Contos

Dez segundos que fazem toda diferença… ou não!

E você acha que eu me importo?

Não mais

Com nada, com ninguém, comigo

Então

Atira, atira

Bem aqui ó,

Bem aqui no “meio dos olhos”

Atira, vagabundo

Nunca sentido algum houve em qualquer coisa

Atira, por favor, atira

Tão cansado…

Soou como uma oração tão verdadeira que os anjos do céu baixaram suas cabeças de vergonha por causa do nada que haviam feito antes para cuidar daquele pobre miserável que seria filho de deus se esse existisse…

O homem do revólver nunca entendeu como a vida funcionava

Segurava sua ferramenta de trabalho como sempre

No entanto, dessa vez, desafiado por um fracassado, um perdedor…

Desafiado por aquilo que não era…

Nesse instante, o homem do revólver recuou, tremeu, relutou fazer aquilo que tão bem fazia

Então

O homem do revólver encarou os fundos dos olhos de sua presa

E o que viu? O que viu?

Atira

ATIRA

ATIRA, filho da puta

Nos fundos daqueles olhos

Nenhum brilho, alma nenhuma

Vazio somente

Se procurasse mais fundo ainda,

O homem do revólver ouviria o grito de milhões de demônios clamando pelo fim, mas ele só foi até o vazio e isso já era mais do que suficiente.

O arrepio de morte perpassa todo o corpo do homem do revólver

Ele tem como alvo, como um trabalho, como algo a ser feito alguém que já está morto

Morto, mas vivo

Um vivo quebrado, despedaçado…

Um zumbi… pensa o predador…

Como matar o que já está morto?

Dilema dilema dilema

Atira, covarde, atira

O homem do revólver ama seu velho 38. Por que uma automática? Uma bala, apenas uma. Meu velho e bom 38. Uma apenas é suficiente …

Atira, dessa vez, foi como suspiro lento, longo, profundo…

Silêncio

Um disparo

Sangue e pólvora, pólvora e sangue…

Vida que segue e assim é porque tem que ser e ponto final.

Contos

A LOIRA DO BANHEIRO

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Quando aqueles garotos arrancaram minha calcinha, percebi de fato que não se tratava de um sonho. Fechei os olhos com toda a força do mundo e consegui sair de mim. Me lembrei do tempo em que papai batia na mamãe. Eu sempre fechava os olhos e voava longe. Com aqueles meninos, naquele banheiro fedido, não foi diferente. Eu tinha 13 anos. Quando papai esmurrava mamãe, tinha cinco. Mamãe morreu. Papai, não sei. Ao ficar órfã, minha vózinha chegou do interior para cuidar de mim. O cheiro dela é inesquecível, doce, acalentador. Quando estou de “bico”, procuro pensar na sensação que tinha ao ela chegar perto de mim. Era bom.

Vovó sempre me arrumava para a escola. Dizia que eu tinha de estar sempre linda. Ela penteava meus cabelos “dourados” de uma princesa. Ela dizia isso e me deixava feliz. Meu uniforme estava sempre bem cuidado, merenda gostosa dentro da lancheira. Fui feliz nesses anos. Me complicava em matemática, mas no resto eu ia bem. Vovó se orgulhava dos “10” que tirava em redação. Eu adorava escrever cartas melosas, cheias de romantismo barato, para ninguém. As escondia numa caixa de papelão rosa, em formato de coração. Tinha virado mocinha aos 11. Não foi um susto ver aquele sangue escorrendo pelas minhas pernas porque a vovó e a tia Ceci (minha fessora) já haviam me explicado que isso aconteceria. A partir daquele momento eu era uma mulher. E a vovó completou: “uma mulher dos cabelos dourados”. Foi um dia bacana.

Eu seguia crescendo e me apaixonava pela primeira vez. Guto era bonito, forte, esperto, tinha 16. Já bebia e dizem que já tinha até feito sexo. Eu gostava dele. Contei para vovó e ela pediu para eu me cuidar. “Não sei se gosto desse rapaz!”, disse. Não era ciúme ou implicância dela. Era apenas uma sensação… vovo2 copy

Um dia criei coragem e fiz um poeminha para ele. Coisa boba, coisa de menina. Mas totalmente sincera. “Meu Deus, ele quer me encontrar!” Nunca me senti tão doida quanto naqueles segundos antes de ver o Guto, sozinha. Eu estava apavorada. Queria, porém, estar com ele. “Será que ele já tinha me notado antes?” Eu mal podia me segurar dentro do meu corpo. Queria voar longe de felicidade. Naquela época, estudávamos à tarde. Ele queria se encontrar comigo quinze minutos depois do último sinal. Daria tempo para a gente conversar bastantão antes da turma da noite chegar. “Não sei se gosto desse rapaz!” Lembrei da minha vózinha. Deixei meus cabelos soltos. Uma amiga emprestou um batom bem clarinho e discreto. Estava cheirosa. Meu sapato novinho estava brilhando. Presente da vovó. “Ele ia gostar de mim?”

