Contos

PARADO NAQUELA ESTAÇÃO

Tic-tac-tic-tac-tac-tic-tac, não é um relógio. Nem bomba. Tentei imitar o barulho do trem chegando na estação. Mas não sei fazer o barulho do trem chegando, partindo, indo. Não entendo de trens. Entendo de partidas, quase nunca chegadas. Entendo da viagem e da sensação do vento batendo no rosto. Livre como o pássaro daquela música. Entendo poucas coisas.

Invento diálogos com meu travesseiro desde sempre. Não é um amigo imaginário. Muito menos uma amante imaginária. È um diálogo inventado com meu travesseiro em um universo no qual não há a dor. Sim, um mundo paralelo que você sente a onda do mar batendo nos pés como no final feliz mais feliz que já fizeram. È uma viagem de ácido. Ou a primeira vez na heroína. Meu travesseiro já foi Bia. Já foi filho. E todas as vezes antes das últimas palavras, o sorriso doce sem pressa e culpa embalava minha insanidade.

Falo pouco com meu travesseiro atualmente.

Falo pouco com qualquer um.

 

Pai, você sabe contar uma história sobre trens?

Não sei, filho.

Eu sei!

Conta pra mim?

Conto…

Quando, menino?

Um dia!

Promete?

Prometo!

Olha o que eu fiz pra você…

 

Então, eu acho que toca um apito. Sei que navios tocam apitos na partida. Não sei nada sobre trens. O menino corre para o seu vagão. Está feliz de verdade. Não cabe em si. Está feliz de verdade. O homem fica na estação e vê o menino feliz correndo para o seu vagão. O homem não anda, não segue o menino. Ele só olha ele mesmo indo, indo, indo. “Não vai… fica”, ele não diz. A locomotiva puxa o rebanho de ferro. Bye. O menino na janela só olha pra quem fica na estação. O homem não sabe o que passa na cabeça do menino. O menino sorri.

 

Prometoooooooooooooooooo!

 

Quando a curva engoliu o trem, o homem ficou ali parado naquela estação, sem direito saber pra onde ir e o que fazer…

 

Pai, era uma vez, um menino que desenhava trens…

Contos

O sótão

Tinha que decidir um monte de coisas. Era tanto pra minha cabeça e ninguém percebia de fato que eu não queria decidir nada. Último ano na escola. Vestibular chegando. Boletim parecendo um matadouro em dia de festa de gente. Tanto pra pensar. Não gritava, não pedia um tempo, não fugia. Seguia a correnteza. Não era feliz, mas isso também não importava. Quem sabe de fato o que é ser feliz? Eu poderia estar enlouquecendo naquela época, vai saber. Sétima aula na quinta-feira, véspera de feriado. A professora falava, falava, falava, falava e aí num segundo parou de falar. Tudo meio que tomou uma outra cor, um outro nível de consciência. Então, eu vi.

Onde os olhos deveriam ser verdes, azuis, castanhos, pretos, o vermelho. Destacavam-se na escuridão. Podia vê-los perfeitamente e sabia que aqueles olhos vermelhos me olhavam de volta. Não tive medo. Há tempos desconheço isso. Uma das placas do teto da minha sala havia se soltado. Ninguém deu muita importância pra isso. Ninguém reparou nada. Mas aqueles olhos vermelhos estavam ali em cima, me diziam algo, diziam sim, não sei o que diziam. Vislumbro a fileira do outro lado. As carteiras a minha frente. A professora que ainda falava, falava, falava. Nenhum deles percebera a menina no sótão nem que eu havia a descoberto.

O sinal toca. A manada sai em disparada. A professora ainda falava, mas o som de sua voz já ia distante. Eu ficara para trás. A menina escondida no breu.

 

“Oi”

Demorou um pouco… e

“Oi”

“Você existe?”

Escuto os passos acima de mim.

Ela se ajoelha, um rostinho pálido, doente, aparece no vão da placa perdida.

“É, parece que você existe…”

“Você quer ouvir minha história?”

