Contos

A escolha

Maria corria da vida.

Alguns (ou todos) diziam se tratar de um grande pecado afinal a moça nunca fizera questão alguma de abraçar a graça que lhe fora concedida por aquele que de todos ri.

Cansada, ela de verdade não se importava e por isso apenas fugia, se lançava pra bem longe daquele que acreditavam ser o bem mais precioso. Maria não queria viver, nunca foi sua escolha, nunca foi sua intenção, não queria agora nessa vida, nesse momento, com essas roupas, cabelos e gírias.

Maria não pertencia a nada, a ninguém, a lugar nenhum. O não pertencimento é o que enchia seu peito vazio do desejo de viver. Poxa, essa menina nunca quis a luz… nunca.

Os nove meses já haviam passado. A primeira filha daquela família já deveria ter vindo ao mundo. Que nada. Irritado, o bebê se escondia o quanto podia naquela escuridão que lhe aquecia, alimentava, protegia. Por isso, antes de ser chamada Maria, a criança se recusava a fazer o que os outros queriam que ela fizesse. Não vou nascer e pronto, disse. Se enrolou no cordão de sua mãe e lá ficou esperando pelo fim. Roxinha, roxinha, roxinha. Quando saiu de dentro de sua mãe, agora sim, Maria não chorou, apenas desapontada ficou. O médico feliz disse que ela tinha apenas mais três horas de vida. Foi salva por Deus, um milagre, um milagre. Olha só, Maria, só mais três horas e nada do que aconteceria depois, aconteceria. Aí, Maria, tadinha, chorou sentida, de tristeza, pela primeira vez.

Dias faltavam para a Copa do Mundo começar. Maria gostava de poucas coisas, uma delas era futebol. Era uma menina diferente, seu cabelo sempre curtinho, os peitos crescendo e sua ira idem. Saiu da escola, um frio com cara de frio mesmo gelava seu sangue, ela tinha onze anos e sua cabeça voava longe sempre. Aqui, no lugar que ela estava, nunca era o lugar, entende? Ela sabia que era de lugar nenhum. Descia pela rua, rumo ao ponto de ônibus, olhava pro céu nublado que tinha uns rasgos bonitos de sol que tentavam, tentavam, tentavam passar, mas não conseguia. Gosto dessa nuvem que não deixa o gigante passar, disse a menina. Ela não percebeu em instante algum, só no instante final e aí já não interessava mais, que no caminho contrário subia um daqueles caminhões imensos, pesados, cheios, mas esse estranhamente veloz. Maria fechou os olhos e sorriu, ufa, agora acabou, mas que nada. Alguém (que droga), a puxou no momento exato como acontece naqueles filmes feitos de açúcar.

Maria sentiu só o sopro daquilo que sempre quis.

Caramba, Maria, será você imortal? Ela não acreditava nessas coisas. E foi tirar a dúvida quando chegou aos 20, na verdade, 21. Dessa vez, ela correria tão rápido da vida que só a morte poderia alcançá-la. Era o que a doce e raivosa menina queria, por quê raios ninguém entendia esse seu desejo? Maria não gostava da vida, da dor que sentia forte no peito que nada tinha além dessa dor que não passava nunca. Maria zumbiava e nada mais. Invisível. Quem no mundo pensava em Maria ao menos uma vez num dia qualquer? Quem? Quem? Quem ao dormir falava baixinho como uma oração espero que Maria esteja bem? Ninguém, convenhamos, sem hipocrisia. Maria poderia ser qualquer uma, não fosse essa estranha maratona que trazia consigo desde sempre.

Então, a moça, fez o último teste. Ela não viveria pra sempre, que é isso sim uma maldição e não o contrário. Viver no lugar errado, no tempo errado, na vida errada não é viver. Maria alcançou o topo desse mundo que não lhe pertencia e lá de cimão olhou pra baixo. Viu tudo, todo o planeta,  em silêncio, parecia que agora todos acordavam e notavam aquele pequeno corpo pisado, maldito, de olhar triste que não é ódio, talvez, apenas cansaço, nem sei mais.