E sentada ali fiquei entre os pavilhões dois e três. Estava frio. Eram quase seis horas e a noite já tinha chegado. Coloquei o casaquinho que minha avó tinha feito. Estava com o cheirinho dela. Senti saudades. Levei um susto. Deixei minhas coisas caírem no chão, mas não tive chance de pegá-las. Foi tudo muito rápido. Dois amigos do Guto me seguraram com força. “Cadê ele?” Eu tinha medo desses garotos. Eram grandes e encrenqueiros. Estavam sempre na diretoria. Um deles tinha mais de 18. Me apertaram com força e me jogaram para dentro do banheiro do pavilhão dois. Caí de joelhos e bati o queixo no chão. Não estava entendendo nada. Aí, uma voz doce e conhecida quase me acordou daquele pesadelo que se iniciava:

“Quer dizer que a putinha loira quer me dar?”

Era o Guto. Seus amigos riam alto. O eco daquelas risadas naquele banheiro fedido me fez ver papai matando mamãe de novo. Foi ali na minha frente. Tinha cinco anos. Estava novamente paralisada. Não conseguia gritar, chorar. Tremia, tremia, tremia. “Vovó, segure minha mão…”

Quando aqueles garotos arrancaram minha calcinha, percebi de fato que não se tratava de um sonho. Fechei os olhos com toda a força do mundo e consegui sair de mim. Tinha 13 anos. Não estava mais em mim e isso aliviou toda a dor daqueles minutos que não acabavam. “Olha Guto, é cabacinha!” “Oba, é minha. Não tem mais isso no mundo”. “Eu primeiro, eu mando, esqueceram?” Tentei escapar mais uma vez. Um dos amigos do meu primeiro amor acertou um soco no nariz. Me afogava no meu sangue. Num instante, tão instante que quase não percebi, uma gota desse sangue caiu no meu sapato novo. “Deixa, vovó, eu limpo quando chegar em casa”. Tanta dor. O cheiro horrível daqueles animais em cima de mim. Solidão. Quando um deles quebrou meu pescoço não senti mais nada.

“Desculpa, vovó, não vou conseguir limpar o sapatinho novo…”

Ao acordar num mundo estranho, sentia frio. Estava presa naquele lugar. Meu cativeiro eterno. Nunca soube como fora meu enterro. Não vi mais vovó. Não sei há quanto tempo estou aqui. Não sei o que aconteceu com o Guto. Às vezes, me olho no espelho e choro com o que vejo. Meu rostinho todo machucado. Um rastro, um pequeno rastro de sangue que sai do nariz em direção ao queixo que nunca limpa, por mais que eu tente. Olhos fundos. Olhar perdido. Cabelos dourados não mais dourados. Enfim…

… confusa como toda menina de 13 anos.

Tenho medo do escuro. Aprendi com o passar do tempo a deixar a luz desse banheiro acesa quando todas as outras do colégio são desligadas. Não durmo e para não ficar louca, ando em círculos, acompanhando o caminho que a luz faz ao bater no piso. Solidão.

Uma vez, duas, três, tentei me comunicar com um menino. Nem todos são maus ou cruéis como o Guto. Nunca quis fazer nenhuma maldade com eles. No entanto, o susto que levavam era tão grande que os paralisava. Dois morreram de medo. Outro, enlouqueceu. Juro, não era minha intenção. Apenas queria contar a minha história…

Poxa…

Você quer ouvir a minha história?

loira

 

arte: LICIDA VIDAL

Contos

A fé

Quando todos os deuses morreram

Nada daquilo que disseram que aconteceria aconteceu

Raios não riscaram o céu

Crateras não engoliram o mar

Eu, do inferno, a tudo via com um sorriso cínico na cara

Poderia ter feito alguma coisa, mas não fiz, não quis

Que se explodam os Deuses, pensei

 

Maria acreditava em um Deus

Seu papai disse a ela:

“Nosso Deus é o único Deus e não há outro que te salvará quando o fim chegar”

De chupetas e chiquinhas, Maria não entendia as palavras de seu pai, mesmo assim as seguiu

De verdade, não havia para ela outra alternativa,  muito menos Maria sabia que poderia escolher acreditar no que quisesse acreditar.

