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Explicações…

Abaixo, mais um texto dos tempos de faculdade. Esse também é de 2007 e  faz parte da avaliação final de História e Cultura Afro-Brasileira do professor Lúcio Menezes. Esse trabalho não é um mero formador de polêmica. Há “sustância” nele no que se refere ao debate entre o monoteísmo e o politeísmo… E lamento aos puros e castos, mas gosto sim de um atabaque, de Buda, do homem Jesus, de bruxas, da lua… Enfim… Feliz ano novo!!!! 

Teórico

Atabaque não é coisa do capeta!!!

O canto sacro é uma das formas que o homem, em diferentes tempos e culturas, encontrou para realizar uma conexão com o sagrado. O som dos atabaques nas religiões afro-brasileiras, também, cumpre esta função. Por que todos os símbolos destas religiões são associados ao demônio pelas diferentes denominações cristãs?

É importante partir essa discussão do conceito de que as religiões monoteístas possuem um elevado  grau de intolerância quanto ao que é diferente (quem define quem ou o que é diferente?), ao que não lhe pertence. Como representantes, no mundo ocidental, das classes dominantes, as religiões cristãs empregam esse poder no estrangulamento do que surge em outra direção, que aponta uma nova perspectiva. Essa é a definição por si só do que é ou quem é herege, aquele que escolhe, segundo o cristianismo institucionalizado. Neste sentido, é fundamental para essas religiões se esforçarem na criação de uma imagem negativa de qualquer culto afro. Por serem herdeiros dos escravos, seus remanescentes nas religiões africanas são perseguidos justamente por tentarem resistir com suas tradições, mesmo que isso os levem ao sincretismo – marca tão singular na cultura brasileira. As religiões afro são difíceis de serem aceitas pela “massa” justamente porque não oferecem a dicotomia bem e mal. Para aqueles que a amaldiçoam, é esse o ponto de maior relação com o “capeta”. Para um cristão, é muito claro o que é o bem (pelo menos naquilo que lhe faz sentido) e o que é mal. Associar as crenças africanas ao mal é mais um ponto no discurso de segmentação social. O negro se recolhe ao seu papel insignificante segundo os mandamentos daqueles que detém o poder. Foi assim antes, o é agora. O atabaque não é um símbolo do diabo. Ele evoca uma tradição, uma fé (ou várias), deuses os mais variados que erram e acertam. O atabaque como símbolo é humano. Impensável para um culto monoteísta, que visualiza o humano de cima para baixo, numa escala hierárquica, social…

 

PS: Sou um herege, então? Hum…

Teórico

História e memória

Arrisco iniciar meu texto, retomando a última fala do andróide de Blade Runner. Nela, ele exprime toda sua dor com a morte iminente do conhecimento que adquiriu em seus poucos anos de vida, “momentos que se perderão como lágrimas da chuva”. Ali o que viu, o que sentiu, o que sonhou, o que desejou, tudo desaparece com sua morte. Ao pensar a proposta dessa atividade sobre o ensino de História, Memória e Neoliberalismo, para desenvolver esse texto, me veio à mente toda a “sabedoria” perdida do andróide e a importância que esse dava ao fato. Uma lição ao homem? Sim, Hobsbawn se aprofundou no tema ao mencionar a “destruição do passado”. Interessante casamento proposto pelo neoliberalismo vigente no mundo.

Num cenário desses, o ensino de História surge como alternativa de duas visões/propostas antagônicas. Uma delas (a pior em minha opinião) é manter o status quo. Aceitar o aluno como cliente, se adaptar à lógica do mercado e “passar o ponto” na lousa como se nada tivesse acontecido. Concluindo-se, portanto, que a educação é um bem de consumo. A outra proposta coloca o professor de História na ponta de uma lança que mira o fim dessa “sonolência social”. A contestação ao cenário neoliberal, o “reacender da memória”, o extermínio dessa ideia que se professa de “presente contínuo” (Hobsbawn novamente) são tarefas desse profissional que é sim um “estranho” ao mundo que se configura num processo de individualismo cada vez mais bem orquestrado. Afinal, não podemos esquecer que a educação, para a elite, não é uma necessidade.

