NADA DE FLORES

A saga de um tomate podre que não serve para os porcos, mas alimenta os humanos sem donos. Idéias contraditórias e que surgem na tela como verdadeiros socos no estômago são o fio condutor de Ilha das Flores. Quando lançado no final dos anos 80, o documentário experimental em curta metragem, causou polêmica justamente por apresentar uma realidade brasileira caótica de forma irônica. Dirigido e roteirizado pelo gaúcho Jorge Furtado (responsável pelo politicamente incorreto e delicioso O HOMEM QUE COPIAVA), o filme ganhou prêmios mundo a fora e se firmou como um marco na cinematografia nacional. E o melhor de tudo: coloca o dedo na ferida daquele que o maior problema do Brasil – a desigualdade social.

Ilhas das Flores, em seus treze minutos, faz um painel contundente do quanto a degradação humana atinge níveis impensáveis. No início, o filme surge como uma comédia. Algo para se fazer rir, graças às boas tiradas de um roteiro rápido e objetivo. Não se demora muito, no entanto, para a aparente diversão se mostrar de fato o que é. A explosão da bomba atômica, numa imagem que não dura na tela mais do que um segundo, deixa clara qual é a intenção de Furtado. E o incômodo só cresce para o espectador.

Como dito antes, o ponto de partida de Ilha das Flores é o tomate. Um inofensivo tomate produzido por um japonês gaúcho no extremo do país. Da utilidade do produto até o descarte do que surge estragado para uma dona de casa, o simples tomate tem sua “experiência” de vida e morte contada num ritmo de videoclip. Apontando para uma conclusão terrível: a comida podre que não serve para o porco, serve para o morador pobre da Ilha das Flores – local, aliás, que chamou a atenção das autoridades (autoridades?) tamanha comoção levantada pela película na época. Problema que todos sabiam existir muito antes do filme ser lançado, mas…

A comédia, o bom humor, sempre foram as armas do cinema italiano para denunciar a soberba das elites. Etore Scola, Fellini e, mais recentemente, Roberto Begnini fazem a platéia rir incomodando-os com a própria incoerência de sua sociedade. Jorge Furtado segue essa escola. Seus filmes posteriores fogem do estereótipo da pura diversão. É difícil não ficar incomodado com seu jeito de ver o mundo e ILHA das Flores é um exemplo claro disso. A crueldade de Furtado se mostra por completo com a utilização de trechos da obra o GUARANI de Carlos Gomes. A grandiosidade da trilha, aquela coisa de país em desenvolvimento rumo ao primeiro mundo, contrasta com seres humanos agindo como ratos e porcos atrás de comida podre que não serviu a outros seres humanos. Detalhe: Ilha das Flores não é uma ficção.

Um três de julho qualquer…

Há brinquedos em todos os cantos. Soldados, heróis, vilões, carrinhos, motos, um trem ainda sem trilhos para correr e trilhos como montanha para os guerreiros de plástico se divertirem. Uma bagunça. Adorável.  Vejo tudo isso, deitado de lado no sofá. A TV está ligada, não me importo. Sono chega. Menino no quarto sonha, respiração suave. Bálsamo.

 

Desperto antes do despertador. Saio da cama num pulo. O menino ainda dorme. Vai dar tempo.  Coloco um casaco de capuz. Frio do inverno. Sol gelado pela janela da cozinha vejo com êxtase. Cantarolo canção do rádio you… your sex is on fire. Volume um, talvez, dois traços. Não quero acordar o menino. Bandeja. Três torradas. Geleia de uva. Suco de laranja sem açúcar. Bolachas. Leite com Nescau. Pão de queijo. Rodopio ao som que sai da boca de Mick Jagger. “Como você se sente?” , ele versa. Oras, estou ótimo shuuuu vou acordar o menino.