 

Maria tinha um só Deus e isso a ela bastava.

Quando a guerra na montanha mais alta do mundo teve início, a menina não imaginava ser algo tão sério. Ela sabia que seu Deus era forte, único e aqueles que queriam seu trono nada poderiam fazer.

 

Coitada da Maria, seu Deus não aguentou 24 horas de batalha

Mesmo assim, Maria rezava, rezava, rezava

A Fé de Maria era pura, iluminada e por mais que dissessem a ela “Os Deuses estão mortos”, fingia que não ouvia, que não seria possível um mundo sem seu Deus poderoso…

 

Um dia, Maria acordou,

percebeu um silêncio diferente,

mais profundo,

mais denso,

mais tolerante

afinal o silêncio não é todo o mal que existe no mundo…

 

Maria ouviu esse vazio de som e chorou

Chorou porque agora ela percebia que de fato toda a sua fé não levara a nada

O todo poderoso não tinha poder algum.

 

A consciência das coisas

Maldição

Quero a ignorância da fé cega

Quero a ignorância do não saber

Quero a ignorância…

 

A menina contra tudo e todos,

Contra o silêncio piedoso,

Contra as pedras que voaram contra seu rosto,

A menina rezou, rezou e rezou…

 

Sabia que dessa vez seria diferente,

Ninguém a ouviria, se é que em algum momento, a ouviram

 

Os céticos, os cínicos, os sobreviventes

Olhavam pra Maria

“Pobre menina Maria, enlouqueceu”

 

Quando todos esqueceram seus Deuses,

Maria, a louca, a crente, subiu ao céu,

E na montanha mais alta do mundo, Maria resgatou o corpo de seu Deus…

 

Velou-o

Enterrou-o

Abençoou-o

 

Ah, Maria, pobre Maria…

Contos

A praia

Muito pensei em meu câncer na tarde que passou enquanto longa, longa caminhada fazia naquela praia sem fim, com os pés nus banhados pela onda gelada porque assim deveria ser ela no inverno cinza que pesava em minha cabeça, ao meu lado Calili, a cachorra do mais triste olhar do mundo…

As imagens, os cheiros, a paisagem, a areia molhada, tudo flertava com a melancolia, com aqueles velhos clichês. Não me sentia assim, no entanto. Havia dentro de mim respostas que há tempos procurava e então tudo ficou mais simples, claro, não triste, ok talvez um pouco, mas esse vestígio da escuridão sempre fez parte de mim, de outras eras…

Decidi que nada faria para derrotar minha doença. Não quero tubos me “tubeando”, nem monitores monitorando, nem doutores piedosos oferecendo a última morfina do pacote. Me chamarão de covarde por não lutar, mas essa foi a constante dessa vida que me esvai, lutar… Não quero mais. Estou muito cansado. E fim. Slow motion suicide e por quê não? Dono de meus pensamentos, desejos, assim está acertado. Eu faço o meu final.

Relembrei também todos os erros, todos, todos. A culpa de boa parte deles sempre pesou em meus ombros. Mas também fui capaz de aceitar que falhei porque quis acertar e não o contrário. Nunca pisei em alguém para conseguir algo e isso vale como moeda de troca. Meus pecados, no fim, só fizeram mal a mim portanto eu me perdoo. Segue a vida ou o que resta dela sem peso algum, sem um se sequer.