Ela pergunta de um jeito tão delicado, tão intenso, que meu peito sente um corte profundo, um aperto tão grande, que meu deus, não sei…

Olhos vermelhos perdem o brilho, um rastro de sangue passeia do canto da sua boca até o queixo. Sangue antigo, sofrido, de outros tempos. O olhar é tão triste… mas é a menina quem diz antes.

“Teu olhar é tão triste…”

Esboço um sorriso falso ou talvez o mais verdadeiro que eu tivesse pra ocasião. A loira faz o mesmo. Cabelos compridos, escorridos, básico se é assim que se fala de cabelos de meninas. Aí, ela fala coisas, tantas coisas e ouço atentamente, me esqueço do tempo, de ir embora. A menina loira perdida no sótão conta a sua história. Eu perdido em qualquer lugar só quero estar ali e ali fico.

 

O sinal toca e a dormência na minha perna faz eu gemer alto. Todos riem. A professora não. Depois não reclama se repetir de ano, ela sempre diz isso. Vermelho de vergonha, guardo as coisas na mochila, parto sem dizer nada.

 

Fazia tempo que não passava nessa rua. Sabia que o prédio seria demolido, não tinha certeza da data. Era noite já bem noite. Paro o carro na esquina e dois minutos a pé estou em frente ao meu antigo colégio. Avisto lá no segundo andar a janela em que encostava a minha cabeça tão vazia de sonhos. Me distraio um segundo com a buzina do ônibus e quando volto meus olhos pra janela, velhos tristes conhecidos olhos vermelhos me encaram. Como antes, eles ainda dizem coisas. Eu encaro a menina e me pergunto em qual momento tudo desandou. “Quando eu peguei o caminho errado?” Ela, de longe, parece querer responder, mas sua boca não se mexe. Aceno um tchau bobo, respiro fundo, sigo para minha vida e quando olho para trás, dos olhos vermelhos que me seguem da janela apenas uma tristeza tão triste que ainda não inventaram um nome pra ela.

 

As gotinhas caem uma atrás da outra. Dois canos machucam meu nariz com o ar que não consigo pescar sozinho. Uma linha sobe e desce no monitor. Fim da linha e tenho certeza que nunca imaginei que seria diferente. O remédio alivia a dor, não alivia a dor da alma que ainda dói.  Mas tudo bem. Está acabando…

 

“Oi”

Demoro pra responder, penso não dizer nada, digo…

“Oi”

Os olhos vermelhos sorriem.

“Vai ser diferente da próxima vez”

 

O sinal toca. Estridente. Me assusta, quase caio da carteira, o caderno desaba no chão.   Todos riem. A professora também. Me atropelo, saio correndo, tudo jogado na mochila. Não olho pra trás, as risadas ainda persistem e por tudo isso, apenas isso, não percebo a menina loira que não ri, mas que está ali, estará ali no mesmo lugar, sentada em sua carteira, seus cadernos cor-de-rosa, como sempre estivera, só que agora vai ser diferente.

 

 

Contos

COR DE ROSA NA AVENIDA

Zuuuuuuuum. Faço a curva brincando de Ayrton Senna. Até canto a musiquinha e imito o Galvão Bueno. Ainda o dia não chegou na Vila Maria e tenho as subidas e descidas do bairro todas para mim. Opa, desculpa a falta de educação, chefia. Não me apresentei. Minha mãe, a santa dona Amélia (que Deus a tenha) batizou-me (preciso manter a estampa) de Cleidnelsonn. Assim mesmo, com dois Ns no final. Os mano, todavia, chamam-me de Fittipaldi. Zuuuuuummmmmm.

Eu ainda não sabia, mas esse seria meu último dia de vida. Dei azar, claro. Sou do bem, gente honesta, entrego leite todas as madrugadas nas casinhas dos portuga do bairro. Ganho uns trocadinhos com uns bicos também. E no final do mês, tiro o da sobrevivência. Você sabe, porém, que os dias atualmente são de estresse total. Qualquer coisa, brother tá puxando o cano ou tiozinho ta te apavorando. A desculpa de todo mundo é a tal da violência. Bom, me dei mal com ela. Senta aí, puxa a cadeira porque vou te contar o acontecido.

