Crônica

Freud

O sonho foi assim. Havia uma grande mesa e era claro pra mim que pessoas estavam jantando, mas mais do que isso, era uma espécie de celebração. Fui logo perceber que na verdade se tratava de uma despedida. Na cabeceira dessa grande mesa, uma mulher. Uma senhora com fáceis 90 anos de idade, cada um deles identificado no rosto, no corpo, na testa avantajada e nos longos e ralos cabelos brancos amarrados num rabo de cavalo. Ela parecia a Nicole Kidman, fazia lembrar ao menos. Ela diz coisas para as pessoas. Não consigo ouvir. Aí então finalmente me faço presente nessa história. Meu peito dói tanto ali que parece que vai explodir de verdade. Digo: “Eu vou perder você de novo!” Abraço a velhinha com força, sinto seu corpo fraco, seus ossos saltando da vida, beijo a velhinha que agora não é mais velhinha. Acordo com o coração acelerado e uma puta tristeza do tipo sozinho de novo ou pior perdi de novo ou quem sabe as duas coisas juntas ao mesmo tempo agora.

Crônica

RASCUNHO #5

CHORO FLAMENGUISTA
OU A CONSTATAÇÃO DE QUE O URUBU NÃO VOA MAIS
Mais que um desabafo, essas mal traçadas linhas apontam um fato: ver o Flamengo jogar é triste. Tal adjetivo poderia ser trocado por qualquer outro mais depreciativo. Não estou reclamando por causa de mais uma partida medíocre que suportei apenas ver um tempo. Essa constatação vem de longa data. Ser flamenquista nos últimos 20 anos não foi algo bacana, não me divertiu, não foi algo constante entre tantas variáveis desse mundinho estranho. Ah, claro, você pode dizer: “E os títulos estaduais?”, “E o brasileirão de 2009?”, “E Romário?”, “E Ronaldo?”, “e um monte de coisas?” Ok, mas foram exceções, acasos, sorte ou incompetência dos outros. Nada projetado, delineado, trabalhado. Os poucos sucessos (e sim foram poucos) não apresentaram um padrão, um modelo, para que outros seguissem, foram nada mais do que casualidades. Um torcedor de fato não pode se contentar com esse tipo de existência, não é isso que significa torcer por um time. Ou estou muito enganado ou pouco bêbado.

Eu sei apenas que de tempos pra cá ao ver o Flamengo no campo me irrito, não me alegro. Ao ver a camisa rubro-negra (belíssima diga-se) sendo usada de qualquer jeito me entristeço, não comemoro. Lá se vão mais de duas décadas. Só eu como flamenguista estou vendo isso? Estou ranzinza demais e as coisas são assim mesmo e ponto final? Poderia ter sido diferente? Fiquei mal acostumado com o Flamengo dos anos 80 e, portanto, essa sensação é meramente culpa minha? Isso significaria que o Mengo de agora é o que é e chega de esperar algo melhor?

Um monte de perguntas que ninguém faz questão alguma de responder. O Flamengo é uma instituição com mais de 100 anos de vida. Houve um tempo que treinadores, jogadores, qualquer um, queria fazer parte desse universo em vermelho e preto. Hoje, acumulam-se dívidas, péssimas administrações, jogadores de aluguel, treinadores de aluguel. Enfim, apenas coisas ruins que jogam o nome desse clube na lama. Tem camisa 10 nessa fase medonha que não treina. Zico era um dos primeiros a chegar e sempre foi a estrela da companhia. Não tinha frescura com ele. Hoje, bom, deixa pra lá, devo ser um velho chato mesmo que não consegue viver nesse estranho mundo e se adaptar ao show de horror que vejo sempre que ligo a TV. Uma pena.

Virei flamenguista com quatro anos de idade. Lembro que acabavam os anos 70, Zico era uma realidade, na verdade, todo aquele time que conquistaria o mundo em 1981 já era real. O que espanta no fato de virar rubro-negro é que eu nasci em São Paulo. Não sou do Rio, fui ao Maracanã uma vez apenas, mas abracei essa camisa como nunca. Era fanático mesmo, de chorar e fazer cara feia quando a equipe perdia qualquer coisa. Aí os anos 90 começaram, Zico se aposentou (nossa, ainda recordo do vazio no peito assistindo aquele jogo de despedida e minha sensação de impotência, chorei sentido aquele dia), Júnior também se foi conquistando o Brasileirão de 1992 e depois nada, nada, nada, nada, nada. Lamento se pareço exagerar, mas é só isso e uma vergonha atrás da outra que me faz a cada rodada querer mudar de time. É fato, vejo os torcedores do Napoli, Bilbao, do próprio Barcelona e lá não é a questão do vencer que importa e sim ser um TIME, ser algo de fato importante que marque sim a sociedade.