Arrependimento, ao menos, nunca houve…

Houve segundos dessa caminhada em que minha mente voou aos tempos em que eu era filho de meu pai, do como ele me abandonou e ainda das tantas vezes que baixei a guarda e deixei que ele voltasse e nenhuma atenção tive. Cansa ser rejeitado. Ele, não perdoarei no meu fim e não o quero ao meu lado quando o caixão pobre carregar meu corpo morto…

Minutos pensei no quanto me atirei nas histórias que surgiram, sem medo as encarei, sofri, mas antes de tudo vivi e foi bacana pacas…

Calili corre da onda, é engraçado,  ela toda manca da pata direita, ela tão velha quanto eu, se diverte, late, corre feito boba…  eu sorrio pra ela porque eu mesmo não poderia ter escrito melhor final…

Mas há um epílogo…

E nele, claro, há um menininho que tem os olhos da mãe, mas o nariz é meu, o gênio é meu, a franja é minha, a cabeça dura é minha, o coração é meu, há ainda a menininha que não tem mais a testa machucada, não está mais quieta, melancólica nem bicuda, ela sorri o sorriso maior do mundo, o vestidinho rosa, o cabelo escorrido, liso na testa, que ela tira com a mãozinha fazendo de um ato tão singelo talvez a coisa mais linda que já vi na vida…

Tem ainda a velha senhora de olhos cinza, tão pequeninha, de aparência frágil, mas nada disso, mulher forte, forte, poucas palavras, as que saem de sua boca são as necessárias… linda, linda, linda…

Os três estão lá naquela ponta distante da praia, acenam, badernam, dizem coisas que não consigo ouvir… paro… olho os três e sei que a sensação de eletricidade que perpassa meu corpo é o sinal de que acabou, sim acabou, mas quem disse que isso é ruim, não é não…

Estou voltando pra casa…

Teórico

Tragédia rural

A modernização – fenômeno social, econômico, político e cultural do final do século XIX – tem no centro urbano seu mote principal. Apesar do Brasil ter sua população dividida historicamente entre CIDADE e CAMPO, nessa época, esse processo, que relegou antigas tradições à extinção, também se enraizou no meio rural. Levou mais tempo, é verdade, mas a modernização da sociedade burguesa mundo a fora alcançou a terra. O latifundiário conseguiu legalizar sua propriedade a partir de 1850 (Lei das terras). Que propriedades? Como conseguiu tais terras? Trabalhando sol a sol, claro, não foi. O problema é que enquanto esse novo cenário mundial englobava a figura do grande proprietário de terras, o sitiante se via excluído.

Com mão-de-obra familiar, sem apego a um local, mudando, se mesclando à realidade da região em que vive, o caipira encontrou apoio apenas em outro caipira. Essas relações vicinais mantiveram as tradições desse grupo social.  De qualquer forma, porém, não foram capazes de brecar o avanço da modernidade. Invariavelmente, suas pequenas propriedades acabavam nas mãos de latifundiários. E toca o caipira a cair no mundo. Erroneamente, essa não “permanência” alçou o caipira à condição de vagabundo, daquele impróprio para o trabalho. Imagem estilizada no famoso personagem Jeca Tatu, criado por Monteiro Lobato no início do século XX. O que se precisa dizer é que esse caipira seguia uma lógica própria que não a imposta pela “fábrica”. Seu dia não conta, segue, nasce pelo tilintar dos relógios fabris.  Seu ano não é contado pelo calendário burguês do trabalho. O caipira, como trabalhador do campo, segue a lógica da natureza e seu tempo. Nasceu o sol, hora de trabalhar. Mas, agora, trabalhar onde?

A questão da terra no Brasil não é um fenômeno recente, da era MST, por exemplo. Remonta às grandes propriedades avalizadas (sem parâmetro algum além da conta bancária) pelos governos do século XIX (e aqui cabe nova e mal fadada lei das terras de 1850, novamente). O descalabro da expulsão do homem do campo originou as lutas camponesas, a liga camponesa, entre outros movimentos – inclusive o já citado acima movimento dos sem-terra. A reforma agrária, assunto recorrente há um século pelos corredores do Congresso Nacional e nada além disso, nunca se firmou de fato como uma realidade. E o caipira assiste a isso, talvez incrédulo, partindo de um canto para outro.

Como movimento que discute a questão da posse da terra nas mãos de tão poucos, o MST se tornou alvo  da mídia burguesa. A radicalização de suas ações (acredito que necessária) afastou o apoio da classe média. Apesar da massa popular que o segue, o movimento dos sem-terra está longe da realização da utopia “de que não haverá um homem sem seu pedaço de chão para plantar”.

