Meu primeiro cadáver

Não lembro de conhecer a morte antes de meus treze anos. Assunto que hoje domino, conheço, discurso e vivo, morrer para mim quando criança era algo distante, que não entendia ou não fazia sentido algum. Foi com o fim de meu avô que tomei contato pela primeira vez com a única certeza dessa vida. O ano de 1988 foi daqueles que guardo com carinho, nem sei bem a razão disso, mas quando volto à essa época, sorrio ou pelo menos não me entristeço. No entanto, foi nesse ano que meu avô Joaquim morreu. Não me veja como alguém insensível afinal há pouco falei que fora um período bacana, sem maiores percalços. “Mas seu avô morreu!”  Eu sei, tente entender.

Não lembro os detalhes de como aconteceu. Recordo que o velho Joaquim teve um derrame e ficou com o lado esquerdo do corpo (ou direito?) paralisado. Tinha pouco mais de 60 anos, fumava pacas e não era das companhias mais agradáveis. Cuidar dele, às vezes ou quase sempre, era um tormento. Por não conseguir se mexer direito e por depender de todos o tempo todo, o velho usava aquilo que sempre fizera muito bem: xingava, xingava e xingava. Ele morava com a mulher numa casinha nos fundos da minha. Por isso mesmo e por eu ser o mais velho dos três irmãos, cabia a mim cuidar do velhinho sempre que fosse necessário. Levar ao banheiro, tomar um sol, pegar água, ler um jornal, uma vez quase tive que dar banho, mas fui salvo por pouco.

Desde sempre, eu tivera dificuldades com relacionamentos. Sem amigos, distante dos irmãos e primos, nada de pai e pouco de conversa com a mãe. Fato, então, notar que eu e meu avô éramos nada mais do que conhecidos. Nunca houvera uma palavra doce dele pra mim e, em contrapartida, eu também não ajudara muito para que fosse diferente. Enfim, dois estranhos e conviver com estranhos e rir dissimuladamente passou a ser a tônica da minha vida. Eu, um muro imenso no meio e o resto do mundo. Talvez, culpa minha, como de todo resto. Mas então meu avô foi internado pela última vez e morreu.

Não posso dizer que fiquei chocado. Até fui treinar naquela tarde enquanto o corpo dele estava no hospital. Na verdade, Joaquim fora um fardo no final e mente quem diz que não estava cansado. Sua morte foi um descanso para todos, inclusive para ele. Não lembro onde foi velado, nem com quem eu fui, mas vejo como se visse agora o momento exato da minha chegada àquele lugar. Parei por segundos na entrada da sala, que estava cheia, vi de longe o perfil do velho, meu coraçãozinho de criança desatou a bater forte. Cheguei perto do caixão e fui apresentado ao primeiro morto de minha vida.

Aquilo foi um choque de verdade. Acho que minha mãe estava ao meu lado, não sei, mas virei meu rosto e desabei um choro tão sentido e verdadeiro apoiado pelo braço que estava ao meu lado. Eu nem gostava tanto dele assim, nem sei se gostava na verdade dele, porém, o choro vinha em soluços e soluços e meu peito doeu pela primeira vez… Ficamos até a madrugada.  Na manhã seguinte, de volta à sala fria, olhava fixamente o corpo daquele homem e esperava atentamente para ver seus olhos abrirem. Eu sabia que os olhos abririam e provavelmente daquela boca suja viria um puta que pariu ou algo do gênero. Os olhos não piscaram, a boca não se mexeu e eu chorei de novo agora abandonado do lado daquele ser sem vida…

Então, as velhas entoaram uma canção que nunca prestara atenção: “Segura na mão de Deus, Segura na mão de Deus, pois ela blablablablablabla Segura na mão de Deus e vai”. Ficou tão bonita naquelas vozes. E eu secava por dentro e não sabia mais por quem chorava, se por meu avô, pelo mundo, por mim.

O caixão foi fechado, minutos depois levado para a tumba e fim.

Estava cansado como nunca e não sei a razão, no entanto, acho que minha ingenuidade se foi naquele dia, naquela madrugada, naquela noite.

Depois enterrei meu pai, enterrei meu filho, enterrei meu cachorro.

Eu fui ficando e já não chorava mais. Apenas esperava os olhos abrirem, abram olhos, olhe pra mim, me veja, levanta daí e diga que me ama, diga que não me deixará mais sozinho…

No dia da minha morte, só de sacanagem, abri meus olhos… não ficou cristo de pé em volta do caixão. Foi engraçado…

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