Contos

A canção

O fim de um livro que amo me destroça. As últimas páginas, frases, palavras e aí acabou. Então, choro feito uma criança com fome. Bobo, talvez. Faltavam dois capítulos. Minha leitura era voraz, qualquer canto, qualquer lugar, e lá estava o livro aberto sendo devorado. Quero o fim, mas não quero, sabe? Dói essa saudade deixada lá dentro. O trem parou na estação tatuapé abarrotado, cheio por demais, havia um pequeno espaço e lá me enfurnei. Me ancorei no balanço do trem num surf esquisito, as duas pernas abertas, toca o sinal, fecham-se as portas, caminho que segue e a história retomada de onde eu havia parado. Vagão lotado, barulho intenso, grande, desconcertante e que incomodava. Poluição. Todos dizendo tudo e nada ao mesmo tempo. Eu me concentrava, tentava, me deixava ser engolido por aquele elemento, perdido no branco da página, no negro das letras que contavam uma história…contavam uma história, era feliz assim, sozinho, “com meus livros e discos e nada mais”. Absorto, em meio ao silêncio de um barulho constante que não cessava, as palavras me ferindo, me chocando, me entristecendo e o peito doeu uma, duas, três vezes. Estação brás, mais gente pra entrar. A campainha toca, o trem parte e então…

Hum hum…

Hum hum

Hum hum

Hum hum…

Eu conhecia aquela melodia. Sabia exatamente quando havia a escutado pela primeira vez. “Segura na mão de Deus e vai… Segura na mão Deus pois ela te sustentará…” Enterro de meu avô e a primeira vez que percebi que o fim era assim desse jeito, que tudo que vivia, morria, não havia segunda chance. Ali chorei sentido não por meu avô, acho que nem gostava tanto dele, mas por tudo acabar um dia. Na época não sabia a benção disso…

…

A montanha lá em cima e eu subindo, um passo de cada vez, cada vez mais lento e como de costume, todo o peso do mundo em minhas costas. É fato. Eu não sabia deixar de lado as coisas, não sabia me desapegar, não sabia como consertar nada ou simplesmente seguir em frente, poxa, eu não sabia

O sol forte batia na minha cara, me esquentava, me fazia suar tanto, parei, larguei longe a mochila, larguei tudo, tirei minha roupa, nu, joguei tudo longe, abri meus braços e entregue ao deus sol, ali, lá em cima, me olhando, me engolindo, comendo, secando por dentro e por for. Eu era ali tudo e nada e com olhos fechados esperava apenas, o que até hoje não sei direito, mas sei que o que esperava, chegou…

…

Me perco das linhas do livro, das letras, frases, palavras, agora ouço a canção na minha cabeça, que não está na minha cabeça, está ali sim senhor naquele vagão, alguém canta a música do meu fim e somente pra mim, sabendo que escuto com toda atenção. Quem é? Quem está aí? Quem me chama de tão longe? Eu penso assim bem alto, ninguém ouve, claro, porque estou pensando, no entanto, aquela velha senhora, sorri discretamente, sentada, absorta também, está ela lá… zumbiando humhum, humhum, humhum.. ela me olha, não há mais expressão alguma em sua cara, ela procura o fundo dos meus olhos, minha alma, não há mais ninguém naquele vagão… eu e dois metros lá, menos até, aquela velha senhora com cara de bruxa ou nem tanto. Ela me consome, sabe tudo de mim… humhum, humhum, humhum. O livro cai das minhas mãos, cai em câmera lenta, nada é como a física manda, meus movimentos são vagarosos, mais do que costume e como nunca, estou desperto, esperto, sinto todos os cheiros, toda a eternidade que finalmente acabará, agora, sim porque aquela velha viera me buscar e eu estava pronto. “Segura na mão de deus e vai…” eu não acredito em Deus, fica quieto moleque… Vem e eu fui…

…

Quando ela chegou, não pediu licença, nem nada, ela me conhecia como ninguém. Meu sangue gela, meu coração dispara, mas aperta, diminui, não sei bem descrever o que acontece com a porqueira do meu coração. Ela está dentro de mim, vai devargazinho, penetrando cada poro, o sol lá em cima acha graça, tenho quase certeza que gargalha, porém, aqui, eu, me arrepio, corpo arrepiado, sendo possuído por ela, por eles, ela não veio sozinha, eles me consomem, me tomam todo, eu frágil, sozinho, lá longe o topo da montanha, e eu não sou mais eu porque aqueles que me amavam tomam por dentro e num segundo ao abrir os olhos, pude ver a vida de um outro jeito, de uma outra forma, sei que lágrimas corriam pelo meu rosto velho e enrugado, mas não era tristeza não… a vida que eu procurava, finalmente, encontrei, ali no fim…

… tamanha ironia…

…

Estação República, desembarque pelo lado direito do trem.