Nesse contexto, no qual a mecanização do campo só aumentou o desemprego, o êxodo, a migração, o latifundiário não perdeu espaço. Como não lhe faltam trabalhadores sem trabalho, paga o que bem entende. A miséria no campo não difere da miséria na cidade. E se o caipira se fecha em seu grupo, o bóia-fria, para sobreviver, desbrava o desconhecido. Pulando de cidade em cidade, o corte da cana lhe traz a sobrevivência da família. A um preço alto demais! Por 10 mil toneladas/dia esse homem se afasta de seus familiares, revive os cenários ingleses da revolução industrial no século XIX, e passa a ser um estrangeiro, um clandestino em seu núcleo de trabalho. Se não gostar, paciência, outro assume seu lugar. Sim, “as pessoas não migram porque querem”. Por um pedaço de terra, elas se põem a caminho, como lembra Hobsbawn. O problema está que não são donos de suas vontades e a realidade do mundo capitalista, que mata as tradições daqueles que foram excluídos do processo de modernização, se vê simbolizado nos calos das mãos dos trabalhadores rurais do Brasil.

Teórico

Poesia x ignorância

Durante o século XIX, teorias das mais diversas foram elaboradas com o intuito de estabelecer a supremacia da “raça” branca. O principal alvo, claro, os negros, foram apontados como inferiores, incapazes. O médico Nina Rodrigues, voz com credibilidade em seu meio social, defendia tais ideias. A eugenia justificava a escravidão e uma brutal diferenciação social. O neocolonialismo e o pretenso desejo de levar a civilização – inventada, ditada e moldada pelos europeus –  a todos os cantos do mundo se amparavam nesses conceitos. Bom, mas aí surge a turma do morro, muitos sem estudo, muitos sem perspectiva alguma de futuro. E o que fazem? O trecho de Nelson Cavaquinho selecionado para esta prova  – “quando piso em folhas secas, caídas de uma mangueira, lembro da minha escola e os poetas da minha estação primeira. Não sei quantas vezes subi o morro cantando” – aponta e invalida as teorias de Nina Rodrigues e tantos outros. “Quando piso em folhas secas…”, construção belíssima de tempo, é uma criação de um ser inferior? Não fiquemos apenas na música. A ginga negra no futebol brasileiro é sua marca registrada. Haveria pentacampeonato mundial sem negros na seleção? Seriam os negros uma “raça” degenerada? Evidente que os discursos racistas do século XIX serviram à uma classe social, a um discurso dominante. Discursos esses que não se sustentam aos primeiros acordes de um cavaquinho em qualquer morro carioca, por exemplo. A valorização da cultura (s) negra e o consequente processo que levará ao homem/mulher a ter consciência de que sim ele possui dignidade perpassa pela derrubada de mitos e preconceitos em uma sociedade como a nossa que prega o tal do “racismo cordial”. Cartola, Guinga, Nelson Cavaquinho, tantos, tantos que nunca souberam o que defendia Nina Rodrigues. No entanto, foram eles, os primeiros a provar que o médico que defendia a inferioridade de uma “raça” não tinha argumentos contra o talento e a poesia.

Sem categoria

Explicações…

Abaixo, mais um texto dos tempos de faculdade. Esse também é de 2007 e  faz parte da avaliação final de História e Cultura Afro-Brasileira do professor Lúcio Menezes. Esse trabalho não é um mero formador de polêmica. Há “sustância” nele no que se refere ao debate entre o monoteísmo e o politeísmo… E lamento aos puros e castos, mas gosto sim de um atabaque, de Buda, do homem Jesus, de bruxas, da lua… Enfim… Feliz ano novo!!!! 

Teórico

Atabaque não é coisa do capeta!!!

O canto sacro é uma das formas que o homem, em diferentes tempos e culturas, encontrou para realizar uma conexão com o sagrado. O som dos atabaques nas religiões afro-brasileiras, também, cumpre esta função. Por que todos os símbolos destas religiões são associados ao demônio pelas diferentes denominações cristãs?