A Cerejeiras estava acabando, desembocando na ladeira bacana da Araritaguaba. Ali me divirto. Desço a milhão e a cachorrada fica doida com o meu vôo. Olha moço, sou doidão na bike, mas nunca desperdicei a mercadoria. Claro, têm uns clientes que acabam acordando, reclamam, xingam a santa dona Amélia (que Deus a tenha) e voltam a dormir. A maioria, no entanto, nem nota a minha chegada. Muito menos, a minha partida. Só a cachorrada que fica naquelas de Mozart, o cara das sinfonias.

Olho no relógio. São três e meia e só faltam as casinhas ao lado do Colégio Sion. Estou um pouco atrasado hoje. Seu Joaquim vai reclamar. Ele reclama sempre. Aquele velhinho acorda com as galinhas. Dou um show nas pedaladas, zuuuuuuummmmm, e só falta a casa do Maneco antes de chegar no seu Joaquim. Detono o freio da bike, seguro o bicho no braço e quase me acabo no muro do Maneco.

Veterano da guerra do Timor, o Maneco chegou na Vila Maria bem antes de eu nascer. Acho que ainda havia o Figueiredo na presidência. Sei não, nunca fui bem nessas coisas de história. Então, o português é boa gente, mas teve a vendinha roubada três vezes mês passado. Por isso, dorme com o trezoitão do lado da cama. Ficou mais traumatizado com São Paulo do que com a Guerra do outro lado do mundo. Que coisa louca né?

E continuando nosso plá, não me acabei no muro do velho. No entanto, derrubei o vaso, entortei o portão, acordei o gato e enlouqueci o pitbull. Cara, era melhor ter batido no muro. Com todo o escarcéu, seu Maneco levantou assustadão da cama. Pegou o meu carrasco (que Deus tenha piedade da minha alma) e saiu dando tiro feito louco. Era balaço pra todo lado. Poxa, três garrafas se quebraram e o pior: duas balas me acertaram. Doeu. Ai como doeu.

Caí duro no chão, já de cara com a saudosa santa dona Amélia. Deu tempo de ouvir o coitado do seu Maneco gritando “meu deus, matei o leiteiro. Matei um inocente”. E, antes de bater as botas de vez, antes do laranja do sol ganhar firmeza no céu, deu pra ver o vermelho do meu corpo se misturando com o branco das garrafas. Um cor de rosa bonito e alegre antes do fim. Zuuuummmmmmmmmmm.

IMPORTANTE: Esse texto é uma adaptação do poema MORTE DO LEITEIRO do gênio Carlos Drummond de Andrade. Só espero que ele não fique puto com a homenagem. Tenho a desculpa de que era um trabalho da faculdade….

Contos

Sophie

 

I cut myself

I cut myself

I cut myself

 

The blade in my vein

Deeply, so deeply

And again, again, again

And again

 

Yesterday,

Today

Everyday

 

I just wanted to feel something

feel the pain, what else?

Oh yeah, feel the pain

The blade in my vein

 

But don’t

 

I feel nothing, nothing, nothing

And more deep,

the blade is dancing…

The blade is burning inside my soul

 

How many times?

Why… ?

I don’t know why

 

Sorry, I’m liar and I’m not a good man

I know why

I’m the guy who killed yourself

Your eyes, they guilt me

I don’t belong to myself

 

Who cares?

 

Ok,

It’s all right

Don’t worry

I am happy

 

All time

Cinema

MARIE

Registro de ensaio da banda SIVIE SUE MORI na madrugada de sábado (1.6.13). Imagens bacanas, som nem tanto porque a captação da câmera não “comporta” tamanha ferocidade. Mas se você não é um chato conseguirá sim ter uma ideia do que esse grupo tem a oferecer. Eu curti pacas…

Every step you gave in my direction
Grew in my heart a love like infection
And as we drove away
You healed all the scars that I hate

You burn my veins
Put my brains on fire
Owned my day
Became my desire

Easily nights goes by
Like cigarettes, like cigarettes
The clouds crying
The way I can’t forget

I was starving
Laying tired all alone
Living and breathing
Without a purpose

Everytime God close his eyes
And we saw nothing
But we called it night

Throwing stones at the sea
Watching it die, watching it die
Till you came here
And rearrange my life

Jimi Arrj – Guitar
Lugli – Guitar
Awoah – Bass
Mario Camino – Drums/Vocals
Contos

A escolha

Maria corria da vida.