As portas se abrem, quase todo mundo, aos atropelos, tipo gado, sai sem dizer adeus.

Humhum, humhum, humhum…

Contos

A chuva

Beijei Maria

Como sempre fazia

Antes do galo cantar o novo dia

Era noite mesmo, noite escura

Beatriz dormia

Abraçada com a tartaruga de pelúcia

Luca e Léo, na cama de baixo,

No outro canto do barraco,

Se espreguiçavam, cansados, sem ânimo

Droga, mais um dia na escola

“Ah, pai, só dois minutos”

Eu deixava, claro, tudo bem

Beijava os moleques, beijava a menina

Beijo na testa

Rotina divina

Leo me puxou pelo braço, meio desperto

“Pai, tive um sonho ruim”

“Se preocupa não, menino”

Virou de lado

Deixou o sono chegar e foi..

Fui também…

Os pingos da chuva prometida tamborilavam no telhado

Não era forte… ainda

Gorro na cabeça, frio, vento

São 4h33… pego o trem das cinco

Fecho a porta do barraco,

Dessa vez foi diferente

Olho para eles

Eles, aquilo que tudo importa, dormem,

Viajam por reinos distantes

Maria, Bia, Leo e Luca estão em paz

Eu corro, corro porque correr é preciso

Às sete na fábrica, no outro lado da cidade

Aperto o passo

Chuva aperta o passo

Desço o morro em tempo recorde

Chuva cai com força, raiva, ódio, som e fúria

Ódio da gente. Por quê?

O peito apertou uma dor diferente

Olho pra trás uma última vez

Lá em cima, tudo escuro, noite ainda escura, vida escura, o barraco

Contos

TANATOS

As torres gêmeas ainda estavam de pé.

O verão não era diferente de como sempre fora no meio dos Estados Unidos.

Aquela família era comum. Cristã, devota, temente a deus como todas são nos Estados Unidos da América, o berço da democracia, igualdade e justiça e hipocrisia…

Aquela mulher era comum, sem mais nem menos. Era uma mulher.

Aquele homem era comum.

Os filhos eram filhos como todos filhos pequenos e grandes são filhos.

 

Naquela manhã, o homem saiu de casa para trabalhar. Em casa, a mulher ficara com seus cinco filhinhos, como sempre. A menorzinha tinha seis meses. O mais velho, sete anos. A mulher enche a banheira para lavar a pequena. O telefone não toca. A TV está ligada. A mulher dedicara toda a sua vida a cuidar de sua família. Antes dos filhos e dos maridos, ela cuidou de seu pai até sua morte. Para ela, era fundamental servir os outros. Não havia o demônio em sua casa.

 

A mulher enche a banheira para lavar a pequena. Cheia, a banheira transborda e molha o piso. A mulher pega seu bebê e o coloca por inteiro na água. Assim o deixa, com seus olhinhos abertos até que não haja mais vida. Foi aí, então, que os olhos abertos da criança já não diziam mais nada. O mais velho flagra a mãe. Corre, ela o pega. Assim o deixa, com seus olhinhos abertos até que não haja mais vida.

 

A mãe é metódica. Faz o mesmo com os outros três filhos. Depois, embrulha cada um em lençóis, colocando-os em suas camas. Ela liga para o marido:

 

“Eu matei nossos filhos”

 

Presa, disse que era uma mãe má. Seu pecado, comentavam, era que ela era boa demais. Antes do fim, a mãe nunca levantara a mão para nenhum outro ser humano. Depois da morte do pai, ela havia tentado se matar de overdose.

 

“Não julguem minha mulher!”, disse o marido no enterro dos cinco filhos.