É importante partir essa discussão do conceito de que as religiões monoteístas possuem um elevado  grau de intolerância quanto ao que é diferente (quem define quem ou o que é diferente?), ao que não lhe pertence. Como representantes, no mundo ocidental, das classes dominantes, as religiões cristãs empregam esse poder no estrangulamento do que surge em outra direção, que aponta uma nova perspectiva. Essa é a definição por si só do que é ou quem é herege, aquele que escolhe, segundo o cristianismo institucionalizado. Neste sentido, é fundamental para essas religiões se esforçarem na criação de uma imagem negativa de qualquer culto afro. Por serem herdeiros dos escravos, seus remanescentes nas religiões africanas são perseguidos justamente por tentarem resistir com suas tradições, mesmo que isso os levem ao sincretismo – marca tão singular na cultura brasileira. As religiões afro são difíceis de serem aceitas pela “massa” justamente porque não oferecem a dicotomia bem e mal. Para aqueles que a amaldiçoam, é esse o ponto de maior relação com o “capeta”. Para um cristão, é muito claro o que é o bem (pelo menos naquilo que lhe faz sentido) e o que é mal. Associar as crenças africanas ao mal é mais um ponto no discurso de segmentação social. O negro se recolhe ao seu papel insignificante segundo os mandamentos daqueles que detém o poder. Foi assim antes, o é agora. O atabaque não é um símbolo do diabo. Ele evoca uma tradição, uma fé (ou várias), deuses os mais variados que erram e acertam. O atabaque como símbolo é humano. Impensável para um culto monoteísta, que visualiza o humano de cima para baixo, numa escala hierárquica, social…

 

PS: Sou um herege, então? Hum…

Teórico

História e memória

Arrisco iniciar meu texto, retomando a última fala do andróide de Blade Runner. Nela, ele exprime toda sua dor com a morte iminente do conhecimento que adquiriu em seus poucos anos de vida, “momentos que se perderão como lágrimas da chuva”. Ali o que viu, o que sentiu, o que sonhou, o que desejou, tudo desaparece com sua morte. Ao pensar a proposta dessa atividade sobre o ensino de História, Memória e Neoliberalismo, para desenvolver esse texto, me veio à mente toda a “sabedoria” perdida do andróide e a importância que esse dava ao fato. Uma lição ao homem? Sim, Hobsbawn se aprofundou no tema ao mencionar a “destruição do passado”. Interessante casamento proposto pelo neoliberalismo vigente no mundo.

Num cenário desses, o ensino de História surge como alternativa de duas visões/propostas antagônicas. Uma delas (a pior em minha opinião) é manter o status quo. Aceitar o aluno como cliente, se adaptar à lógica do mercado e “passar o ponto” na lousa como se nada tivesse acontecido. Concluindo-se, portanto, que a educação é um bem de consumo. A outra proposta coloca o professor de História na ponta de uma lança que mira o fim dessa “sonolência social”. A contestação ao cenário neoliberal, o “reacender da memória”, o extermínio dessa ideia que se professa de “presente contínuo” (Hobsbawn novamente) são tarefas desse profissional que é sim um “estranho” ao mundo que se configura num processo de individualismo cada vez mais bem orquestrado. Afinal, não podemos esquecer que a educação, para a elite, não é uma necessidade.

Nesse contexto, acredito que cabe a nós, professores de História, percebermos que escolha entre duas vertentes tão opostas será feita. E isso refletirá no ensino e na aprendizagem do aluno. Não sou dado à radicalização de discursos, mas estamos vivenciando uma crise generalizada tão grave que surge no ar a sensação de que não há crise alguma. Essa construção ideológica proposta pelo capitalismo lança a sociedade como refém (e me faz perguntar: será que essa sociedade não quer ser refém disso?). O passado, então, é lançado na sarjeta  e o imediatismo, o efêmero, ganham status.

Sua pergunta faz eco: “Diante disso tudo, você ainda quer ser professor?” O cenário sombrio faz refugar aqueles que se veem perdidos entre os antagonismos mostrados nos parágrafos anteriores. Capitular ou propor uma ruptura? Trabalhar numa ruptura? Sim, talvez eu seja ingênuo. Talvez o andróide seja de fato mais humano que o humano, mas creio sim que o neoliberalismo não seja um fardo para se carrregar como se nada estivéssemos carregando. Apontar suas falhas, indicar saídas, destrinchar o “manto sagrado” do capitalismo são tarefas obrigatórias da rotina de um professor que busca o velho e bom “caminho das pedras”. Refletir sobre esse curso mostrou que é possível alterar o processo de “deformidade” social que estamos sentindo na pele.

A verdade em que vivemos não é a única e nem a “verdade”. O ensino de História e seu engajamento numa proposta de projeto social (como coloca Fontana) esta presente como alternativa a essa verdade.