Maria não queria viver pra sempre. Ela precisava provar que não era imortal. Então, corajosa como sempre, sim senhor corajosa e não me importa a sua opinião, ela chegou bem na beirinha do fim daquela que era a montanha mais alta daquele mundo. Maria poderia voar se quisesse. Mas ela não queria brincar agora. Chegou ao final da linha. Olhou para baixo novamente. Não sou imortal, pensou, e pulou.

Contos

FICÇÃO

 

Pense numa realidade diferente. Um lugar no qual tudo o que você conhece e aceita como certo é diferente.  Uma dimensão que caracteriza seu bem como mal e seu mal como bem. Pense nesse mundo. Deus é o Diabo. Diabo é Deus. O caminho da ida é o da volta. O caminho da volta é o da ida. Feijão é arroz. Arroz é feijão. Dia, noite. Noite, dia. Sonho é pesadelo. Pesadelo é sonho. Sorriso é dor. Dor é sorrir.

Universo em mutação que restringe sua liberdade, mas releva seus fracassos. Lá, você pode ter o que quer, mesmo sem saber se isso é bom ou ruim. Nesse lugar que não é aqui tudo parece muito com o que há aqui. Mas não é aqui. É diferente. Nessa atmosfera, nos conhecemos no tempo certo, sem mais nem menos. E ficamos enquanto o tempo quis.

Em silêncio…

Isso porque nesse sistema que não é o nosso – mas é tão parecido – o silêncio não é crime, nem dor, nem marasmo, nem fim. Então, lá o que não é igual, é igual. O igual não é o que é igual. Aí, a confusão e o medo não surgem, não têm espaço. Sentimentos frios como esses vagam perdidos como almas.

Almas como a minha que vaga pelo mundo real querendo ser encontrada. No outro lado, eu não preciso ser achado, descoberto.   Simplesmente, estou lá e sei o que estou fazendo. Você também. Nessa paisagem que não é a nossa, a paisagem parece ser a nossa. Mas não. Ali, a escuridão é para ser sentida. No entanto, ela não assusta. O errado é certo. O certo é errado.

Pense numa realidade diferente.

Lá, o fim da história é o início.

O início é ponto final….

Contos

Instantes

10…

O ponteiro dos segundos anda lentamente. Sei tudo o que está por vir. E aceito o destino, mesmo não acreditando nele. O peito dói como nunca, mas não é medo do que está ali pronto para acontecer. È uma dor assim, dor que não existe, que incomoda só quando se respira

 

9…

O ar muda. O vento sossega, mas voltará com força daqui a um momento. É possível ainda olhar para as estrelas. Vejo a lua também. Bonita, grande, tão solitária e melancólica. Como a lua se sente ao olhar para a Terra? Penso nisso…

 

8…

Busco vida nesse fim e sentido para um monte de coisas. Não dará tempo, enfim, para achar resposta alguma. Lá no fundo, uma trilha sonora chorosa lamenta denial, denial, denial… Sou espectador de tudo o que eu sabia que aconteceria um dia. Que bom, dessa vez não tive culpa!

 

7…

Fecho os olhos, mas os abro rapidamente. Não quero perder nada. Minha curiosidade, inquietude e teimosia me levaram a esse momento. Eu fui responsável pela minha vida, apesar do destino, três segundos atrás…

 

6…

Só penso na dor que não existe no peito. E no quanto essa dor dificulta a respiração. Todos correm. Pânico. Mas eu não quero correr não. Estou bem aqui. Cansado para fugir. Nunca fugi… não fugirei agora. ..

 

5…

Vejo os quatro cavaleiros. Eles são ferozes, cruéis e devastam tudo. Tudo. O céu agora é vermelho e as estrelas disseram adeus. Tchau, estrelas. A lua, eu acho, só chorou.