 

Quando ele volta para casa não há mais ninguém. Tenta dormir. Difícil. Quando consegue, sonha com a mulher que ama. Sonha que desta vez era ele que cuidava dela. Sim, desta vez ele percebera a dor de sua mulher. E nesse sonho, ela estava feliz de verdade, sorriso lindo, rodeada pelos filhos.

Contos

PARADO NAQUELA ESTAÇÃO

Tic-tac-tic-tac-tac-tic-tac, não é um relógio. Nem bomba. Tentei imitar o barulho do trem chegando na estação. Mas não sei fazer o barulho do trem chegando, partindo, indo. Não entendo de trens. Entendo de partidas, quase nunca chegadas. Entendo da viagem e da sensação do vento batendo no rosto. Livre como o pássaro daquela música. Entendo poucas coisas.

Invento diálogos com meu travesseiro desde sempre. Não é um amigo imaginário. Muito menos uma amante imaginária. È um diálogo inventado com meu travesseiro em um universo no qual não há a dor. Sim, um mundo paralelo que você sente a onda do mar batendo nos pés como no final feliz mais feliz que já fizeram. È uma viagem de ácido. Ou a primeira vez na heroína. Meu travesseiro já foi Bia. Já foi filho. E todas as vezes antes das últimas palavras, o sorriso doce sem pressa e culpa embalava minha insanidade.

Falo pouco com meu travesseiro atualmente.

Falo pouco com qualquer um.

 

Pai, você sabe contar uma história sobre trens?

Não sei, filho.

Eu sei!

Conta pra mim?

Conto…

Quando, menino?

Um dia!

Promete?

Prometo!

Olha o que eu fiz pra você…

 

Então, eu acho que toca um apito. Sei que navios tocam apitos na partida. Não sei nada sobre trens. O menino corre para o seu vagão. Está feliz de verdade. Não cabe em si. Está feliz de verdade. O homem fica na estação e vê o menino feliz correndo para o seu vagão. O homem não anda, não segue o menino. Ele só olha ele mesmo indo, indo, indo. “Não vai… fica”, ele não diz. A locomotiva puxa o rebanho de ferro. Bye. O menino na janela só olha pra quem fica na estação. O homem não sabe o que passa na cabeça do menino. O menino sorri.

 

Prometoooooooooooooooooo!

 

Quando a curva engoliu o trem, o homem ficou ali parado naquela estação, sem direito saber pra onde ir e o que fazer…

 

Pai, era uma vez, um menino que desenhava trens…

Contos

O sótão

Tinha que decidir um monte de coisas. Era tanto pra minha cabeça e ninguém percebia de fato que eu não queria decidir nada. Último ano na escola. Vestibular chegando. Boletim parecendo um matadouro em dia de festa de gente. Tanto pra pensar. Não gritava, não pedia um tempo, não fugia. Seguia a correnteza. Não era feliz, mas isso também não importava. Quem sabe de fato o que é ser feliz? Eu poderia estar enlouquecendo naquela época, vai saber. Sétima aula na quinta-feira, véspera de feriado. A professora falava, falava, falava, falava e aí num segundo parou de falar. Tudo meio que tomou uma outra cor, um outro nível de consciência. Então, eu vi.

Onde os olhos deveriam ser verdes, azuis, castanhos, pretos, o vermelho. Destacavam-se na escuridão. Podia vê-los perfeitamente e sabia que aqueles olhos vermelhos me olhavam de volta. Não tive medo. Há tempos desconheço isso. Uma das placas do teto da minha sala havia se soltado. Ninguém deu muita importância pra isso. Ninguém reparou nada. Mas aqueles olhos vermelhos estavam ali em cima, me diziam algo, diziam sim, não sei o que diziam. Vislumbro a fileira do outro lado. As carteiras a minha frente. A professora que ainda falava, falava, falava. Nenhum deles percebera a menina no sótão nem que eu havia a descoberto.

O sinal toca. A manada sai em disparada. A professora ainda falava, mas o som de sua voz já ia distante. Eu ficara para trás. A menina escondida no breu.

 

“Oi”

Demorou um pouco… e

“Oi”

“Você existe?”

Escuto os passos acima de mim.

Ela se ajoelha, um rostinho pálido, doente, aparece no vão da placa perdida.

“É, parece que você existe…”

“Você quer ouvir minha história?”

