Teórico

Atabaque não é coisa do capeta!!!

O canto sacro é uma das formas que o homem, em diferentes tempos e culturas, encontrou para realizar uma conexão com o sagrado. O som dos atabaques nas religiões afro-brasileiras, também, cumpre esta função. Por que todos os símbolos destas religiões são associados ao demônio pelas diferentes denominações cristãs?

É importante partir essa discussão do conceito de que as religiões monoteístas possuem um elevado  grau de intolerância quanto ao que é diferente (quem define quem ou o que é diferente?), ao que não lhe pertence. Como representantes, no mundo ocidental, das classes dominantes, as religiões cristãs empregam esse poder no estrangulamento do que surge em outra direção, que aponta uma nova perspectiva. Essa é a definição por si só do que é ou quem é herege, aquele que escolhe, segundo o cristianismo institucionalizado. Neste sentido, é fundamental para essas religiões se esforçarem na criação de uma imagem negativa de qualquer culto afro. Por serem herdeiros dos escravos, seus remanescentes nas religiões africanas são perseguidos justamente por tentarem resistir com suas tradições, mesmo que isso os levem ao sincretismo – marca tão singular na cultura brasileira. As religiões afro são difíceis de serem aceitas pela “massa” justamente porque não oferecem a dicotomia bem e mal. Para aqueles que a amaldiçoam, é esse o ponto de maior relação com o “capeta”. Para um cristão, é muito claro o que é o bem (pelo menos naquilo que lhe faz sentido) e o que é mal. Associar as crenças africanas ao mal é mais um ponto no discurso de segmentação social. O negro se recolhe ao seu papel insignificante segundo os mandamentos daqueles que detém o poder. Foi assim antes, o é agora. O atabaque não é um símbolo do diabo. Ele evoca uma tradição, uma fé (ou várias), deuses os mais variados que erram e acertam. O atabaque como símbolo é humano. Impensável para um culto monoteísta, que visualiza o humano de cima para baixo, numa escala hierárquica, social…

 

PS: Sou um herege, então? Hum…

Crônica

Rascunho #2

RISCADO DO MAPA

Passou despercebido. Ninguém notou, cobriu o evento, mandou fotógrafo ou equipe de filmagem. Pelo menos, que eu saiba (você sabe?), o Ocidente não fez isso. Maldosamente chamado de “clássico de fome”, Etiópia e Somália disputaram na última quarta-feira o segundo jogo da luta por uma vaga na próxima fase da Eliminatória africana para a Copa 2014. Agora, responda, sobre a África o que não se passa despercebido?

Em agosto passado, a pior seca dos últimos 60 anos no continente colocou 13 milhões de pessoas em situação de emergência. Um mês depois, presidentes da Somália, Quênia, Djibuti e Etiópia lançaram-se a um “pedido desesperado” de ajuda financeira à ONU. Na ocasião, inclusive, outro número macabro lançado a quem estivesse disposto a ouvir: 750 mil pessoas da região conhecida como Chifre da África correm sérios riscos de morrerem de fome até o final do ano. Sabe a África? Aquele continente que se encaixa no Brasil? Cerca de 900 milhões de pessoas vivem nele, lembrou? Pois é, mas parece que não existe mais.

Mais números: 71% dos infectados com o vírus HIV estão na África. E aí alguém se mexe para mudar esse quadro? Se sabemos que mais de 500 mil pessoas morrerão de fome, por que não fazemos nada? Há algum tempo, li um artigo no qual o tiozinho dizia que 80% do mundo de hoje não fariam falta ao Capitalismo. Isso quer dizer que pouco mais de um bilhão de pessoas são suficientes para que o sistema econômico vigente continue sua vida. E o resto? É apenas resto? Quando penso em escrever sobre o continente africano, só chega à minha cabecinha que não entende as coisas um monte de perguntas (algumas, inclusive, já as fiz nesse rascunho). Foram mais de 400 anos de escravidão, depois um século de invasão e permanência europeia e agora nada. Nada! Como se 900 milhões de pessoas não existissem, não estivessem aqui vivendo, tentando sobreviver, sorrindo, amando. Um vazio no mapa e nada mais.

Não sei se você acha normal pensarmos nesse continente de forma tão distante. Eu não acho. Sabemos que as culturas brasileiras têm muito mais a ver com os africanos do que com os europeus, mas nós, em nossa ignorância de pequenos emergentes de um mundo novo, fechamos os olhos ou fazemos pensar que o problema não é nosso. É claro que algumas iniciativas existem. No entanto, são tão poucas, tão insuficientes tamanho o abandono de uma África inteira. Parte da fortuna de um desses homens mais ricos do mundo resolveria a questão da fome nesse lugar… e daí, não é? A tempo, a Etiópia goleou a Somália por 5 a 0 e ainda sonha com uma vaga na Copa do Mundo de 2014.