 

Presente na cama? Ok! Café da Manhã? Ok! Barba feita pra dar um montão de beijo de aniversário? Hum. Ainda não ! Corre, corre. Papum. Tudoem ordem. Horada bagunça. E a moça da rádio diz no, no, no, ah e eu sem pensar yes, yes, yes …

 

“Quem tá fazendo nove aninhos hoje? Quem? Quem?” Eu pulo na cama sem pensar no estrado, relaxa a bandeja do café ficara no criado-mudo. Cobertor, lençóis, maior zona e ele acorda feliz, sorriso fácil, buraquinho no queixo, ai quero morder meu menino lindo, como você é lindo! Parabéeeeeeeeeeeeeeeens, abre o presente do pai e toma seu café.

 

Aeeeeeeeee! Era o que eu queria! Aeeeeeeee!

 

Não será o único desejo realizado do dia.

 

Banho daqueles. Lava tudo moleque, atrás das orelhas também é seu. Xampu cheiroso. Água quente. Menino canta no chuveiro. Não sei não o que ele canta. Pronto? Pronto, pai! Roupa nova no menino.  Gel? Hum, vai sem, tá bonitão assim.

 

“Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo…” e ele corre e meus olhos acompanham o quanto de vida passeia à minha frente. Dividimos o perfume. Dividimos o espelho. Dividimos as sensações de um dia que nasceu e será perfeito.

 

Gibi na banca.

 

Lanche no McDOnalds.

 

Filme no cinema.

 

Festa surpresa no fim da tarde que surpreende tanto o moleque que chora de alegria. Abraça forte e diz aquilo que eu não preciso dizer agora. È nosso. E aí corre moleque pela casa com os amigos. Mais bagunça, zoeira, tanta energia. E toda vez que o encontro, o vejo discretamente, preocupado como nunca, ali minha vida inteira, ali na minha frente, não há uma sombra ao lado dele. Nem sinal de escuridão. Sorrio porque me cabe sorrir apenas. E amá-lo.

 

Canta-se o parabéns pra você e o com quem será é para uma japonesinha cheia de vergonha. Os dois vermelhos e bobos ali. Primeiro pedaço de bolo é meu, claro, ele não é louco, ia dormir na casinha do cachorro se não fosse. Ele me abraça de novo e fico feliz por nos abraçarmos tanto e por dizermos tanto um ao outro. Dizemos sem medo. Dizemos a qualquer hora. Eu te amo. Eu te amo. Assim vivemos os dois, do jeito que dá para viver. Nenhum sinal de escuridão ao lado dele.

 

Os convidados vão dizendo tchau. A namoradinha também vai com o pai e a mãe a tiracolo. Restam eu, ele e o cachorro. O cachorro segue pro seu canto. O menino segue pro Everest de presentes que ganhou. No canto da sala, ele aproveita os últimos momentos do seu dia. Na cozinha, só agradeço. A quem não sei. Agradeço apenas.

 

Cama, moço!

 

Ah, só mais um pouco…

 

Dez minutos…

 

Ebaaaaaaaa.

 

E aí o doidinho ri sozinho, cria suas histórias com seus bonecos, carrinhos e trens. Ele fala com a mãe que morreu e diz que está feliz. Eu ouço e não atrapalho. È o tempo deles juntos agora. Ele diz ainda que não poderia ter tido despedida melhor desse mundo de meu deus. Ele diz isso.

 

Vamos, menino…

 

Ele pula no meu colo como sempre fez desde pequeninho. Aiaiaiai, mais um pouco não te agüento e a gente ri das bobeiras dessa vida. Pai, a mamãe adorou esse dia. E eu também. Amanhã te ajudo na faxina tá? Relaxa menino. Coberta até o queixo. Abajur aceso. Porta aberta. Não deixamos portas fechadasem casa. Elereza. Deus, cuida do papai quando eu for embora. Eu ouço. Ele sempre reza sozinho quando saio do quarto. Cuida de todo o mundo. Ele pede assim puro como se fosse a coisa mais fácil do mundo cuidar de todo o mundo.

 

Beijo, Léo. Dorme com os anjos, pai!