Nesse contexto, acredito que cabe a nós, professores de História, percebermos que escolha entre duas vertentes tão opostas será feita. E isso refletirá no ensino e na aprendizagem do aluno. Não sou dado à radicalização de discursos, mas estamos vivenciando uma crise generalizada tão grave que surge no ar a sensação de que não há crise alguma. Essa construção ideológica proposta pelo capitalismo lança a sociedade como refém (e me faz perguntar: será que essa sociedade não quer ser refém disso?). O passado, então, é lançado na sarjeta  e o imediatismo, o efêmero, ganham status.

Sua pergunta faz eco: “Diante disso tudo, você ainda quer ser professor?” O cenário sombrio faz refugar aqueles que se veem perdidos entre os antagonismos mostrados nos parágrafos anteriores. Capitular ou propor uma ruptura? Trabalhar numa ruptura? Sim, talvez eu seja ingênuo. Talvez o andróide seja de fato mais humano que o humano, mas creio sim que o neoliberalismo não seja um fardo para se carrregar como se nada estivéssemos carregando. Apontar suas falhas, indicar saídas, destrinchar o “manto sagrado” do capitalismo são tarefas obrigatórias da rotina de um professor que busca o velho e bom “caminho das pedras”. Refletir sobre esse curso mostrou que é possível alterar o processo de “deformidade” social que estamos sentindo na pele.

A verdade em que vivemos não é a única e nem a “verdade”. O ensino de História e seu engajamento numa proposta de projeto social (como coloca Fontana) esta presente como alternativa a essa verdade.

Crônica · Reportagem

Natal sem o filho

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A placa no portão avisa: cão bravo. O toque na campainha confirma. A cachorrada faz uma sinfonia, chama a atenção do dono, protege a casa de um possível invasor. São bravos mesmo. Por instantes, Timoteo Salazar Marin, de 35 anos, pensa que seu presente de Natal pode estar à porta. Logo, a esperança se desfaz. “Os cachorros esperam por ele. Era sempre assim. Dava o horário de José chegar da escola e eles ficavam agitados, no portão, latindo. José cuidava deles, brincava. Comprei esses dois cachorros porque José era muito sozinho. Se davam muito bem”, lembra o pai que convive com uma espécie de mistério há quatro meses desde quando seu único filho José Luiz Salazar Morales, de 14 anos, fugiu de casa. “Só quero que ele ligue pra mim”, desabafa.

TImoteo é um imigrante boliviano. Está no Brasil há oito anos. Ressalta que está de forma legal no Brasil e não pretende tão cedo voltar à sua terra natal “Lá eu era motorista e o dinheiro não valia nada”. Costureiro, casado pela segunda vez, ele trouxe seu filho da Bolívia em 2009. Até então, o menino era criado pela avó. A mãe o deixou quando era ainda um bebê. A família vive na zona norte de São Paulo. José estava na sétima série de uma escola pública e talvez, para Timoteo, essa tenha sido a razão para o desaparecimento do garoto. “Ele não queria mais estudar. Queria trabalhar. Eu dizia com força que só queria que  estudasse, que levasse a sério senão ia apanhar. José se apaixonou por uma menina, eu não deixei namorar. Mas, ele sumiu sozinho. A menina não foi. Não sei…” disse o pai, olhando desolado para um ponto qualquer. “Ele tinha medo de mim, muito medo…”

Num sábado de setembro, ao voltar da Feira da Madrugada, que acontece no centro de São Paulo, Timoteo não encontrou o filho, apenas um bilhete que dizia que o menino chegaria à Bolívia de bicicleta. Nada mais. Desesperado, o boliviano partiu para a Rodovia Castelo Branco. Circulou por cinco horas, sentido Mato Grosso, para encontrar o adolescente. Nada. Deixou fotos nos postos policiais, voltou para casa, foi à delegacia. “Mandaram eu esperar… estou esperando”. Em seu bilhete, José não dizia claramente a razão de sua fuga. O mistério só cresceu, quando em novembro, num sábado também, o garoto ligou para a avó que ainda vive na Bolívia. Disse que estava trabalhando com bolivianos, estava “fazendo” dinheiro para poder chegar em seu país. Comentou ainda que havia quebrado a mão depois de uma queda de uma escada, sem maiores detalhes. Sobre o pai? Afirmou que Timoteo jamais o perdoaria. Po  quê? Pois é, Timoteo não faz a mínima idéia. A ligação para a Bolívia se repetiu nos sábados seguintes.