 

4…

Toco o braço da tatuagem. Acaricio como se fosse ela. Um toque leve, discreto, ninguém notaria. Um toque só para dizer estou aqui não tenha medo minha mão vai segurar a sua e queira ou não tudo acabará bem não tenha medo menina eu cuido de você agora no fim e no pra sempre que virá depois disso…

 

3…

Fecho os olhos de novo.

 

2…

Abro esses olhos castanhos que já brilharam por coisas tão simples. Meus olhos disseram tudo sempre. Eles nunca mentiram. Nunca. Meus olhos me entregaram e não me importo com isso…

 

1 …

Acabou. A explosão varre tudo e me leva junto. Só pó resta e não sei mais de mim. Tudo e nada. Assim é o fim.

Atividade escolar · Crônica

Além das palavras jogadas no papel

Leio nos jornais e não entendo nada. Poderia procurar respostas em revistas, livros, discos, internet, mas não. Eu não entendo nada mesmo. Vejo apenas que o Brasil (ou Brazil?) de Cazuza não mostrou sua cara. Os mendigos de Drummond mudam de viadutos como mudam de casa. O circo de Portinari é triste, sem o vermelho, o azul e o amarelo. E o Pink? Os namorados de Almeida choram quietinhos para não acordar o mundo. Eu tento entender…

Quero dizer que não há o que compreender nesse mundo. Não sou pessimista. Há tempos tirei a pedra do meio do caminho e busquei cores  quentes na paisagem fria. Mesmo assim, folheio tudo o que me chega e nada encontro. Sou eu o problema, então?

Vácuo. Silêncio. Queremos agora escutar o que aquele homem lê em voz alta. Ele diz que o mundo divide-se em dois: de um lado, aqueles que querem mudar. De outro, aqueles que já viram (leram) tudo, desistiram e não encontram motivos para continuar. Assunto difícil. O capataz de Portinari queria mudar? Os trabalhadores do cafezal não encontram mais motivos para continuar?

E pelas estradas silenciosas de Almeida…

Que ela venha ao menos num domingo de sol!

Comodidade, tecnologia, desenvolvimento. Socorro!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Tudo muito fácil. Na mão. Sem conhecimento, esforço e prazer.

Pessoas felizes, cheias de esperança, na triste alegria de viver nesse mundo.

Aí lembro da pedra no meio do caminho (como esquecê-la?)

Assobio sem pretensão alguma: “Me diz, me diz, como ser feliz em outro lugar?”

O mundo não me deixa entendê-lo. Tento, de novo. Será que o problema está na forma como eu leio? Estou lendo errado? Acho que não. B + A = BA. P + E = PE. Estou lendo certo, as sílabas se formam, se juntam e tentam dizer alguma coisa naquele pedaço de papel. Será uma armadilha do mundo não compreendê-lo? Pode ser. Não há como contestar o que não se entende.

Ah, agora entendi. Leio, releio. A tarefa parece difícil e é. Procuro outros olhos para vislumbrar o que a maioria dos brasileiros não vê. Queremos ser primeiro mundo, mas o menino da favela nunca leu um livro. O operário também não. O empresário? O que falar daquele político? Pra ele, literatura é auto-ajuda. Nada mais. Sim, compreendo agora a tristeza (disfarçada de alegria?) nas carinhas das crianças de Portinari. Crianças brincando sem o vermelho, azul e o amarelo. O branco? E o pink?

EXPLICAÇÃO: Projeto promovido pela Nestlé nos anos de 2004 e 2005. Eu coordenei os trabalhos com as turmas do nono ano no Externato São Judas na ocasião. No caso desse texto, partíamos a produção dele da leitura de obras de Portinari, Drummond, Guilherme de Almeida, Cazuza. Interessante perceber, mesmo quase dez anos depois, como o texto é atual… Dureza viver nesse Brasil, dureza…

Contos

Dez segundos que fazem toda diferença… ou não!

E você acha que eu me importo?