 

Ligo a TV e deito no sofá. Vejo a bagunça na sala e me dou por satisfeito. Sorrio, choro, sei lá. Acordo de madrugada com o zuzuzuzuzuzuzu da TV sem canal e ainda há bagunça por toda a sala. Sonho um sonho simples no qual me pedem que escolha entre a eternidade e todo o poder que disso vem ou uma festa de aniversário com o filho que surgiu do nada. Uma só festa. Um só dia. Um segundo apenas em relação ao pra sempre que poderia escolher.

 

Pai, pai, pai, a mamãe já chegou com o pastel…

 

São cinco e dezessete, abro os olhos, o peito dói um pouco, olho sem óculos para o canto da sala e não há brinquedos, não há vida, não há nada.

A CONJURAÇÃO BAIANA

MODELO DE PRODUÇÃO DE PAPER

ATIVIDADE DESENVOLVIDA PARA O 2º ANO EM

           Affonso Ruy foi o primeiro na historiografia brasileira a dar um destaque ao movimento da Conjuração Baiana, isso em 1942. O autor inclusive foi mais longe:  apontou o conflito de 1798, no título de seu livro,  como A Primeira Revolução Social Brasileira. Exageros à parte não se pode negar a importância dessa revolta que agregou mulatos, negros, escravos, gente do povo, num desejo de independência em relação à Portugal. Basta lembrar que a Inconfidência Mineira foi orquestrada pela elite local e passava longe de assuntos como o fim da Escravidão – ponto marcante na cartilha da Conjuração Baiana. Esse paper pretende em algumas páginas fechar sua análise sobre um momento crucial dos acontecimentos da Bahia: a divulgação dos pasquins sediciosos em agosto de 1798.

Momento crucial porque, de certa forma, os panfletos apresentaram para a população de Salvador as idéias de liberdade e igualdade inspiradas na revolução francesa, marcando o início da conjuração nas ruas e a conquista de mais adeptos, mas também denunciaram seus líderes e simpatizantes provocando uma perseguição feroz e cruel do Governo Baiano e da Coroa Portuguesa. Os pasquins se mostraram importantes nesse contexto porque divulgaram um novo ideário e pretendia abranger o máximo possível de pessoas.  O final da história, porém, não é novidade para ninguém. A punição aos rebeldes foi severa e “desproporcional à ação e às possibilidades de êxito dos conjurados”, como lembra Boris Fausto em seu livro História do Brasil, um dos autores a ser analisado nesse trabalho. Era preciso dar o exemplo afinal o movimento emergiu entre as classes populares de Salvador. Desencorajar novas ações era crucial para a manutenção da ordem instalada pelo Governo da Metrópole.

Voltando à questão dos pasquins, entre os historiadores analisados para esse paper apenas Istvan Jancsó destaca a relevância do processo de proliferação das idéias revolucionárias por meio de panfletos nas ruas de Salvador.  Ele aponta que pela primeira vez na história brasileira uma nova visão política (no caso, a referência é a França republicana)  é apresentada ao povo em geral, não ficando restrita aos debates da elite em seus casarões:

Os pasquins de 12 de agosto, e outros que foram distribuídos pelo menos até o dia 16, produziram um fato político novo com características de radicalidade. Não apenas no plano do discurso, mas no plano da prática política: transferiram as questões políticas para a esfera do interesse geral, negando-lhes o serem privativas da elite (Jancsó, 1996: 160)

             É preciso ser dito que as manifestações populares através de panfle-tos/folhetos/pasquins eram comuns nas ruas das cidades de Salvador na época. Mas se limitavam a questões de ordem local como, por exemplo, o preço da carne. Por isso, o dia 12 de agosto de 1798 ganha importância no processo de deflagração da Conjuração Baiana afinal a ação de fato do movimento foi-se verificada apenas nesse ato. Não houve um efetivo confronto entre os “conspiradores” e a ordem vigente.

