Natal sem o filho

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A placa no portão avisa: cão bravo. O toque na campainha confirma. A cachorrada faz uma sinfonia, chama a atenção do dono, protege a casa de um possível invasor. São bravos mesmo. Por instantes, Timoteo Salazar Marin, de 35 anos, pensa que seu presente de Natal pode estar à porta. Logo, a esperança se desfaz. “Os cachorros esperam por ele. Era sempre assim. Dava o horário de José chegar da escola e eles ficavam agitados, no portão, latindo. José cuidava deles, brincava. Comprei esses dois cachorros porque José era muito sozinho. Se davam muito bem”, lembra o pai que convive com uma espécie de mistério há quatro meses desde quando seu único filho José Luiz Salazar Morales, de 14 anos, fugiu de casa. “Só quero que ele ligue pra mim”, desabafa.

TImoteo é um imigrante boliviano. Está no Brasil há oito anos. Ressalta que está de forma legal no Brasil e não pretende tão cedo voltar à sua terra natal “Lá eu era motorista e o dinheiro não valia nada”. Costureiro, casado pela segunda vez, ele trouxe seu filho da Bolívia em 2009. Até então, o menino era criado pela avó. A mãe o deixou quando era ainda um bebê. A família vive na zona norte de São Paulo. José estava na sétima série de uma escola pública e talvez, para Timoteo, essa tenha sido a razão para o desaparecimento do garoto. “Ele não queria mais estudar. Queria trabalhar. Eu dizia com força que só queria que  estudasse, que levasse a sério senão ia apanhar. José se apaixonou por uma menina, eu não deixei namorar. Mas, ele sumiu sozinho. A menina não foi. Não sei…” disse o pai, olhando desolado para um ponto qualquer. “Ele tinha medo de mim, muito medo…”

Num sábado de setembro, ao voltar da Feira da Madrugada, que acontece no centro de São Paulo, Timoteo não encontrou o filho, apenas um bilhete que dizia que o menino chegaria à Bolívia de bicicleta. Nada mais. Desesperado, o boliviano partiu para a Rodovia Castelo Branco. Circulou por cinco horas, sentido Mato Grosso, para encontrar o adolescente. Nada. Deixou fotos nos postos policiais, voltou para casa, foi à delegacia. “Mandaram eu esperar… estou esperando”. Em seu bilhete, José não dizia claramente a razão de sua fuga. O mistério só cresceu, quando em novembro, num sábado também, o garoto ligou para a avó que ainda vive na Bolívia. Disse que estava trabalhando com bolivianos, estava “fazendo” dinheiro para poder chegar em seu país. Comentou ainda que havia quebrado a mão depois de uma queda de uma escada, sem maiores detalhes. Sobre o pai? Afirmou que Timoteo jamais o perdoaria. Po  quê? Pois é, Timoteo não faz a mínima idéia. A ligação para a Bolívia se repetiu nos sábados seguintes.

Como era José? Estava envolvido com drogas? Era violento? “Meu filho era tranqüilo, não tinha nada disso não. Pelo menos é o que eu via. Ele não queria mais estudar, não sei se isso é uma razão pra fugir de casa”. Seria o filho vítima de bullying no colégio? Os meninos bolivianos têm sido alvo de violência nas escolas da cidade de São Paulo nos últimos anos, os casos já se contam a dezenas. Por quê? Por serem bolivianos. Timoteo foi à escola esse ano justamente por causa disso. José teria sido agredido por meninos. O pai conversou com as crianças, com a diretora. “Quando eu perguntava pra ele se estava tudo bem no colégio, ele dizia que sim. Agora não sei se estava mentindo. Eu deveria ter prestado mais atenção”

Desconcertado, o pai fala baixo, não entende de fato o que se passa, tem medo apenas. “Eu ameaçava de bater se não estudasse como todos os pais fazem, o meu fazia isso. Mas eu nunca toquei um dedo nele. Eu sei que trabalhava demais, que não o controlava direito, que talvez não fosse tão presente quanto eu imaginava. Eu falhei!”, aponta mais desolado ainda com um sorriso nervoso no canto da boca. José fugiu somente  com o documento de identidade da Bolívia. Em suas ligações para a avó não mencionou que voltaria para o pai. O que de fato aconteceu com José? Timoteo não sabe responder. “Eu o quero de volta. Não haverá castigo, surra, nada. Só quero entender. Precisamos conversar mais, preciso conhecer meu único filho…” e as palavras se perdem com o latido agudo dos cães. “Será José no portão?” Não, não desta vez…

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