Não mais

Com nada, com ninguém, comigo

Então

Atira, atira

Bem aqui ó,

Bem aqui no “meio dos olhos”

Atira, vagabundo

Nunca sentido algum houve em qualquer coisa

Atira, por favor, atira

Tão cansado…

Soou como uma oração tão verdadeira que os anjos do céu baixaram suas cabeças de vergonha por causa do nada que haviam feito antes para cuidar daquele pobre miserável que seria filho de deus se esse existisse…

O homem do revólver nunca entendeu como a vida funcionava

Segurava sua ferramenta de trabalho como sempre

No entanto, dessa vez, desafiado por um fracassado, um perdedor…

Desafiado por aquilo que não era…

Nesse instante, o homem do revólver recuou, tremeu, relutou fazer aquilo que tão bem fazia

Então

O homem do revólver encarou os fundos dos olhos de sua presa

E o que viu? O que viu?

Atira

ATIRA

ATIRA, filho da puta

Nos fundos daqueles olhos

Nenhum brilho, alma nenhuma

Vazio somente

Se procurasse mais fundo ainda,

O homem do revólver ouviria o grito de milhões de demônios clamando pelo fim, mas ele só foi até o vazio e isso já era mais do que suficiente.

O arrepio de morte perpassa todo o corpo do homem do revólver

Ele tem como alvo, como um trabalho, como algo a ser feito alguém que já está morto

Morto, mas vivo

Um vivo quebrado, despedaçado…

Um zumbi… pensa o predador…

Como matar o que já está morto?

Dilema dilema dilema

Atira, covarde, atira

O homem do revólver ama seu velho 38. Por que uma automática? Uma bala, apenas uma. Meu velho e bom 38. Uma apenas é suficiente …

Atira, dessa vez, foi como suspiro lento, longo, profundo…

Silêncio

Um disparo

Sangue e pólvora, pólvora e sangue…

Vida que segue e assim é porque tem que ser e ponto final.

Contos

A LOIRA DO BANHEIRO

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Quando aqueles garotos arrancaram minha calcinha, percebi de fato que não se tratava de um sonho. Fechei os olhos com toda a força do mundo e consegui sair de mim. Me lembrei do tempo em que papai batia na mamãe. Eu sempre fechava os olhos e voava longe. Com aqueles meninos, naquele banheiro fedido, não foi diferente. Eu tinha 13 anos. Quando papai esmurrava mamãe, tinha cinco. Mamãe morreu. Papai, não sei. Ao ficar órfã, minha vózinha chegou do interior para cuidar de mim. O cheiro dela é inesquecível, doce, acalentador. Quando estou de “bico”, procuro pensar na sensação que tinha ao ela chegar perto de mim. Era bom.

Vovó sempre me arrumava para a escola. Dizia que eu tinha de estar sempre linda. Ela penteava meus cabelos “dourados” de uma princesa. Ela dizia isso e me deixava feliz. Meu uniforme estava sempre bem cuidado, merenda gostosa dentro da lancheira. Fui feliz nesses anos. Me complicava em matemática, mas no resto eu ia bem. Vovó se orgulhava dos “10” que tirava em redação. Eu adorava escrever cartas melosas, cheias de romantismo barato, para ninguém. As escondia numa caixa de papelão rosa, em formato de coração. Tinha virado mocinha aos 11. Não foi um susto ver aquele sangue escorrendo pelas minhas pernas porque a vovó e a tia Ceci (minha fessora) já haviam me explicado que isso aconteceria. A partir daquele momento eu era uma mulher. E a vovó completou: “uma mulher dos cabelos dourados”. Foi um dia bacana.

Eu seguia crescendo e me apaixonava pela primeira vez. Guto era bonito, forte, esperto, tinha 16. Já bebia e dizem que já tinha até feito sexo. Eu gostava dele. Contei para vovó e ela pediu para eu me cuidar. “Não sei se gosto desse rapaz!”, disse. Não era ciúme ou implicância dela. Era apenas uma sensação… vovo2 copy