Ela pergunta de um jeito tão delicado, tão intenso, que meu peito sente um corte profundo, um aperto tão grande, que meu deus, não sei…

Olhos vermelhos perdem o brilho, um rastro de sangue passeia do canto da sua boca até o queixo. Sangue antigo, sofrido, de outros tempos. O olhar é tão triste… mas é a menina quem diz antes.

“Teu olhar é tão triste…”

Esboço um sorriso falso ou talvez o mais verdadeiro que eu tivesse pra ocasião. A loira faz o mesmo. Cabelos compridos, escorridos, básico se é assim que se fala de cabelos de meninas. Aí, ela fala coisas, tantas coisas e ouço atentamente, me esqueço do tempo, de ir embora. A menina loira perdida no sótão conta a sua história. Eu perdido em qualquer lugar só quero estar ali e ali fico.

 

O sinal toca e a dormência na minha perna faz eu gemer alto. Todos riem. A professora não. Depois não reclama se repetir de ano, ela sempre diz isso. Vermelho de vergonha, guardo as coisas na mochila, parto sem dizer nada.

 

Fazia tempo que não passava nessa rua. Sabia que o prédio seria demolido, não tinha certeza da data. Era noite já bem noite. Paro o carro na esquina e dois minutos a pé estou em frente ao meu antigo colégio. Avisto lá no segundo andar a janela em que encostava a minha cabeça tão vazia de sonhos. Me distraio um segundo com a buzina do ônibus e quando volto meus olhos pra janela, velhos tristes conhecidos olhos vermelhos me encaram. Como antes, eles ainda dizem coisas. Eu encaro a menina e me pergunto em qual momento tudo desandou. “Quando eu peguei o caminho errado?” Ela, de longe, parece querer responder, mas sua boca não se mexe. Aceno um tchau bobo, respiro fundo, sigo para minha vida e quando olho para trás, dos olhos vermelhos que me seguem da janela apenas uma tristeza tão triste que ainda não inventaram um nome pra ela.

 

As gotinhas caem uma atrás da outra. Dois canos machucam meu nariz com o ar que não consigo pescar sozinho. Uma linha sobe e desce no monitor. Fim da linha e tenho certeza que nunca imaginei que seria diferente. O remédio alivia a dor, não alivia a dor da alma que ainda dói.  Mas tudo bem. Está acabando…

 

“Oi”

Demoro pra responder, penso não dizer nada, digo…

“Oi”

Os olhos vermelhos sorriem.

“Vai ser diferente da próxima vez”

 

O sinal toca. Estridente. Me assusta, quase caio da carteira, o caderno desaba no chão.   Todos riem. A professora também. Me atropelo, saio correndo, tudo jogado na mochila. Não olho pra trás, as risadas ainda persistem e por tudo isso, apenas isso, não percebo a menina loira que não ri, mas que está ali, estará ali no mesmo lugar, sentada em sua carteira, seus cadernos cor-de-rosa, como sempre estivera, só que agora vai ser diferente.

 

 

Contos

COR DE ROSA NA AVENIDA

Zuuuuuuuum. Faço a curva brincando de Ayrton Senna. Até canto a musiquinha e imito o Galvão Bueno. Ainda o dia não chegou na Vila Maria e tenho as subidas e descidas do bairro todas para mim. Opa, desculpa a falta de educação, chefia. Não me apresentei. Minha mãe, a santa dona Amélia (que Deus a tenha) batizou-me (preciso manter a estampa) de Cleidnelsonn. Assim mesmo, com dois Ns no final. Os mano, todavia, chamam-me de Fittipaldi. Zuuuuuummmmmm.

Eu ainda não sabia, mas esse seria meu último dia de vida. Dei azar, claro. Sou do bem, gente honesta, entrego leite todas as madrugadas nas casinhas dos portuga do bairro. Ganho uns trocadinhos com uns bicos também. E no final do mês, tiro o da sobrevivência. Você sabe, porém, que os dias atualmente são de estresse total. Qualquer coisa, brother tá puxando o cano ou tiozinho ta te apavorando. A desculpa de todo mundo é a tal da violência. Bom, me dei mal com ela. Senta aí, puxa a cadeira porque vou te contar o acontecido.