Em seu trabalho  A devassa da devassa sobre a Inconfidência Mineira, Kenneth Maxwell destaca algumas páginas para discutir e comparar o movimento que surgiu em Minas com o da Bahia. O historiador chega à conclusão de que os conjuras baianos surgem entre as classes populares, sendo elemento primordial para diferenciá-lo da Inconfidência  – este elaborado na esfera da elite local. Maxwell dialoga sem conflitos então com Boris Fausto e Istvan Jancsó nessa visão a respeito da revoltaem Salvador. Mas o que é fundamental para Jancsó para se entender a Conjuração Baiana e suas idéias, em Maxwell se dilui na reprodução de trechos do texto original dos pasquins de 12 de agosto:

Manifestos manuscritos foram espalhados na cidade a 12de agosto de 1798; as paredes das igrejas  e dos lugares públicos os exibiam. Eram dirigidos ao “Poderoso e Magnífico Povo Bahiense Republicano” em nome do “supremo tribunal da democracia baiana” e conclamavam ao extermínio do “péssimo jugo reinável da Europa” (Maxwell, 1977: 245)

           É fato que não se pode exigir de Maxwell a mesma profundidade da análise de Jancsó no que se refere à Conjuração Baiana e seus pasquins. Mesmo porque o foco de Maxwell é a Inconfidência Mineira. Isso, no entanto, não invalida sua escolha para esse paper justamente porque o autor faz menção a trechos do documento histórico (no caso, o pasquim de 12 de agosto). Como já dito antes, no entanto, não vai além da reprodução.

Boris Fausto em sua História do Brasil abre espaço para a apresentação dos movimentos revoltosos do final do século XVIII, incluindo algumas palavras sobre a Conjuração Baiana.  Sobre o papel de “radicalidade política” – como frisa Jancsó em seu trabalho – dos pasquins daquele agosto de 1798 um breve comentário:

            O movimento não chegou a se concretizar, a não ser pelo lançamento de alguns panfletos e várias articulações… No curso do processo, foram apreendidas obras filosóficas de autores como Voltaire que acabaram por inspirar os “pasquins sediciosos” e os panfletos lançados nas ruas de Salvador, em agosto de 1798. (Fausto, 2001: 119-120)

            O próprio Jancsó na introdução de seu livro Na Bahia, contra o Império lembra que a literatura e os estudos historiográficos sobre a Conjuração Baiana ainda são incipientes se comparados à Inconfidência Mineira, por exemplo. Essa análise de Jancsó é confirmada ao percebermos que os rebeldes de Salvador do final do século XVIII ainda não são recorrentes em boa parte dos livros didáticos utilizados nas escolas brasileiras.

Pode-se contestar a escolha do título do livro de Affonso Ruy ou ainda a importância que Jancsó aufere ao dia 12 de agosto, mas não se pode negar que tanto Ruy – com idéia de que fora esse movimento a primeira revolução social do Brasil – quanto Jancsó com a premissa de que os pasquins da Conjuração inseriram a população em geral numa discussão política – fato este relegado quase sempre à elite – lançam propostas (luzes) de análise sobre um movimento que estampava nas ruas a tão propalada crise do Antigo Sistema Colonial.

O que é forçoso reconhecer é que o episódio dos pasquins sediciosos trazia à geral publicidade uma dimensão nova das tensões que irrompiam com regularidade na vida da cidade, aduzindo um elemento radicalmente diferenciado se comparado com as recorrentes manifestações de insatisfação: a contestação política radicalizada da ordem política do Antigo regime em Colônia. (Jancsó, 1996: 158)

Tudo de novo

O cara brincava com meu mamilo esquerdo quando se deu conta de algo estranho. Um caroço, foi o que ele disse. Não lembro seu nome. Isso pouco importa também. O telefone tocou naquele instante, botei o mané para correr e nem me preocupei. O que os homens entendem de caroços no seio? No dia seguinte, dia aliás que não deveria ter deixado a cama, quando cheguei do trabalho, me sentia mais do que cansada. Não tinha força alguma. Estava sem fome, joguei a bolsa no sofá, nenhuma mensagem na secretária, fui para o chuveiro. Lembrei da noite anterior e do comentário do rapaz. Em frente ao espelho, toquei meu seio esquerdo. De fato, havia algo ali que não deveria existir e que eu nunca tinha dado conta. Seu tamanho me assustou.