Alguns (ou todos) diziam se tratar de um grande pecado afinal a moça nunca fizera questão alguma de abraçar a graça que lhe fora concedida por aquele que de todos ri.

Cansada, ela de verdade não se importava e por isso apenas fugia, se lançava pra bem longe daquele que acreditavam ser o bem mais precioso. Maria não queria viver, nunca foi sua escolha, nunca foi sua intenção, não queria agora nessa vida, nesse momento, com essas roupas, cabelos e gírias.

Maria não pertencia a nada, a ninguém, a lugar nenhum. O não pertencimento é o que enchia seu peito vazio do desejo de viver. Poxa, essa menina nunca quis a luz… nunca.

Os nove meses já haviam passado. A primeira filha daquela família já deveria ter vindo ao mundo. Que nada. Irritado, o bebê se escondia o quanto podia naquela escuridão que lhe aquecia, alimentava, protegia. Por isso, antes de ser chamada Maria, a criança se recusava a fazer o que os outros queriam que ela fizesse. Não vou nascer e pronto, disse. Se enrolou no cordão de sua mãe e lá ficou esperando pelo fim. Roxinha, roxinha, roxinha. Quando saiu de dentro de sua mãe, agora sim, Maria não chorou, apenas desapontada ficou. O médico feliz disse que ela tinha apenas mais três horas de vida. Foi salva por Deus, um milagre, um milagre. Olha só, Maria, só mais três horas e nada do que aconteceria depois, aconteceria. Aí, Maria, tadinha, chorou sentida, de tristeza, pela primeira vez.

Dias faltavam para a Copa do Mundo começar. Maria gostava de poucas coisas, uma delas era futebol. Era uma menina diferente, seu cabelo sempre curtinho, os peitos crescendo e sua ira idem. Saiu da escola, um frio com cara de frio mesmo gelava seu sangue, ela tinha onze anos e sua cabeça voava longe sempre. Aqui, no lugar que ela estava, nunca era o lugar, entende? Ela sabia que era de lugar nenhum. Descia pela rua, rumo ao ponto de ônibus, olhava pro céu nublado que tinha uns rasgos bonitos de sol que tentavam, tentavam, tentavam passar, mas não conseguia. Gosto dessa nuvem que não deixa o gigante passar, disse a menina. Ela não percebeu em instante algum, só no instante final e aí já não interessava mais, que no caminho contrário subia um daqueles caminhões imensos, pesados, cheios, mas esse estranhamente veloz. Maria fechou os olhos e sorriu, ufa, agora acabou, mas que nada. Alguém (que droga), a puxou no momento exato como acontece naqueles filmes feitos de açúcar.

Maria sentiu só o sopro daquilo que sempre quis.

Caramba, Maria, será você imortal? Ela não acreditava nessas coisas. E foi tirar a dúvida quando chegou aos 20, na verdade, 21. Dessa vez, ela correria tão rápido da vida que só a morte poderia alcançá-la. Era o que a doce e raivosa menina queria, por quê raios ninguém entendia esse seu desejo? Maria não gostava da vida, da dor que sentia forte no peito que nada tinha além dessa dor que não passava nunca. Maria zumbiava e nada mais. Invisível. Quem no mundo pensava em Maria ao menos uma vez num dia qualquer? Quem? Quem? Quem ao dormir falava baixinho como uma oração espero que Maria esteja bem? Ninguém, convenhamos, sem hipocrisia. Maria poderia ser qualquer uma, não fosse essa estranha maratona que trazia consigo desde sempre.