Como era José? Estava envolvido com drogas? Era violento? “Meu filho era tranqüilo, não tinha nada disso não. Pelo menos é o que eu via. Ele não queria mais estudar, não sei se isso é uma razão pra fugir de casa”. Seria o filho vítima de bullying no colégio? Os meninos bolivianos têm sido alvo de violência nas escolas da cidade de São Paulo nos últimos anos, os casos já se contam a dezenas. Por quê? Por serem bolivianos. Timoteo foi à escola esse ano justamente por causa disso. José teria sido agredido por meninos. O pai conversou com as crianças, com a diretora. “Quando eu perguntava pra ele se estava tudo bem no colégio, ele dizia que sim. Agora não sei se estava mentindo. Eu deveria ter prestado mais atenção”

Desconcertado, o pai fala baixo, não entende de fato o que se passa, tem medo apenas. “Eu ameaçava de bater se não estudasse como todos os pais fazem, o meu fazia isso. Mas eu nunca toquei um dedo nele. Eu sei que trabalhava demais, que não o controlava direito, que talvez não fosse tão presente quanto eu imaginava. Eu falhei!”, aponta mais desolado ainda com um sorriso nervoso no canto da boca. José fugiu somente  com o documento de identidade da Bolívia. Em suas ligações para a avó não mencionou que voltaria para o pai. O que de fato aconteceu com José? Timoteo não sabe responder. “Eu o quero de volta. Não haverá castigo, surra, nada. Só quero entender. Precisamos conversar mais, preciso conhecer meu único filho…” e as palavras se perdem com o latido agudo dos cães. “Será José no portão?” Não, não desta vez…

Crônica

Uma noite…

Nascemos, vivemos e morremos…

Essa é a única certeza durante toda a nossa existência. Lição simples, de fácil aprendizagem e que nunca nos é ensinada. Vivemos – ou quase todos vivem – com medo da morte, consequentemente, medo de viver. Se aprendêssemos essa lição simples desde o início, passaríamos desde pequenos a apreciar o agora, o presente, aquilo que está acontecendo. Não viveríamos para o futuro, formulando projetos que nada mais são do que projetos, não olharíamos para o amanhã. E por que digo isso?

Porque esse é um agora que vale muito ser vivido intensamente. Esse agora no qual estamos presentes, vivenciando, curtindo nessa noite é daqueles instantes que ficam para sempre, que nos deixam marcas, são gostosos de serem lembrados. Se tivéssemos aprendido na escola a apreciar esses segundos, minutos no exato momento em que ocorrem pode ter certeza que encontraríamos com facilidade o caminho da tal felicidade, felicidade que não deveria ser um projeto pra amanhã e sim algo a ser sentido agora…

Nossos meninos cresceram. Talvez, chamá-los de meninos seja um exagero carinhoso, mas tenho tendência a exageros sempre. Foram tantos ao longo desses mais de sete anos de convivência. Renata, Luis Roberto, Vinícius, Lucas, Bruna, Kaíque, Karina, que eu tornaria presidenta do Brasil se não tivesse nos deixado no meio do caminho. Há tantos… E há os que ficaram até o fim. O quarteto de moços que deu tanto trabalho, mas tanto trabalho… Chegava na sala, cadê os meninos? Diretoria, professor! Vários de meus cabelos brancos têm seus nomes, mas não posso dizer que não tenha me divertido um bocado.

Já as meninas, tantos grupinhos, briguinhas, mas no fim, e que bom isso, tudo terminou bem. Ana, Letícia, Bruna, Tabatha, Stephanie, Rafaela, Raquel, Natália Costa e Nathália Torres trilharão caminhos distintos, mas sei que graça e talento não faltarão a nenhuma delas nesse contato com o mundão… Me orgulho do tempo em que passamos juntos…

Enfim, aproveitemos o agora, estejamos felizes, missão cumprida… sobre o amanhã, não sei, ninguém sabe, talvez não importe de fato… mas agora sim, sorria, agora, está tudo bem!