Ah, sei lá, acho que estou querendo demais e que eu fique quieto e pare de reclamar e não leve tão a serio esse tal de futebol. Mas, poxa, era “tão bonito ver o Flamengo no Maracanã”.

Crônica

Rascunho #4


UM OUTRO TIPO DE POLÍTICO

Quando se fala em político brasileiro todo mundo (ou quase todo mundo) torce o nariz. “Tudo ladrão!”, dizem. Claro, generalizar não faz bem a ninguém, mas ao longo de nossa história é difícil não concordar. De qualquer forma, assim como tudo na vida, as maçãs podres sobressaem e aí você acha que tudo está estragado. Em 1996, passei um dia acompanhando, fotografando, um político. Era a campanha para a prefeitura de São Paulo e o candidato que eu deveria seguir era Luiza Erundina. Sou de esquerda, nunca escondi isso, e logo que me foi designada a tarefa abri um sorrisão.

Erundina havia sido prefeita de SP anos antes. Candidata do PT, era a primeira mulher e nordestina a comandar a principal cidade do país. Lembro bem que ela levou porrada de todos os lados. A oposição e até seu partido não deram folga em seus quatro anos de governo. Parecia, para quem só assistia televisão, que era o pior governo de nossa história (e depois tivemos Pitta, Kassab, enfim). Isso não era verdade, pelo menos, para o “povão” que votou nela. Eu era moleque e nunca no meu bairro tivéramos tantas linhas de ônibus como no governo dela. Pode parecer bobagem isso, no entanto, é o que conta, é o onde sentimos de fato o trabalho do prefeito. Ônibus a cada 15 minutos. Ponto pra moça.

Anos depois, a história do ônibus no meu bairro me veio à cabeça assim que a encontrei lá pelas sete da manhã. Ao longo daquele dia, visitamos favelas, quatro bairros da periferia, centros comerciais e era impressionante o apelo que aquela mulher tinha. Não havia gente nesses bairros pobres que não a abraçasse e recordasse seus tempos de prefeita. Ponto pra moça.

No final da tarde, Erundina chegou perto de mim. Deixou o segurança de lado e veio conversar. Claro, sou esperto, papo de político, certo? Mas não foi o que pareceu (sim, às vezes, sou ingênuo).

“Menino, não vi você comendo o dia todo. Toma aqui umas bolachas!”

Naquela época, eu ainda era um menino, mas aquela cena da ex-prefeita de São Paulo me dando bolacha e perguntando se eu estava bem foi marcante…

Erundina sumiu de cena. Não enriqueceu. Cumpre seu quarto mandato como Deputada Federal. Poderia ter sido mais!

Crônica

Rascunho #3

O BRASIL DE 82

Há uma semana morria o doutor Sócrates. Não vou escrever sobre ele porque muitos já falaram e de formas tão bonitas que minhas mal traçadas linhas nem chegariam perto. Não posso, no entanto, deixar passar uma coisinha sobre essas homenagens, justíssimas diga-se. Invariavelmente, aqueles que destilaram laudas e laudas sobre o craque mencionaram – mais ou menos – a seleção brasileira de 1982. Aquele time formado por Telê Santana que tinha no mesmo meio-campo Zico, Falcão e Sócrates. E não era “só” isso. Havia Leandro e Júnior nas laterais. Nas zagas, se revezavam Oscar, Luizinho e Edinho. Na ponta esquerda, tinha o Éder. Na direita não tinha ninguém, mas sempre aparecia por lá Paulo Isidoro, entre outros, e como centroavante passaram pela nove Careca (que seria o titular do time se não tivesse se machucado), Reinaldo (outro titular ferido) e Serginho que acabou sendo o homem-gol do time na Copa da Espanha. Enfim, um timaço.

Repito o primeiro parágrafo: o mais interessante dessas homenagens ao Magrão é que não houve pessoa do mundo que não lembrasse desse time maravilhoso (acho que colocaria esse Barcelona de Messi na roda), de Sócrates jogando fácil ao lado de Zico, de Falcão chegando com toda maestria que lhe cabia e por aí vai. Mas o detalhe é que aquela equipe – e lá se vão quase 30 anos – não ganhou nada. Perdeu a Copa do Mundo e ficou na história. Como pode?  Todos que falaram de Sócrates, se lembraram dessa seleção com saudade, não tristeza. O que teria sido do futebol se o jogo bonito tivesse vencido? Talvez, a última coisa boa que a amarelinha produziu, mesmo tendo conquistado títulos mundiais depois, em 1994 e 2002. Acho que foi o Flávio Gomes – comentarista da ESPN –  que disse que foi o último Brasil pelo qual ele torceu. Concordo.

Eu era moleque em 82, tinha sete anos. Foi minha primeira experiência real de Copa do Mundo. Fã de Zico, amante do futebol, meu coração batia acelerado a cada partida daquele time. E veio a Itália, veio a derrota que não se esquece e antes de fechar o livro por que não lembrar de Sócrates na direita chutando com força na saída de Zoff?