A Cerejeiras estava acabando, desembocando na ladeira bacana da Araritaguaba. Ali me divirto. Desço a milhão e a cachorrada fica doida com o meu vôo. Olha moço, sou doidão na bike, mas nunca desperdicei a mercadoria. Claro, têm uns clientes que acabam acordando, reclamam, xingam a santa dona Amélia (que Deus a tenha) e voltam a dormir. A maioria, no entanto, nem nota a minha chegada. Muito menos, a minha partida. Só a cachorrada que fica naquelas de Mozart, o cara das sinfonias.

Olho no relógio. São três e meia e só faltam as casinhas ao lado do Colégio Sion. Estou um pouco atrasado hoje. Seu Joaquim vai reclamar. Ele reclama sempre. Aquele velhinho acorda com as galinhas. Dou um show nas pedaladas, zuuuuuuummmmm, e só falta a casa do Maneco antes de chegar no seu Joaquim. Detono o freio da bike, seguro o bicho no braço e quase me acabo no muro do Maneco.

Veterano da guerra do Timor, o Maneco chegou na Vila Maria bem antes de eu nascer. Acho que ainda havia o Figueiredo na presidência. Sei não, nunca fui bem nessas coisas de história. Então, o português é boa gente, mas teve a vendinha roubada três vezes mês passado. Por isso, dorme com o trezoitão do lado da cama. Ficou mais traumatizado com São Paulo do que com a Guerra do outro lado do mundo. Que coisa louca né?

E continuando nosso plá, não me acabei no muro do velho. No entanto, derrubei o vaso, entortei o portão, acordei o gato e enlouqueci o pitbull. Cara, era melhor ter batido no muro. Com todo o escarcéu, seu Maneco levantou assustadão da cama. Pegou o meu carrasco (que Deus tenha piedade da minha alma) e saiu dando tiro feito louco. Era balaço pra todo lado. Poxa, três garrafas se quebraram e o pior: duas balas me acertaram. Doeu. Ai como doeu.

Caí duro no chão, já de cara com a saudosa santa dona Amélia. Deu tempo de ouvir o coitado do seu Maneco gritando “meu deus, matei o leiteiro. Matei um inocente”. E, antes de bater as botas de vez, antes do laranja do sol ganhar firmeza no céu, deu pra ver o vermelho do meu corpo se misturando com o branco das garrafas. Um cor de rosa bonito e alegre antes do fim. Zuuuummmmmmmmmmm.

IMPORTANTE: Esse texto é uma adaptação do poema MORTE DO LEITEIRO do gênio Carlos Drummond de Andrade. Só espero que ele não fique puto com a homenagem. Tenho a desculpa de que era um trabalho da faculdade….

Contos

Sophie

 

I cut myself

I cut myself

I cut myself

 

The blade in my vein

Deeply, so deeply

And again, again, again

And again

 

Yesterday,

Today

Everyday

 

I just wanted to feel something

feel the pain, what else?

Oh yeah, feel the pain

The blade in my vein

 

But don’t

 

I feel nothing, nothing, nothing

And more deep,

the blade is dancing…

The blade is burning inside my soul

 

How many times?

Why… ?

I don’t know why

 

Sorry, I’m liar and I’m not a good man

I know why

I’m the guy who killed yourself

Your eyes, they guilt me

I don’t belong to myself

 

Who cares?

 

Ok,

It’s all right

Don’t worry

I am happy

 

All time

Cinema

MARIE

Registro de ensaio da banda SIVIE SUE MORI na madrugada de sábado (1.6.13). Imagens bacanas, som nem tanto porque a captação da câmera não “comporta” tamanha ferocidade. Mas se você não é um chato conseguirá sim ter uma ideia do que esse grupo tem a oferecer. Eu curti pacas…

Every step you gave in my direction
Grew in my heart a love like infection
And as we drove away
You healed all the scars that I hate

You burn my veins
Put my brains on fire
Owned my day
Became my desire

Easily nights goes by
Like cigarettes, like cigarettes
The clouds crying
The way I can’t forget

I was starving
Laying tired all alone
Living and breathing
Without a purpose

Everytime God close his eyes
And we saw nothing
But we called it night

Throwing stones at the sea
Watching it die, watching it die
Till you came here
And rearrange my life

Jimi Arrj – Guitar
Lugli – Guitar
Awoah – Bass
Mario Camino – Drums/Vocals
Contos

A escolha

Maria corria da vida.

Alguns (ou todos) diziam se tratar de um grande pecado afinal a moça nunca fizera questão alguma de abraçar a graça que lhe fora concedida por aquele que de todos ri.