Contos

Aquela tal felicidade

Parte I

Nunca entendi direito como a vida funcionava. Em vários momentos, lutei contra ela, contra as coisas, bati demais e apanhei muito mais, me perdi, uma overdose aos 24, sanatório aos 30 até que me calei, parei de falar alto, bater as portas e procurar desesperadamente por sentir algo que não fosse ódio ou raiva. Aí, Bia apareceu, pagou minha fiança, me trancou num quarto, fez prometer que nunca mais me furaria, me mataria, cheiraria… Não disse nada, mas ela viu em meus olhos que não havia mais força para o combate. Me rendia, de joelhos, clássico, um clichê. Então Bia me lavou, me amou, cortou meus cabelos, limpou todas as minhas feridas, engravidou e morreu. E ficamos eu e o menino.

Queria tanto aquele menino que o luto se esvaía a cada sorriso bobo ou a cada brincadeira no parquinho. Por tanto tempo entorpecido e aquele menino me fazia tomar banho, virar um professorzinho de periferia, jogar fora toda a tequila e vodka (o vinho não joguei não, ninguém é de ferro). O mundo estava mais estranho do que sempre fora, a intolerância era a ordem, os falsos profetas clamavam por seus deuses, os carros engoliam as pessoas, a polícia decidia quem vivia quem morria, o bandido decidia quem vivia e quem morria, os jornais diziam que tudo estava bem. Demorei pra abrir os olhos para esse mundo afinal meu mundo era um garotinho órfão de mãe e isso me bastava.

Numa tarde de domingo, depois de um temporal e uma soneca imensa no sofá da sala, ouvi barulhos no meu quarto. O menino brincando, claro. Fui de mansinho para não assustá-lo. A porta estava apenas encostada, pela fresta podia vê-lo. Não posso dizer que não me surpreendi. Na verdade, nunca havia pensando nessas coisas, nas possibilidades, desejos, carências de meu filho. Eu era tão tosco, às vezes. Sei lá. O menino vestido como a mãe, passava um batom na boca, imitava uns trejeitos de uma moça da novela. Fiquei ali vendo meu filho travestido. Não posso dizer que fiquei chocado. O moleque tinha sete anos, deixa ele brincar. Ponto final.

Alguns anos depois, a diretora da escola me chamou. “Puta que pariu, vou ser demitido!” Meu coração pulava no peito porque precisava daquele emprego, talvez não porque gostasse, mas o dinheiro era fundamental pra cuidar do meu menino. Fazia conjecturas, criava desculpas, imaginava o pior cenário quando ao abrir a porta da sala de reuniões dou de cara com meu filho, todo machucado, olho roxo, nariz escorrendo sangue, chorando em silêncio. “Ele atacou um colega!”, disse a inspetora. Caralho, se meu filho estava detonado daquele jeito imagina o outro então, “atacou um colega?”. Quando a inspetora terminou a frase imbecil, o menino levantou a cabeça e o olhar que tinha naquele rostinho… ah aquele olhar… aquilo foi como uma estaca no meu peito…”Nunca mais meu filho terá aquele olhar na cara!”. Deixei a besta falando sozinha, peguei o menino, fomos pra casa. Em silêncio.

Tirei sua roupa. Lavei seu corpo. Não curei a dor, incapaz eu de cuidar do meu filho. “Pai, o Miguel estava pelado no vestiário, sem querer, eu juro, fiquei olhando, eu só fiquei olhando, aí aconteceu algo comigo, os meninos viram… e…” te espancaram covardemente … respondi pra mim mesmo. Enxuguei o corpinho machucado do meu moleque, mas sabia que tudo estava apenas começando. Eu precisava voltar a ser aquele homem que não levava desaforo pra casa, aquele animal precisava voltar, sim, era o jeito de proteger minha cria.