Um dia criei coragem e fiz um poeminha para ele. Coisa boba, coisa de menina. Mas totalmente sincera. “Meu Deus, ele quer me encontrar!” Nunca me senti tão doida quanto naqueles segundos antes de ver o Guto, sozinha. Eu estava apavorada. Queria, porém, estar com ele. “Será que ele já tinha me notado antes?” Eu mal podia me segurar dentro do meu corpo. Queria voar longe de felicidade. Naquela época, estudávamos à tarde. Ele queria se encontrar comigo quinze minutos depois do último sinal. Daria tempo para a gente conversar bastantão antes da turma da noite chegar. “Não sei se gosto desse rapaz!” Lembrei da minha vózinha. Deixei meus cabelos soltos. Uma amiga emprestou um batom bem clarinho e discreto. Estava cheirosa. Meu sapato novinho estava brilhando. Presente da vovó. “Ele ia gostar de mim?”

E sentada ali fiquei entre os pavilhões dois e três. Estava frio. Eram quase seis horas e a noite já tinha chegado. Coloquei o casaquinho que minha avó tinha feito. Estava com o cheirinho dela. Senti saudades. Levei um susto. Deixei minhas coisas caírem no chão, mas não tive chance de pegá-las. Foi tudo muito rápido. Dois amigos do Guto me seguraram com força. “Cadê ele?” Eu tinha medo desses garotos. Eram grandes e encrenqueiros. Estavam sempre na diretoria. Um deles tinha mais de 18. Me apertaram com força e me jogaram para dentro do banheiro do pavilhão dois. Caí de joelhos e bati o queixo no chão. Não estava entendendo nada. Aí, uma voz doce e conhecida quase me acordou daquele pesadelo que se iniciava:

“Quer dizer que a putinha loira quer me dar?”

Era o Guto. Seus amigos riam alto. O eco daquelas risadas naquele banheiro fedido me fez ver papai matando mamãe de novo. Foi ali na minha frente. Tinha cinco anos. Estava novamente paralisada. Não conseguia gritar, chorar. Tremia, tremia, tremia. “Vovó, segure minha mão…”

Quando aqueles garotos arrancaram minha calcinha, percebi de fato que não se tratava de um sonho. Fechei os olhos com toda a força do mundo e consegui sair de mim. Tinha 13 anos. Não estava mais em mim e isso aliviou toda a dor daqueles minutos que não acabavam. “Olha Guto, é cabacinha!” “Oba, é minha. Não tem mais isso no mundo”. “Eu primeiro, eu mando, esqueceram?” Tentei escapar mais uma vez. Um dos amigos do meu primeiro amor acertou um soco no nariz. Me afogava no meu sangue. Num instante, tão instante que quase não percebi, uma gota desse sangue caiu no meu sapato novo. “Deixa, vovó, eu limpo quando chegar em casa”. Tanta dor. O cheiro horrível daqueles animais em cima de mim. Solidão. Quando um deles quebrou meu pescoço não senti mais nada.

“Desculpa, vovó, não vou conseguir limpar o sapatinho novo…”

Ao acordar num mundo estranho, sentia frio. Estava presa naquele lugar. Meu cativeiro eterno. Nunca soube como fora meu enterro. Não vi mais vovó. Não sei há quanto tempo estou aqui. Não sei o que aconteceu com o Guto. Às vezes, me olho no espelho e choro com o que vejo. Meu rostinho todo machucado. Um rastro, um pequeno rastro de sangue que sai do nariz em direção ao queixo que nunca limpa, por mais que eu tente. Olhos fundos. Olhar perdido. Cabelos dourados não mais dourados. Enfim…

… confusa como toda menina de 13 anos.

Tenho medo do escuro. Aprendi com o passar do tempo a deixar a luz desse banheiro acesa quando todas as outras do colégio são desligadas. Não durmo e para não ficar louca, ando em círculos, acompanhando o caminho que a luz faz ao bater no piso. Solidão.