Cansada, ela de verdade não se importava e por isso apenas fugia, se lançava pra bem longe daquele que acreditavam ser o bem mais precioso. Maria não queria viver, nunca foi sua escolha, nunca foi sua intenção, não queria agora nessa vida, nesse momento, com essas roupas, cabelos e gírias.

Maria não pertencia a nada, a ninguém, a lugar nenhum. O não pertencimento é o que enchia seu peito vazio do desejo de viver. Poxa, essa menina nunca quis a luz… nunca.

Os nove meses já haviam passado. A primeira filha daquela família já deveria ter vindo ao mundo. Que nada. Irritado, o bebê se escondia o quanto podia naquela escuridão que lhe aquecia, alimentava, protegia. Por isso, antes de ser chamada Maria, a criança se recusava a fazer o que os outros queriam que ela fizesse. Não vou nascer e pronto, disse. Se enrolou no cordão de sua mãe e lá ficou esperando pelo fim. Roxinha, roxinha, roxinha. Quando saiu de dentro de sua mãe, agora sim, Maria não chorou, apenas desapontada ficou. O médico feliz disse que ela tinha apenas mais três horas de vida. Foi salva por Deus, um milagre, um milagre. Olha só, Maria, só mais três horas e nada do que aconteceria depois, aconteceria. Aí, Maria, tadinha, chorou sentida, de tristeza, pela primeira vez.

Dias faltavam para a Copa do Mundo começar. Maria gostava de poucas coisas, uma delas era futebol. Era uma menina diferente, seu cabelo sempre curtinho, os peitos crescendo e sua ira idem. Saiu da escola, um frio com cara de frio mesmo gelava seu sangue, ela tinha onze anos e sua cabeça voava longe sempre. Aqui, no lugar que ela estava, nunca era o lugar, entende? Ela sabia que era de lugar nenhum. Descia pela rua, rumo ao ponto de ônibus, olhava pro céu nublado que tinha uns rasgos bonitos de sol que tentavam, tentavam, tentavam passar, mas não conseguia. Gosto dessa nuvem que não deixa o gigante passar, disse a menina. Ela não percebeu em instante algum, só no instante final e aí já não interessava mais, que no caminho contrário subia um daqueles caminhões imensos, pesados, cheios, mas esse estranhamente veloz. Maria fechou os olhos e sorriu, ufa, agora acabou, mas que nada. Alguém (que droga), a puxou no momento exato como acontece naqueles filmes feitos de açúcar.

Maria sentiu só o sopro daquilo que sempre quis.

Caramba, Maria, será você imortal? Ela não acreditava nessas coisas. E foi tirar a dúvida quando chegou aos 20, na verdade, 21. Dessa vez, ela correria tão rápido da vida que só a morte poderia alcançá-la. Era o que a doce e raivosa menina queria, por quê raios ninguém entendia esse seu desejo? Maria não gostava da vida, da dor que sentia forte no peito que nada tinha além dessa dor que não passava nunca. Maria zumbiava e nada mais. Invisível. Quem no mundo pensava em Maria ao menos uma vez num dia qualquer? Quem? Quem? Quem ao dormir falava baixinho como uma oração espero que Maria esteja bem? Ninguém, convenhamos, sem hipocrisia. Maria poderia ser qualquer uma, não fosse essa estranha maratona que trazia consigo desde sempre.

Então, a moça, fez o último teste. Ela não viveria pra sempre, que é isso sim uma maldição e não o contrário. Viver no lugar errado, no tempo errado, na vida errada não é viver. Maria alcançou o topo desse mundo que não lhe pertencia e lá de cimão olhou pra baixo. Viu tudo, todo o planeta,  em silêncio, parecia que agora todos acordavam e notavam aquele pequeno corpo pisado, maldito, de olhar triste que não é ódio, talvez, apenas cansaço, nem sei mais.

Maria não queria viver pra sempre. Ela precisava provar que não era imortal. Então, corajosa como sempre, sim senhor corajosa e não me importa a sua opinião, ela chegou bem na beirinha do fim daquela que era a montanha mais alta daquele mundo. Maria poderia voar se quisesse. Mas ela não queria brincar agora. Chegou ao final da linha. Olhou para baixo novamente. Não sou imortal, pensou, e pulou.