Mudamos de escola. Os roxos sumiram do corpo, mas a alma do menino estava incomodada, ele não se encaixava, ele queria voar livre, não se esconder, queria encontrar um sentido, um caminho. Tudo isso passava pela cabecinha do meu filho. Eu apenas deixava “todas as portas abertas” pra que ele soubesse que seu pai estaria ali pra qualquer coisa e que se fosse necessário o animal que seu pai fora um dia, voltaria pra protegê-lo. Aquele mundo não aceitaria aquilo que meu menino queria… Eu estava pronto pra briga…

“Pai”, ele tinha 14 quando decidiu falar comigo de homem pra homem. Eu sabia o que vinha a seguir, não me importava, eu o amava tanto, tanto, tanto. “Pai, eu gosto de meninos…” Olhei pra ele com tanta coisa (amor?) que não sei descrever, mais do que preocupado com aquilo que via na TV e que se referia também ao meu filho, senti um orgulho tão grande dele ter confiado naquele podre pai… Eu o abracei, não precisava dizer nada. Ele sabia que o pai estava ali… Dois anos depois, na noite de Natal, o menino chegou em casa com um moço mais ou menos de sua idade. Eu terminara de fazer uma lasanha esquisita (?) pra janta natalina, estava tenso, sei lá o que pensava quando abri a porta. “Pai, esse é o Luca… meu ami… meu namorado…” Luca olhou com um carinho imenso para o meu filho. Meu coração se acalmou, meu menino encontrara o amor de sua vida, a tal da paz que tanto procurei me abraçava, me aceitava…

Contos

A besta e a menininha

O elevador estacionou no quarto andar. Não era o meu destino. As portas ficaram abertas enquanto me recusei a dar os três passos que me colocariam naquele corredor. Não o notei, não guardei detalhes daquele lugar, não percebi rotas de fugas, nem portas, nada. Apenas na minha cabeça a decisão de sair ou não daquela máquina que parecia teimosamente empacada no lugar que não era a minha escolha. Dei os três passos. Como mágica, as portas se fecharam atrás de mim.

Sobre mim a mais negra escuridão que um homem já possa ter conhecido. Era densa, podia ser sentida entre os dedos. Sufocava. Assustado, sem um rastro de luz que pudesse me guiar, congelei. Não percebia que o caminho de volta estava a três passos para trás. Mas não estava, sabe. Não adiantaria procurar o botão que chamaria o elevador de volta. Ele não ouviria, não voltaria. O coração disparava, sentia o suor de medo escorrendo pela testa. Já não pensava mais direito. Quando andei, fui para a frente. Aí, me perdi de vez. Três passos para trás não serviam para mais nada. Estava perdido.

Então…

A podridão tomou conta e se alinhou à aquela escuridão e como uma irmã se fez presente. Eu não conseguia suportar aquele cheiro. Não havia como evitá-lo. Vomitei, vomitei, vomitei. Caí. De joelhos, rendido, derrotado, indefeso. Como saio daqui? Lá longe, passos. Não consegui gritar, pedir ajuda, nada. Estava atordoado e algo me dizia que aquele que dava aquela caminhada não era meu salvador. Quase nunca erro. O som aumentava. Agora, havia a escuridão, a podridão e os passos vagarosos de algo que parecia de fato se divertir com sua presa.

Consegui me levantar, mas queria mesmo deitar, deitar pra sempre, fechar meus olhos, dormir a eternidade, deitar e acordar outro, dormir, fechar os olhos e ver outra escuridão, não aquela, essa de agora me torturava, me assustava, era fria, imensa, era um pai severo. Deitar eu queria pra todo o sempre porque o cansaço era real, doía nos ossos, na alma. Deitar, no entanto, me levantara. Respirava mal e nada havia no estômago para cuspir fora. Um medo assim, eu merecia? Foi a última coisa que pensei antes dos passos pararem.

“Hummmmmmmm, quem veio pro titio? Aiaiai, que gostoso o que sinto aqui! Cadê, você, meu fofinho? Vem pro titio? Vem pra mim, vem gostosinho!!!!!!”

As garras em meu pescoço, meu peito, meu pinto, minhas pernas. Eram tantas. O bafo daquilo na minha cara. A língua roçava meu rosto. E ele falava, falava, falava. Não sei como, o empurrei. Parti para não sei onde, não tão longe, perto daquele que me devoraria em instante.

“Ahhhhh, foge não, filhotinho. Daqui ninguém nunca escapou. Você é meu, só meu, meu lanchinho. HAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHA”

Coloquei as mãos nos ouvidos, mas era impossível se defender, não ouvir, resistir. O coração acelerava cada vez mais, as mãos gelaram, a garganta secara. Chorei porque chorar era o que me restava, mas chorei baixinho porque assim tinha que ser…

“Vem pro titio, vem, vem… Tô chegando pertinho, to aqui do seu ladinho. Ahhhhhhhhhhh, você vai ser o melhor de todos… Vem, bebê, vem”.