Uma vez, duas, três, tentei me comunicar com um menino. Nem todos são maus ou cruéis como o Guto. Nunca quis fazer nenhuma maldade com eles. No entanto, o susto que levavam era tão grande que os paralisava. Dois morreram de medo. Outro, enlouqueceu. Juro, não era minha intenção. Apenas queria contar a minha história…

Poxa…

Você quer ouvir a minha história?

loira

 

arte: LICIDA VIDAL

Contos

A fé

Quando todos os deuses morreram

Nada daquilo que disseram que aconteceria aconteceu

Raios não riscaram o céu

Crateras não engoliram o mar

Eu, do inferno, a tudo via com um sorriso cínico na cara

Poderia ter feito alguma coisa, mas não fiz, não quis

Que se explodam os Deuses, pensei

 

Maria acreditava em um Deus

Seu papai disse a ela:

“Nosso Deus é o único Deus e não há outro que te salvará quando o fim chegar”

De chupetas e chiquinhas, Maria não entendia as palavras de seu pai, mesmo assim as seguiu

De verdade, não havia para ela outra alternativa,  muito menos Maria sabia que poderia escolher acreditar no que quisesse acreditar.

 

Maria tinha um só Deus e isso a ela bastava.

Quando a guerra na montanha mais alta do mundo teve início, a menina não imaginava ser algo tão sério. Ela sabia que seu Deus era forte, único e aqueles que queriam seu trono nada poderiam fazer.

 

Coitada da Maria, seu Deus não aguentou 24 horas de batalha

Mesmo assim, Maria rezava, rezava, rezava

A Fé de Maria era pura, iluminada e por mais que dissessem a ela “Os Deuses estão mortos”, fingia que não ouvia, que não seria possível um mundo sem seu Deus poderoso…

 

Um dia, Maria acordou,

percebeu um silêncio diferente,

mais profundo,

mais denso,

mais tolerante

afinal o silêncio não é todo o mal que existe no mundo…

 

Maria ouviu esse vazio de som e chorou

Chorou porque agora ela percebia que de fato toda a sua fé não levara a nada

O todo poderoso não tinha poder algum.

 

A consciência das coisas

Maldição

Quero a ignorância da fé cega

Quero a ignorância do não saber

Quero a ignorância…

 

A menina contra tudo e todos,

Contra o silêncio piedoso,

Contra as pedras que voaram contra seu rosto,

A menina rezou, rezou e rezou…

 

Sabia que dessa vez seria diferente,

Ninguém a ouviria, se é que em algum momento, a ouviram

 

Os céticos, os cínicos, os sobreviventes

Olhavam pra Maria

“Pobre menina Maria, enlouqueceu”

 

Quando todos esqueceram seus Deuses,

Maria, a louca, a crente, subiu ao céu,

E na montanha mais alta do mundo, Maria resgatou o corpo de seu Deus…

 

Velou-o

Enterrou-o

Abençoou-o

 

Ah, Maria, pobre Maria…

Contos

A praia

Muito pensei em meu câncer na tarde que passou enquanto longa, longa caminhada fazia naquela praia sem fim, com os pés nus banhados pela onda gelada porque assim deveria ser ela no inverno cinza que pesava em minha cabeça, ao meu lado Calili, a cachorra do mais triste olhar do mundo…

As imagens, os cheiros, a paisagem, a areia molhada, tudo flertava com a melancolia, com aqueles velhos clichês. Não me sentia assim, no entanto. Havia dentro de mim respostas que há tempos procurava e então tudo ficou mais simples, claro, não triste, ok talvez um pouco, mas esse vestígio da escuridão sempre fez parte de mim, de outras eras…

Decidi que nada faria para derrotar minha doença. Não quero tubos me “tubeando”, nem monitores monitorando, nem doutores piedosos oferecendo a última morfina do pacote. Me chamarão de covarde por não lutar, mas essa foi a constante dessa vida que me esvai, lutar… Não quero mais. Estou muito cansado. E fim. Slow motion suicide e por quê não? Dono de meus pensamentos, desejos, assim está acertado. Eu faço o meu final.