Então, a moça, fez o último teste. Ela não viveria pra sempre, que é isso sim uma maldição e não o contrário. Viver no lugar errado, no tempo errado, na vida errada não é viver. Maria alcançou o topo desse mundo que não lhe pertencia e lá de cimão olhou pra baixo. Viu tudo, todo o planeta,  em silêncio, parecia que agora todos acordavam e notavam aquele pequeno corpo pisado, maldito, de olhar triste que não é ódio, talvez, apenas cansaço, nem sei mais.

Maria não queria viver pra sempre. Ela precisava provar que não era imortal. Então, corajosa como sempre, sim senhor corajosa e não me importa a sua opinião, ela chegou bem na beirinha do fim daquela que era a montanha mais alta daquele mundo. Maria poderia voar se quisesse. Mas ela não queria brincar agora. Chegou ao final da linha. Olhou para baixo novamente. Não sou imortal, pensou, e pulou.

Contos

FICÇÃO

 

Pense numa realidade diferente. Um lugar no qual tudo o que você conhece e aceita como certo é diferente.  Uma dimensão que caracteriza seu bem como mal e seu mal como bem. Pense nesse mundo. Deus é o Diabo. Diabo é Deus. O caminho da ida é o da volta. O caminho da volta é o da ida. Feijão é arroz. Arroz é feijão. Dia, noite. Noite, dia. Sonho é pesadelo. Pesadelo é sonho. Sorriso é dor. Dor é sorrir.

Universo em mutação que restringe sua liberdade, mas releva seus fracassos. Lá, você pode ter o que quer, mesmo sem saber se isso é bom ou ruim. Nesse lugar que não é aqui tudo parece muito com o que há aqui. Mas não é aqui. É diferente. Nessa atmosfera, nos conhecemos no tempo certo, sem mais nem menos. E ficamos enquanto o tempo quis.

Em silêncio…

Isso porque nesse sistema que não é o nosso – mas é tão parecido – o silêncio não é crime, nem dor, nem marasmo, nem fim. Então, lá o que não é igual, é igual. O igual não é o que é igual. Aí, a confusão e o medo não surgem, não têm espaço. Sentimentos frios como esses vagam perdidos como almas.

Almas como a minha que vaga pelo mundo real querendo ser encontrada. No outro lado, eu não preciso ser achado, descoberto.   Simplesmente, estou lá e sei o que estou fazendo. Você também. Nessa paisagem que não é a nossa, a paisagem parece ser a nossa. Mas não. Ali, a escuridão é para ser sentida. No entanto, ela não assusta. O errado é certo. O certo é errado.

Pense numa realidade diferente.

Lá, o fim da história é o início.

O início é ponto final….

Contos

Instantes

10…

O ponteiro dos segundos anda lentamente. Sei tudo o que está por vir. E aceito o destino, mesmo não acreditando nele. O peito dói como nunca, mas não é medo do que está ali pronto para acontecer. È uma dor assim, dor que não existe, que incomoda só quando se respira

 

9…

O ar muda. O vento sossega, mas voltará com força daqui a um momento. É possível ainda olhar para as estrelas. Vejo a lua também. Bonita, grande, tão solitária e melancólica. Como a lua se sente ao olhar para a Terra? Penso nisso…

 

8…

Busco vida nesse fim e sentido para um monte de coisas. Não dará tempo, enfim, para achar resposta alguma. Lá no fundo, uma trilha sonora chorosa lamenta denial, denial, denial… Sou espectador de tudo o que eu sabia que aconteceria um dia. Que bom, dessa vez não tive culpa!

 

7…

Fecho os olhos, mas os abro rapidamente. Não quero perder nada. Minha curiosidade, inquietude e teimosia me levaram a esse momento. Eu fui responsável pela minha vida, apesar do destino, três segundos atrás…

 

6…

Só penso na dor que não existe no peito. E no quanto essa dor dificulta a respiração. Todos correm. Pânico. Mas eu não quero correr não. Estou bem aqui. Cansado para fugir. Nunca fugi… não fugirei agora. ..