Ele me farejava, me procurava, estava tão perto, perto demais, estava ali a um toque da minha alma. Estava ali pronto me engolir. “Me ajudem, por favor”, mas as palavras não saíram pela minha boca.

Tumtumtumtumtumtumtumtumtumtumtumtutmutmtutmtutmt

MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO

Então…

Aquelas mãozinhas. Pequeninhas. Fortes. Delicadas. Aquelas mãozinhas. Ambas puxaram meu casaco, procuraram pela minha mão. Encontraram. Me distraíram do fim que estava ali tão perto segundos antes. Aquelas mãozinhas me puxaram pra baixo. A voz dela, nos meus ouvidos, ali, de novo, como tinha sido antes.

“Pai, ele não sabe que eu to aqui. Shuuuu. Não diz nada. Eu sei sair daqui. Segura bem forte minha mão, bem fortão, assim muito forte, não vou te soltar nunca. Vem pai, vamos pra casa…”

“Pai, lembra quando eu te contei que tinha feito sexo pela primeira vez?”

“Eu lembro de você ter dito que tinha ficado com uma menina, não tinha ideia que ficar com uma menina agora era fazer sexo. No meu tempo, eram só uns beijinhos”

“Achei que você ia brigar comigo porque eu era novo demais pra aquilo tudo!”

“Ah, Leo, eu era tão velho na minha primeira vez e isso não ajudou as coisas serem mais fáceis na vida… Então, como poderia brigar com você?”

“Foi uma manhã bacana aquela que conversamos tanto, né, pai?”

“Eu fui um bom pai???”

A besta uivava, com ódio, arranhava a escuridão, comia a podridão, ela perdera sua presa, ela queria aquela comida, estava tão perto, seu coração a besta já o tinha há tanto tempo, ela queria o corpo agora, queria inteiro, o comeria uma parte de cada vez, com cerimônia, sem pressa, deleite.

A besta foi enganada por uma menininha chamada Bia, só Bia mesmo.

“Pai, por quê?”

“Cansaço demais, precisava dormir, perdi a conta, foi só isso…”

“Pai, você tá tão machucado…”

“Não se preocupa, verdade, está tudo bem…”

“Meu irmãozinho vai voltar pra você, papai, espera ele, não desiste, procura ele, verdade verdadeira, papai, ele vai voltar pra você”

“Isso não é real, não é?”

“Quem sabe, meu pai, quem sabe…”

Calili, sentada, me olhava com aqueles olhos mais tristes do mundo. Se ela pudesse falar, falaria putz, que noite, hein? Mas nada disse porque cachorros não falam. Me levantei, tomei água no gargalo da garrafa, a chuva havia parado. Calili me seguiu com a galinha sem cabeça na boca, queria brincar a danada. Olhei pela janela. A antena iluminada, uma estrela cadente, faz um pedido, fiz, antes de voltar para o meu quarto, passei pelo dela. Vazio. Nada. Um bercinho apenas, parado, sem vida, sem respirar, sem festa, sem choro, sem aqueles olhões castanhos imensos.

“Isso não é real, não é?”

“Quem sabe, meu pai, quem sabe…”

Crônica

Som do ambiente

Som conhecido. Terminava meu trabalho. A música me chamava a atenção. Segui. Músico colombiano, conversa trivial, nem lembrei de perguntar o nome. Pedi um retrato. Ele deu. Deixei dois reais. Não precisava, ele disse. Canção boa merece. Poderia ter ficado mais. Poderia ter ouvido mais. Fui adiante. A melodia conhecida. Isso é um bom dia, pensei…

 

 

Contos

SÓ MARiA

Ahhh, Maria, pobre Maria. O que te espera nesse futuro que logo chega é tão triste. Tanto fardo para carregar sozinha. Todas as dores e tormentos de um só mundo. Doce Maria, dói se dor eu sentisse imaginar sua solidão, seu medo, suas perdas. E serão tantas perdas, tanta solidão, tanto medo.  Acorda, Maria, acorda. O tempo é esse. Estás só… como foi ontem, como será amanhã!