Relembrei também todos os erros, todos, todos. A culpa de boa parte deles sempre pesou em meus ombros. Mas também fui capaz de aceitar que falhei porque quis acertar e não o contrário. Nunca pisei em alguém para conseguir algo e isso vale como moeda de troca. Meus pecados, no fim, só fizeram mal a mim portanto eu me perdoo. Segue a vida ou o que resta dela sem peso algum, sem um se sequer.

Arrependimento, ao menos, nunca houve…

Houve segundos dessa caminhada em que minha mente voou aos tempos em que eu era filho de meu pai, do como ele me abandonou e ainda das tantas vezes que baixei a guarda e deixei que ele voltasse e nenhuma atenção tive. Cansa ser rejeitado. Ele, não perdoarei no meu fim e não o quero ao meu lado quando o caixão pobre carregar meu corpo morto…

Minutos pensei no quanto me atirei nas histórias que surgiram, sem medo as encarei, sofri, mas antes de tudo vivi e foi bacana pacas…

Calili corre da onda, é engraçado,  ela toda manca da pata direita, ela tão velha quanto eu, se diverte, late, corre feito boba…  eu sorrio pra ela porque eu mesmo não poderia ter escrito melhor final…

Mas há um epílogo…

E nele, claro, há um menininho que tem os olhos da mãe, mas o nariz é meu, o gênio é meu, a franja é minha, a cabeça dura é minha, o coração é meu, há ainda a menininha que não tem mais a testa machucada, não está mais quieta, melancólica nem bicuda, ela sorri o sorriso maior do mundo, o vestidinho rosa, o cabelo escorrido, liso na testa, que ela tira com a mãozinha fazendo de um ato tão singelo talvez a coisa mais linda que já vi na vida…

Tem ainda a velha senhora de olhos cinza, tão pequeninha, de aparência frágil, mas nada disso, mulher forte, forte, poucas palavras, as que saem de sua boca são as necessárias… linda, linda, linda…

Os três estão lá naquela ponta distante da praia, acenam, badernam, dizem coisas que não consigo ouvir… paro… olho os três e sei que a sensação de eletricidade que perpassa meu corpo é o sinal de que acabou, sim acabou, mas quem disse que isso é ruim, não é não…

Estou voltando pra casa…

Teórico

Tragédia rural

A modernização – fenômeno social, econômico, político e cultural do final do século XIX – tem no centro urbano seu mote principal. Apesar do Brasil ter sua população dividida historicamente entre CIDADE e CAMPO, nessa época, esse processo, que relegou antigas tradições à extinção, também se enraizou no meio rural. Levou mais tempo, é verdade, mas a modernização da sociedade burguesa mundo a fora alcançou a terra. O latifundiário conseguiu legalizar sua propriedade a partir de 1850 (Lei das terras). Que propriedades? Como conseguiu tais terras? Trabalhando sol a sol, claro, não foi. O problema é que enquanto esse novo cenário mundial englobava a figura do grande proprietário de terras, o sitiante se via excluído.

Com mão-de-obra familiar, sem apego a um local, mudando, se mesclando à realidade da região em que vive, o caipira encontrou apoio apenas em outro caipira. Essas relações vicinais mantiveram as tradições desse grupo social.  De qualquer forma, porém, não foram capazes de brecar o avanço da modernidade. Invariavelmente, suas pequenas propriedades acabavam nas mãos de latifundiários. E toca o caipira a cair no mundo. Erroneamente, essa não “permanência” alçou o caipira à condição de vagabundo, daquele impróprio para o trabalho. Imagem estilizada no famoso personagem Jeca Tatu, criado por Monteiro Lobato no início do século XX. O que se precisa dizer é que esse caipira seguia uma lógica própria que não a imposta pela “fábrica”. Seu dia não conta, segue, nasce pelo tilintar dos relógios fabris.  Seu ano não é contado pelo calendário burguês do trabalho. O caipira, como trabalhador do campo, segue a lógica da natureza e seu tempo. Nasceu o sol, hora de trabalhar. Mas, agora, trabalhar onde?