 

5…

Vejo os quatro cavaleiros. Eles são ferozes, cruéis e devastam tudo. Tudo. O céu agora é vermelho e as estrelas disseram adeus. Tchau, estrelas. A lua, eu acho, só chorou.

 

4…

Toco o braço da tatuagem. Acaricio como se fosse ela. Um toque leve, discreto, ninguém notaria. Um toque só para dizer estou aqui não tenha medo minha mão vai segurar a sua e queira ou não tudo acabará bem não tenha medo menina eu cuido de você agora no fim e no pra sempre que virá depois disso…

 

3…

Fecho os olhos de novo.

 

2…

Abro esses olhos castanhos que já brilharam por coisas tão simples. Meus olhos disseram tudo sempre. Eles nunca mentiram. Nunca. Meus olhos me entregaram e não me importo com isso…

 

1 …

Acabou. A explosão varre tudo e me leva junto. Só pó resta e não sei mais de mim. Tudo e nada. Assim é o fim.

Atividade escolar · Crônica

Além das palavras jogadas no papel

Leio nos jornais e não entendo nada. Poderia procurar respostas em revistas, livros, discos, internet, mas não. Eu não entendo nada mesmo. Vejo apenas que o Brasil (ou Brazil?) de Cazuza não mostrou sua cara. Os mendigos de Drummond mudam de viadutos como mudam de casa. O circo de Portinari é triste, sem o vermelho, o azul e o amarelo. E o Pink? Os namorados de Almeida choram quietinhos para não acordar o mundo. Eu tento entender…

Quero dizer que não há o que compreender nesse mundo. Não sou pessimista. Há tempos tirei a pedra do meio do caminho e busquei cores  quentes na paisagem fria. Mesmo assim, folheio tudo o que me chega e nada encontro. Sou eu o problema, então?

Vácuo. Silêncio. Queremos agora escutar o que aquele homem lê em voz alta. Ele diz que o mundo divide-se em dois: de um lado, aqueles que querem mudar. De outro, aqueles que já viram (leram) tudo, desistiram e não encontram motivos para continuar. Assunto difícil. O capataz de Portinari queria mudar? Os trabalhadores do cafezal não encontram mais motivos para continuar?

E pelas estradas silenciosas de Almeida…

Que ela venha ao menos num domingo de sol!

Comodidade, tecnologia, desenvolvimento. Socorro!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Tudo muito fácil. Na mão. Sem conhecimento, esforço e prazer.

Pessoas felizes, cheias de esperança, na triste alegria de viver nesse mundo.

Aí lembro da pedra no meio do caminho (como esquecê-la?)

Assobio sem pretensão alguma: “Me diz, me diz, como ser feliz em outro lugar?”

O mundo não me deixa entendê-lo. Tento, de novo. Será que o problema está na forma como eu leio? Estou lendo errado? Acho que não. B + A = BA. P + E = PE. Estou lendo certo, as sílabas se formam, se juntam e tentam dizer alguma coisa naquele pedaço de papel. Será uma armadilha do mundo não compreendê-lo? Pode ser. Não há como contestar o que não se entende.

Ah, agora entendi. Leio, releio. A tarefa parece difícil e é. Procuro outros olhos para vislumbrar o que a maioria dos brasileiros não vê. Queremos ser primeiro mundo, mas o menino da favela nunca leu um livro. O operário também não. O empresário? O que falar daquele político? Pra ele, literatura é auto-ajuda. Nada mais. Sim, compreendo agora a tristeza (disfarçada de alegria?) nas carinhas das crianças de Portinari. Crianças brincando sem o vermelho, azul e o amarelo. O branco? E o pink?

EXPLICAÇÃO: Projeto promovido pela Nestlé nos anos de 2004 e 2005. Eu coordenei os trabalhos com as turmas do nono ano no Externato São Judas na ocasião. No caso desse texto, partíamos a produção dele da leitura de obras de Portinari, Drummond, Guilherme de Almeida, Cazuza. Interessante perceber, mesmo quase dez anos depois, como o texto é atual… Dureza viver nesse Brasil, dureza…