Crônica · Reportagem

Natal sem o filho

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A placa no portão avisa: cão bravo. O toque na campainha confirma. A cachorrada faz uma sinfonia, chama a atenção do dono, protege a casa de um possível invasor. São bravos mesmo. Por instantes, Timoteo Salazar Marin, de 35 anos, pensa que seu presente de Natal pode estar à porta. Logo, a esperança se desfaz. “Os cachorros esperam por ele. Era sempre assim. Dava o horário de José chegar da escola e eles ficavam agitados, no portão, latindo. José cuidava deles, brincava. Comprei esses dois cachorros porque José era muito sozinho. Se davam muito bem”, lembra o pai que convive com uma espécie de mistério há quatro meses desde quando seu único filho José Luiz Salazar Morales, de 14 anos, fugiu de casa. “Só quero que ele ligue pra mim”, desabafa.

TImoteo é um imigrante boliviano. Está no Brasil há oito anos. Ressalta que está de forma legal no Brasil e não pretende tão cedo voltar à sua terra natal “Lá eu era motorista e o dinheiro não valia nada”. Costureiro, casado pela segunda vez, ele trouxe seu filho da Bolívia em 2009. Até então, o menino era criado pela avó. A mãe o deixou quando era ainda um bebê. A família vive na zona norte de São Paulo. José estava na sétima série de uma escola pública e talvez, para Timoteo, essa tenha sido a razão para o desaparecimento do garoto. “Ele não queria mais estudar. Queria trabalhar. Eu dizia com força que só queria que  estudasse, que levasse a sério senão ia apanhar. José se apaixonou por uma menina, eu não deixei namorar. Mas, ele sumiu sozinho. A menina não foi. Não sei…” disse o pai, olhando desolado para um ponto qualquer. “Ele tinha medo de mim, muito medo…”

Num sábado de setembro, ao voltar da Feira da Madrugada, que acontece no centro de São Paulo, Timoteo não encontrou o filho, apenas um bilhete que dizia que o menino chegaria à Bolívia de bicicleta. Nada mais. Desesperado, o boliviano partiu para a Rodovia Castelo Branco. Circulou por cinco horas, sentido Mato Grosso, para encontrar o adolescente. Nada. Deixou fotos nos postos policiais, voltou para casa, foi à delegacia. “Mandaram eu esperar… estou esperando”. Em seu bilhete, José não dizia claramente a razão de sua fuga. O mistério só cresceu, quando em novembro, num sábado também, o garoto ligou para a avó que ainda vive na Bolívia. Disse que estava trabalhando com bolivianos, estava “fazendo” dinheiro para poder chegar em seu país. Comentou ainda que havia quebrado a mão depois de uma queda de uma escada, sem maiores detalhes. Sobre o pai? Afirmou que Timoteo jamais o perdoaria. Po  quê? Pois é, Timoteo não faz a mínima idéia. A ligação para a Bolívia se repetiu nos sábados seguintes.

Como era José? Estava envolvido com drogas? Era violento? “Meu filho era tranqüilo, não tinha nada disso não. Pelo menos é o que eu via. Ele não queria mais estudar, não sei se isso é uma razão pra fugir de casa”. Seria o filho vítima de bullying no colégio? Os meninos bolivianos têm sido alvo de violência nas escolas da cidade de São Paulo nos últimos anos, os casos já se contam a dezenas. Por quê? Por serem bolivianos. Timoteo foi à escola esse ano justamente por causa disso. José teria sido agredido por meninos. O pai conversou com as crianças, com a diretora. “Quando eu perguntava pra ele se estava tudo bem no colégio, ele dizia que sim. Agora não sei se estava mentindo. Eu deveria ter prestado mais atenção”

Desconcertado, o pai fala baixo, não entende de fato o que se passa, tem medo apenas. “Eu ameaçava de bater se não estudasse como todos os pais fazem, o meu fazia isso. Mas eu nunca toquei um dedo nele. Eu sei que trabalhava demais, que não o controlava direito, que talvez não fosse tão presente quanto eu imaginava. Eu falhei!”, aponta mais desolado ainda com um sorriso nervoso no canto da boca. José fugiu somente  com o documento de identidade da Bolívia. Em suas ligações para a avó não mencionou que voltaria para o pai. O que de fato aconteceu com José? Timoteo não sabe responder. “Eu o quero de volta. Não haverá castigo, surra, nada. Só quero entender. Precisamos conversar mais, preciso conhecer meu único filho…” e as palavras se perdem com o latido agudo dos cães. “Será José no portão?” Não, não desta vez…