frio do inverno. Sol gelado pela janela da cozinha vejo com êxtase. Cantarolo canção do rádio you… your sex is on fire. Volume um, talvez, dois traços. Não quero acordar o menino. Bandeja. Três torradas. Geleia de uva. Suco de laranja sem açúcar. Bolachas. Leite com Nescau. Pão de queijo. Rodopio ao som que sai da boca de Mick Jagger. “Como você se sente?” , ele versa. Oras, estou ótimo shuuuu vou acordar o menino.
Presente na cama? Ok! Café da Manhã? Ok! Barba feita pra dar um montão de beijo de aniversário? Hum. Ainda não ! Corre, corre. Papum. Tudoem ordem. Horada bagunça. E a moça da rádio diz no, no, no, ah e eu sem pensar yes, yes, yes …
“Quem tá fazendo nove aninhos hoje? Quem? Quem?” Eu pulo na cama sem pensar no estrado, relaxa a bandeja do café ficara no criado-mudo. Cobertor, lençóis, maior zona e ele acorda feliz, sorriso fácil, buraquinho no queixo, ai quero morder meu menino lindo, como você é lindo! Parabéeeeeeeeeeeeeeeens, abre o presente do pai e toma seu café.
Aeeeeeeeee! Era o que eu queria! Aeeeeeeee!
Não será o único desejo realizado do dia.
Banho daqueles. Lava tudo moleque, atrás das orelhas também é seu. Xampu cheiroso. Água quente. Menino canta no chuveiro. Não sei não o que ele canta. Pronto? Pronto, pai! Roupa nova no menino. Gel? Hum, vai sem, tá bonitão assim.
“Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo…” e ele corre e meus olhos acompanham o quanto de vida passeia à minha frente. Dividimos o perfume. Dividimos o espelho. Dividimos as sensações de um dia que nasceu e será perfeito.
Gibi na banca.
Lanche no McDOnalds.
Filme no cinema.
Festa surpresa no fim da tarde que surpreende tanto o moleque que chora de alegria. Abraça forte e diz aquilo que eu não preciso dizer agora. È nosso. E aí corre moleque pela casa com os amigos. Mais bagunça, zoeira, tanta energia. E toda vez que o encontro, o vejo discretamente, preocupado como nunca, ali minha vida inteira, ali na minha frente, não há uma sombra ao lado dele. Nem sinal de escuridão. Sorrio porque me cabe sorrir apenas. E amá-lo.
Canta-se o parabéns pra você e o com quem será é para uma japonesinha cheia de vergonha. Os dois vermelhos e bobos ali. Primeiro pedaço de bolo é meu, claro, ele não é louco, ia dormir na casinha do cachorro se não fosse. Ele me abraça de novo e fico feliz por nos abraçarmos tanto e por dizermos tanto um ao outro. Dizemos sem medo. Dizemos a qualquer hora. Eu te amo. Eu te amo. Assim vivemos os dois, do jeito que dá para viver. Nenhum sinal de escuridão ao lado dele.
Os convidados vão dizendo tchau. A namoradinha também vai com o pai e a mãe a tiracolo. Restam eu, ele e o cachorro. O cachorro segue pro seu canto. O menino segue pro Everest de presentes que ganhou. No canto da sala, ele aproveita os últimos momentos do seu dia. Na cozinha, só agradeço. A quem não sei. Agradeço apenas.
Cama, moço!
Ah, só mais um pouco…
Dez minutos…
Ebaaaaaaaa.
E aí o doidinho ri sozinho, cria suas histórias com seus bonecos, carrinhos e trens. Ele fala com a mãe que morreu e diz que está feliz. Eu ouço e não atrapalho. È o tempo deles juntos agora. Ele diz ainda que não poderia ter tido despedida melhor desse mundo de meu deus. Ele diz isso.
Vamos, menino…
Ele pula no meu colo como sempre fez desde pequeninho. Aiaiaiai, mais um pouco não te agüento e a gente ri das bobeiras dessa vida. Pai, a mamãe adorou esse dia. E eu também. Amanhã te ajudo na faxina tá? Relaxa menino. Coberta até o queixo. Abajur aceso. Porta aberta. Não deixamos portas fechadasem casa. Elereza. Deus, cuida do papai quando eu for embora. Eu ouço. Ele sempre reza sozinho quando saio do quarto. Cuida de todo o mundo. Ele pede assim puro como se fosse a coisa mais fácil do mundo cuidar de todo o mundo.
Beijo, Léo. Dorme com os anjos, pai!
Ligo a TV e deito no sofá. Vejo a bagunça na sala e me dou por satisfeito. Sorrio, choro, sei lá. Acordo de madrugada com o zuzuzuzuzuzuzu da TV sem canal e ainda há bagunça por toda a sala. Sonho um sonho simples no qual me pedem que escolha entre a eternidade e todo o poder que disso vem ou uma festa de aniversário com o filho que surgiu do nada. Uma só festa. Um só dia. Um segundo apenas em relação ao pra sempre que poderia escolher.
Pai, pai, pai, a mamãe já chegou com o pastel…
São cinco e dezessete, abro os olhos, o peito dói um pouco, olho sem óculos para o canto da sala e não há brinquedos, não há vida, não há nada.


