Um três de julho qualquer…

Há brinquedos em todos os cantos. Soldados, heróis, vilões, carrinhos, motos, um trem ainda sem trilhos para correr e trilhos como montanha para os guerreiros de plástico se divertirem. Uma bagunça. Adorável.  Vejo tudo isso, deitado de lado no sofá. A TV está ligada, não me importo. Sono chega. Menino no quarto sonha, respiração suave. Bálsamo.

 

Desperto antes do despertador. Saio da cama num pulo. O menino ainda dorme. Vai dar tempo.  Coloco um casaco de capuz. Frio do inverno. Sol gelado pela janela da cozinha vejo com êxtase. Cantarolo canção do rádio you… your sex is on fire. Volume um, talvez, dois traços. Não quero acordar o menino. Bandeja. Três torradas. Geleia de uva. Suco de laranja sem açúcar. Bolachas. Leite com Nescau. Pão de queijo. Rodopio ao som que sai da boca de Mick Jagger. “Como você se sente?” , ele versa. Oras, estou ótimo shuuuu vou acordar o menino.

 

Presente na cama? Ok! Café da Manhã? Ok! Barba feita pra dar um montão de beijo de aniversário? Hum. Ainda não ! Corre, corre. Papum. Tudoem ordem. Horada bagunça. E a moça da rádio diz no, no, no, ah e eu sem pensar yes, yes, yes …

 

“Quem tá fazendo nove aninhos hoje? Quem? Quem?” Eu pulo na cama sem pensar no estrado, relaxa a bandeja do café ficara no criado-mudo. Cobertor, lençóis, maior zona e ele acorda feliz, sorriso fácil, buraquinho no queixo, ai quero morder meu menino lindo, como você é lindo! Parabéeeeeeeeeeeeeeeens, abre o presente do pai e toma seu café.

 

Aeeeeeeeee! Era o que eu queria! Aeeeeeeee!

 

Não será o único desejo realizado do dia.

 

Banho daqueles. Lava tudo moleque, atrás das orelhas também é seu. Xampu cheiroso. Água quente. Menino canta no chuveiro. Não sei não o que ele canta. Pronto? Pronto, pai! Roupa nova no menino.  Gel? Hum, vai sem, tá bonitão assim.

 

“Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo…” e ele corre e meus olhos acompanham o quanto de vida passeia à minha frente. Dividimos o perfume. Dividimos o espelho. Dividimos as sensações de um dia que nasceu e será perfeito.

 

Gibi na banca.

 

Lanche no McDOnalds.

 

Filme no cinema.

 

Festa surpresa no fim da tarde que surpreende tanto o moleque que chora de alegria. Abraça forte e diz aquilo que eu não preciso dizer agora. È nosso. E aí corre moleque pela casa com os amigos. Mais bagunça, zoeira, tanta energia. E toda vez que o encontro, o vejo discretamente, preocupado como nunca, ali minha vida inteira, ali na minha frente, não há uma sombra ao lado dele. Nem sinal de escuridão. Sorrio porque me cabe sorrir apenas. E amá-lo.

 

Canta-se o parabéns pra você e o com quem será é para uma japonesinha cheia de vergonha. Os dois vermelhos e bobos ali. Primeiro pedaço de bolo é meu, claro, ele não é louco, ia dormir na casinha do cachorro se não fosse. Ele me abraça de novo e fico feliz por nos abraçarmos tanto e por dizermos tanto um ao outro. Dizemos sem medo. Dizemos a qualquer hora. Eu te amo. Eu te amo. Assim vivemos os dois, do jeito que dá para viver. Nenhum sinal de escuridão ao lado dele.

 

Os convidados vão dizendo tchau. A namoradinha também vai com o pai e a mãe a tiracolo. Restam eu, ele e o cachorro. O cachorro segue pro seu canto. O menino segue pro Everest de presentes que ganhou. No canto da sala, ele aproveita os últimos momentos do seu dia. Na cozinha, só agradeço. A quem não sei. Agradeço apenas.

 

Cama, moço!

 

Ah, só mais um pouco…

 

Dez minutos…

 

Ebaaaaaaaa.

 

E aí o doidinho ri sozinho, cria suas histórias com seus bonecos, carrinhos e trens. Ele fala com a mãe que morreu e diz que está feliz. Eu ouço e não atrapalho. È o tempo deles juntos agora. Ele diz ainda que não poderia ter tido despedida melhor desse mundo de meu deus. Ele diz isso.

 

Vamos, menino…

 

Ele pula no meu colo como sempre fez desde pequeninho. Aiaiaiai, mais um pouco não te agüento e a gente ri das bobeiras dessa vida. Pai, a mamãe adorou esse dia. E eu também. Amanhã te ajudo na faxina tá? Relaxa menino. Coberta até o queixo. Abajur aceso. Porta aberta. Não deixamos portas fechadasem casa. Elereza. Deus, cuida do papai quando eu for embora. Eu ouço. Ele sempre reza sozinho quando saio do quarto. Cuida de todo o mundo. Ele pede assim puro como se fosse a coisa mais fácil do mundo cuidar de todo o mundo.

 

Beijo, Léo. Dorme com os anjos, pai!

 

Ligo a TV e deito no sofá. Vejo a bagunça na sala e me dou por satisfeito. Sorrio, choro, sei lá. Acordo de madrugada com o zuzuzuzuzuzuzu da TV sem canal e ainda há bagunça por toda a sala. Sonho um sonho simples no qual me pedem que escolha entre a eternidade e todo o poder que disso vem ou uma festa de aniversário com o filho que surgiu do nada. Uma só festa. Um só dia. Um segundo apenas em relação ao pra sempre que poderia escolher.

 

Pai, pai, pai, a mamãe já chegou com o pastel…

 

São cinco e dezessete, abro os olhos, o peito dói um pouco, olho sem óculos para o canto da sala e não há brinquedos, não há vida, não há nada.

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