A praia

Muito pensei em meu câncer na tarde que passou enquanto longa, longa caminhada fazia naquela praia sem fim, com os pés nus banhados pela onda gelada porque assim deveria ser ela no inverno cinza que pesava em minha cabeça, ao meu lado Calili, a cachorra do mais triste olhar do mundo…

As imagens, os cheiros, a paisagem, a areia molhada, tudo flertava com a melancolia, com aqueles velhos clichês. Não me sentia assim, no entanto. Havia dentro de mim respostas que há tempos procurava e então tudo ficou mais simples, claro, não triste, ok talvez um pouco, mas esse vestígio da escuridão sempre fez parte de mim, de outras eras…

Decidi que nada faria para derrotar minha doença. Não quero tubos me “tubeando”, nem monitores monitorando, nem doutores piedosos oferecendo a última morfina do pacote. Me chamarão de covarde por não lutar, mas essa foi a constante dessa vida que me esvai, lutar… Não quero mais. Estou muito cansado. E fim. Slow motion suicide e por quê não? Dono de meus pensamentos, desejos, assim está acertado. Eu faço o meu final.

Relembrei também todos os erros, todos, todos. A culpa de boa parte deles sempre pesou em meus ombros. Mas também fui capaz de aceitar que falhei porque quis acertar e não o contrário. Nunca pisei em alguém para conseguir algo e isso vale como moeda de troca. Meus pecados, no fim, só fizeram mal a mim portanto eu me perdoo. Segue a vida ou o que resta dela sem peso algum, sem um se sequer.

Arrependimento, ao menos, nunca houve…

Houve segundos dessa caminhada em que minha mente voou aos tempos em que eu era filho de meu pai, do como ele me abandonou e ainda das tantas vezes que baixei a guarda e deixei que ele voltasse e nenhuma atenção tive. Cansa ser rejeitado. Ele, não perdoarei no meu fim e não o quero ao meu lado quando o caixão pobre carregar meu corpo morto…

Minutos pensei no quanto me atirei nas histórias que surgiram, sem medo as encarei, sofri, mas antes de tudo vivi e foi bacana pacas…

Calili corre da onda, é engraçado,  ela toda manca da pata direita, ela tão velha quanto eu, se diverte, late, corre feito boba…  eu sorrio pra ela porque eu mesmo não poderia ter escrito melhor final…

Mas há um epílogo…

E nele, claro, há um menininho que tem os olhos da mãe, mas o nariz é meu, o gênio é meu, a franja é minha, a cabeça dura é minha, o coração é meu, há ainda a menininha que não tem mais a testa machucada, não está mais quieta, melancólica nem bicuda, ela sorri o sorriso maior do mundo, o vestidinho rosa, o cabelo escorrido, liso na testa, que ela tira com a mãozinha fazendo de um ato tão singelo talvez a coisa mais linda que já vi na vida…

Tem ainda a velha senhora de olhos cinza, tão pequeninha, de aparência frágil, mas nada disso, mulher forte, forte, poucas palavras, as que saem de sua boca são as necessárias… linda, linda, linda…

Os três estão lá naquela ponta distante da praia, acenam, badernam, dizem coisas que não consigo ouvir… paro… olho os três e sei que a sensação de eletricidade que perpassa meu corpo é o sinal de que acabou, sim acabou, mas quem disse que isso é ruim, não é não…

Estou voltando pra casa…

6 comentários em “A praia”

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