Gooooll do Brasil!!

E eu pulava de alegria como nunca mais.

Era bom ser criança naquele instante, era bom ver seus heróis te encherem de vida…

Crônica

Rascunho #2

RISCADO DO MAPA

Passou despercebido. Ninguém notou, cobriu o evento, mandou fotógrafo ou equipe de filmagem. Pelo menos, que eu saiba (você sabe?), o Ocidente não fez isso. Maldosamente chamado de “clássico de fome”, Etiópia e Somália disputaram na última quarta-feira o segundo jogo da luta por uma vaga na próxima fase da Eliminatória africana para a Copa 2014. Agora, responda, sobre a África o que não se passa despercebido?

Em agosto passado, a pior seca dos últimos 60 anos no continente colocou 13 milhões de pessoas em situação de emergência. Um mês depois, presidentes da Somália, Quênia, Djibuti e Etiópia lançaram-se a um “pedido desesperado” de ajuda financeira à ONU. Na ocasião, inclusive, outro número macabro lançado a quem estivesse disposto a ouvir: 750 mil pessoas da região conhecida como Chifre da África correm sérios riscos de morrerem de fome até o final do ano. Sabe a África? Aquele continente que se encaixa no Brasil? Cerca de 900 milhões de pessoas vivem nele, lembrou? Pois é, mas parece que não existe mais.

Mais números: 71% dos infectados com o vírus HIV estão na África. E aí alguém se mexe para mudar esse quadro? Se sabemos que mais de 500 mil pessoas morrerão de fome, por que não fazemos nada? Há algum tempo, li um artigo no qual o tiozinho dizia que 80% do mundo de hoje não fariam falta ao Capitalismo. Isso quer dizer que pouco mais de um bilhão de pessoas são suficientes para que o sistema econômico vigente continue sua vida. E o resto? É apenas resto? Quando penso em escrever sobre o continente africano, só chega à minha cabecinha que não entende as coisas um monte de perguntas (algumas, inclusive, já as fiz nesse rascunho). Foram mais de 400 anos de escravidão, depois um século de invasão e permanência europeia e agora nada. Nada! Como se 900 milhões de pessoas não existissem, não estivessem aqui vivendo, tentando sobreviver, sorrindo, amando. Um vazio no mapa e nada mais.

Não sei se você acha normal pensarmos nesse continente de forma tão distante. Eu não acho. Sabemos que as culturas brasileiras têm muito mais a ver com os africanos do que com os europeus, mas nós, em nossa ignorância de pequenos emergentes de um mundo novo, fechamos os olhos ou fazemos pensar que o problema não é nosso. É claro que algumas iniciativas existem. No entanto, são tão poucas, tão insuficientes tamanho o abandono de uma África inteira. Parte da fortuna de um desses homens mais ricos do mundo resolveria a questão da fome nesse lugar… e daí, não é? A tempo, a Etiópia goleou a Somália por 5 a 0 e ainda sonha com uma vaga na Copa do Mundo de 2014.

Crônica

RASCUNHO #1

E se o mundo tivesse acabado?

Aí paramos tudo. Ninguém mexia nas canetas, as provas intactas nas mesas. Todos atentos  no relógio e no ponteiro que fazia a fatídica contagem regressiva que começava (ou terminava, como preferir): cinco, quatro, três, dois, um ………….. e o mundo não acabou de novo! Acho que eu ainda ouvi de alguém um ahhhh bem debochado do tipo pelo menos eu não faria prova. Mas o mundo não acabou, segue a vida, me passa a resposta da um.

Só em 2011, senão me engano, esse planeta acabou umas três vezes. Por que tanta fissura pra ver essa bolota azul deixar de rodar? Aliás, essa fascinação pelo fim do planeta cheio de água que tem o nome de terra não vem de hoje. Vira e mexe, um profeta perdido desses que aparecem por aí dita um novo fim, uma nova data e todo mundo na expectativa, fingindo que dessa vez não se importa. A próxima previsão e a mais famosa do momento é a do the end de 21 de dezembro de 2012. Alguém aí pegou umas ideias dos maias e concluiu que dessa a Terra não escapava. Bom, é pagar para ver.

Mas e se um dia os caras acertam? Vai ser estranho e mais estranho ainda será a certeza de que nosso planetinha, nós e sei lá mais o quê não farão falta alguma a esse universozão do teu Deus. O que é fato de hoje é que a Terra não acabou e se acabou nos esqueceram aqui. Poxa vida, até nessa de fim do mundo brasileiro fica pra trás…

Confesssa: teve aluno que no três um pouco antes do dois suou frio e começou a rezar achando que dessa vez pudesse ser o fim mesmo, confessa!