Maria abriu os olhos, a baba da noite impregnada no canto esquerdo da boca, os cabelos curtos quase arrumados apesar do sono agitado. Ela se sentou, mas ainda sentia que os restos dos sonhos ainda a perseguiam. A voz ressoava na sua cabeça. Até que o despertador tocou e tudo se foi. Maria tomou seu banho de 15 minutos, passou a mão pelas curtas madeixas (que prático, ela sempre pensava), escovou seus dentes. Camiseta básica, calça básica, como todo dia. Corre para a rua porque, pra variar, estava atrasada, sempre, para qualquer coisa.

Quando ela saberá? Hoje, talvez! Nada para impedir isso agora? Não. Ele decidiu. Ele quer. Ele deseja. Assim será! Poxa, poxa, mas Maria? Justamente Maria? É o que tem que ser feito.  Por que Ele tem tanta certeza que agora será diferente? Ele sabe. Valerá a pena? Eu não sei. Você sabe o que ela terá que enfrentar? Tudo? Claro, eu estava lá da primeira vez. Não é certo isso. Nunca foi. Não será.

Ela viu essa cena em um filme. O rapaz encarava um espelho no banheiro. A câmera se aproximava de seus olhos, tanto, tanto, tanto e num instante o moço via seu futuro. Toda vez que se via num espelho, cara a cara, Maria lembrava disso. Hoje, porque hoje tudo mudará, a menina foi além. Arriscou. Tornou realidade a ficção. Mergulhou em seus olhos castanhos tão castanhos que parecem a noite sem lua de um poema triste. Maria foi… recuou… percebeu que era real e foi. Pulou. Braços abertos. Um leve sorriso de conquista, quem sabe. Em seus olhos redondos, gigantes, lindos, tão tristes de outras vidas, Maria viu e soube que tudo aconteceria novamente. E seria ela a escolhida, again. Aí seu peito doeu como nunca e faltou ar. Tentou chegar à superfície, não deu.

Não tenha medo, Maria. Ele está contente com você. Mentiu a sombra. Na verdade, queria dizer o gigante que a moça precisava ter medo, estar precavida, sair correndo para qualquer lugar. Mas o menino mentiu como fizera da outra vez. Cumpriu seu dever. No entanto, agora, poucos minutos antes de trazer a boa nova à menina escolhida, o homem chorou. Não precisa ser ela. Maria já passou por isso. Por que seria diferente dessa vez? Eles não aprenderam nada. Deixe Maria em paz. Por favor. Por favor. Por favor. Ninguém o ouvia. O moço sentou-se ao lado de Maria, que dormia um sono agitado. Tocou seus cabelos curtos. Sorriu pra ela. Sorriu triste porque assim se sentia, mesmo sem entender direito o que se passava dentro dele. Sussurrou algo nos ouvidos de Maria. Segundos. Lá fora, um raio espoca com força. Tudo treme. Maria treme. Não é de frio.

Ela acorda. Percebe o silêncio de seu quarto e o vazio que tudo isso faz gritar de dentro dela. Maria agora sabe. Toca sua barriga. A protege com suas mãos pequenas. Sabe que ali dentro vai a sua vida, seu futuro, todas as perdas que virão do simples ato de dizer sim. Maria, na verdade, não lembra de ter dito sim, nem se foi assim. Ela prefere acreditar que tenha decidido e não apenas, bem, Maria não quer pensar nas possibilidades. Se levanta da cama, ainda a escuridão lá fora. No reflexo da janela, vê seus olhos gigantes. Fecha-os. Não há mais nada. Está feito.

Pobre Maria. É a última coisa que o filho diz antes do fim. Ele toca seu rosto, a consola como pode, num átimo de tempo, o filho quer dizer tanto, não diz, pensa, a dor é tão grande, forte, impede um sorriso mentiroso, dói, é o que ele pensa. Seus olhos fecharão em um momento, mas antes os olhões da mãe que fica é o que vê. O filho parte, Maria fica, segurando-o no colo como um bebê fosse. Um longo suspiro do menino. Maria nada pensa, nada faz. Protege o homem que se foi e partir sempre foi o destino desse homem.

Maria sofre apenas isso porque somente sofrer coube a ela.

 

 

PS: Meu jeito de dizer obrigado a um contador de histórias que morreu esse ano e me faz uma falta danada…