A questão da terra no Brasil não é um fenômeno recente, da era MST, por exemplo. Remonta às grandes propriedades avalizadas (sem parâmetro algum além da conta bancária) pelos governos do século XIX (e aqui cabe nova e mal fadada lei das terras de 1850, novamente). O descalabro da expulsão do homem do campo originou as lutas camponesas, a liga camponesa, entre outros movimentos – inclusive o já citado acima movimento dos sem-terra. A reforma agrária, assunto recorrente há um século pelos corredores do Congresso Nacional e nada além disso, nunca se firmou de fato como uma realidade. E o caipira assiste a isso, talvez incrédulo, partindo de um canto para outro.

Como movimento que discute a questão da posse da terra nas mãos de tão poucos, o MST se tornou alvo  da mídia burguesa. A radicalização de suas ações (acredito que necessária) afastou o apoio da classe média. Apesar da massa popular que o segue, o movimento dos sem-terra está longe da realização da utopia “de que não haverá um homem sem seu pedaço de chão para plantar”.

Nesse contexto, no qual a mecanização do campo só aumentou o desemprego, o êxodo, a migração, o latifundiário não perdeu espaço. Como não lhe faltam trabalhadores sem trabalho, paga o que bem entende. A miséria no campo não difere da miséria na cidade. E se o caipira se fecha em seu grupo, o bóia-fria, para sobreviver, desbrava o desconhecido. Pulando de cidade em cidade, o corte da cana lhe traz a sobrevivência da família. A um preço alto demais! Por 10 mil toneladas/dia esse homem se afasta de seus familiares, revive os cenários ingleses da revolução industrial no século XIX, e passa a ser um estrangeiro, um clandestino em seu núcleo de trabalho. Se não gostar, paciência, outro assume seu lugar. Sim, “as pessoas não migram porque querem”. Por um pedaço de terra, elas se põem a caminho, como lembra Hobsbawn. O problema está que não são donos de suas vontades e a realidade do mundo capitalista, que mata as tradições daqueles que foram excluídos do processo de modernização, se vê simbolizado nos calos das mãos dos trabalhadores rurais do Brasil.

Teórico

Poesia x ignorância

Durante o século XIX, teorias das mais diversas foram elaboradas com o intuito de estabelecer a supremacia da “raça” branca. O principal alvo, claro, os negros, foram apontados como inferiores, incapazes. O médico Nina Rodrigues, voz com credibilidade em seu meio social, defendia tais ideias. A eugenia justificava a escravidão e uma brutal diferenciação social. O neocolonialismo e o pretenso desejo de levar a civilização – inventada, ditada e moldada pelos europeus –  a todos os cantos do mundo se amparavam nesses conceitos. Bom, mas aí surge a turma do morro, muitos sem estudo, muitos sem perspectiva alguma de futuro. E o que fazem? O trecho de Nelson Cavaquinho selecionado para esta prova  – “quando piso em folhas secas, caídas de uma mangueira, lembro da minha escola e os poetas da minha estação primeira. Não sei quantas vezes subi o morro cantando” – aponta e invalida as teorias de Nina Rodrigues e tantos outros. “Quando piso em folhas secas…”, construção belíssima de tempo, é uma criação de um ser inferior? Não fiquemos apenas na música. A ginga negra no futebol brasileiro é sua marca registrada. Haveria pentacampeonato mundial sem negros na seleção? Seriam os negros uma “raça” degenerada? Evidente que os discursos racistas do século XIX serviram à uma classe social, a um discurso dominante. Discursos esses que não se sustentam aos primeiros acordes de um cavaquinho em qualquer morro carioca, por exemplo. A valorização da cultura (s) negra e o consequente processo que levará ao homem/mulher a ter consciência de que sim ele possui dignidade perpassa pela derrubada de mitos e preconceitos em uma sociedade como a nossa que prega o tal do “racismo cordial”. Cartola, Guinga, Nelson Cavaquinho, tantos, tantos que nunca souberam o que defendia Nina Rodrigues. No entanto, foram eles, os primeiros a provar que o médico que defendia a inferioridade de uma “raça” não tinha argumentos contra o talento e a poesia.