COR DE ROSA NA AVENIDA

Zuuuuuuuum. Faço a curva brincando de Ayrton Senna. Até canto a musiquinha e imito o Galvão Bueno. Ainda o dia não chegou na Vila Maria e tenho as subidas e descidas do bairro todas para mim. Opa, desculpa a falta de educação, chefia. Não me apresentei. Minha mãe, a santa dona Amélia (que Deus a tenha) batizou-me (preciso manter a estampa) de Cleidnelsonn. Assim mesmo, com dois Ns no final. Os mano, todavia, chamam-me de Fittipaldi. Zuuuuuummmmmm.

Eu ainda não sabia, mas esse seria meu último dia de vida. Dei azar, claro. Sou do bem, gente honesta, entrego leite todas as madrugadas nas casinhas dos portuga do bairro. Ganho uns trocadinhos com uns bicos também. E no final do mês, tiro o da sobrevivência. Você sabe, porém, que os dias atualmente são de estresse total. Qualquer coisa, brother tá puxando o cano ou tiozinho ta te apavorando. A desculpa de todo mundo é a tal da violência. Bom, me dei mal com ela. Senta aí, puxa a cadeira porque vou te contar o acontecido.

A Cerejeiras estava acabando, desembocando na ladeira bacana da Araritaguaba. Ali me divirto. Desço a milhão e a cachorrada fica doida com o meu vôo. Olha moço, sou doidão na bike, mas nunca desperdicei a mercadoria. Claro, têm uns clientes que acabam acordando, reclamam, xingam a santa dona Amélia (que Deus a tenha) e voltam a dormir. A maioria, no entanto, nem nota a minha chegada. Muito menos, a minha partida. Só a cachorrada que fica naquelas de Mozart, o cara das sinfonias.

Olho no relógio. São três e meia e só faltam as casinhas ao lado do Colégio Sion. Estou um pouco atrasado hoje. Seu Joaquim vai reclamar. Ele reclama sempre. Aquele velhinho acorda com as galinhas. Dou um show nas pedaladas, zuuuuuuummmmm, e só falta a casa do Maneco antes de chegar no seu Joaquim. Detono o freio da bike, seguro o bicho no braço e quase me acabo no muro do Maneco.

Veterano da guerra do Timor, o Maneco chegou na Vila Maria bem antes de eu nascer. Acho que ainda havia o Figueiredo na presidência. Sei não, nunca fui bem nessas coisas de história. Então, o português é boa gente, mas teve a vendinha roubada três vezes mês passado. Por isso, dorme com o trezoitão do lado da cama. Ficou mais traumatizado com São Paulo do que com a Guerra do outro lado do mundo. Que coisa louca né?

E continuando nosso plá, não me acabei no muro do velho. No entanto, derrubei o vaso, entortei o portão, acordei o gato e enlouqueci o pitbull. Cara, era melhor ter batido no muro. Com todo o escarcéu, seu Maneco levantou assustadão da cama. Pegou o meu carrasco (que Deus tenha piedade da minha alma) e saiu dando tiro feito louco. Era balaço pra todo lado. Poxa, três garrafas se quebraram e o pior: duas balas me acertaram. Doeu. Ai como doeu.

Caí duro no chão, já de cara com a saudosa santa dona Amélia. Deu tempo de ouvir o coitado do seu Maneco gritando “meu deus, matei o leiteiro. Matei um inocente”. E, antes de bater as botas de vez, antes do laranja do sol ganhar firmeza no céu, deu pra ver o vermelho do meu corpo se misturando com o branco das garrafas. Um cor de rosa bonito e alegre antes do fim. Zuuuummmmmmmmmmm.

IMPORTANTE: Esse texto é uma adaptação do poema MORTE DO LEITEIRO do gênio Carlos Drummond de Andrade. Só espero que ele não fique puto com a homenagem. Tenho a desculpa de que era um trabalho da faculdade….

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