 

Isso foi há dez anos. Eu tinha 22, estava perdida, com raiva do mundo, extremamente sozinha. Sem perspectiva alguma. Na gavetinha da mesa ao lado da minha cama, deixava para o dia da grande coragem comprimidos para nunca mais acordar. Estava verdadeiramente cansada. Bebia muito, dava muito, vivia a 300 por hora. Nem sei direito o por quê daquilo. Era inquieta mesmo. Triste não, só estava cansada. Quando encontrei o caroço, não liguei para minha mãe. Não liguei para ninguém. Fui ao médico sem marcar consulta. Cheguei lá e esperei.

 

Era evidente que eu tinha câncer. Não me foi surpresa quando o gatinho do doutor disse, escolhendo as boas palavras. “Quimio, operação, enfim, tratamentos que já deveríamos ter iniciado meses atrás”, falou o bonitinho. Meu coração não acelerou, não me emocionei, não tive medo. O que me surpreendeu é que naquele instante eu tive uma vontade louca de viver. Sabe, partir pra porrada contra essa doença maldita. Quis algo como há tempos não queria. Ia vencer o meu câncer, falei e sorri um sorriso honesto.

 

Marcamos a operação. Antes, iniciei a quimioterapia. Meu entusiasmo nesse embate contra algo maior do que eu se foi logo depois da primeira sessão. Peguei um táxi para casa e lá mesmo vomitei minha alma e algo mais. E uma dor por dentro me arrancava do chão, nem sei descrever direito. Só sei que me sentia fatiada, engolida, os remédios me detonavam. Diarreia avassaladora. Se já não comia antes, agora então nada. Anemia feroz. E olha que tinha sido apenas a primeira. Me internei sozinha. Minha cirurgia seria das radicais. Não havia como salvar minha mama. O médico gatinho fez o que tinha que fazer. Acordei horas depois no quarto. A TV estava ligada no Chaves. Consegui até rir.

 

A quimioterapia continuou. O inferno continuou e acho que até piorou. Sei lá. Ficava mal por quatro, cinco dias. Me sentia mais detonada do que nunca. Sem peito e agora sem cabelos também. Eu sabia que isso ia acontecer, mas rolou um certo choque quando saí do banho e na toalha tufos e mais tufos. Chorei ali de verdade, sentida como nunca. Naquela noite, liguei pra casa. Falei oi pra minha mãe. Não contei sobre a doença, não falei sobre nada. Só a ouvia falar de suas coisas e como a vida estava difícil. Pois é, mãe, viver é perigoso. Tchau. Você vem para o aniversário do seu pai, né? Vou. Não fui.

 

Como é do ser humano se adaptar, comigo não foi diferente. Dois anos de tratamento entre idas e vindas. Me acostumei a toda aquela desgraça. Usei perucas, usei nada. Sorria quando queria. Chorava quando dava. Ia vivendo, assim, como se podia. Até que os médicos (eram três nesse dia e nenhum bonito) me garantiram que eu estava curada. Lembro que me senti vazia. Coisa estranha. Aquela doença por tanto tempo esteve ali comigo, contando minhas horas, me amando, me odiando, sendo parte de mim, que quando disseram que ela tinha partido, só senti o vazio. Me levantei. Andei alguns metros, parei no boteco e bebi uma garrafa de vinho. Meu primeiro porre em meses.

 

Minha mãe morreu três anos depois.

 

Meu pai meses depois dela.

 

Fui ao enterro dela. Dele não. Acho que ninguém me reconheceu. Parti como cheguei, sem dizer palavra alguma.

 

Mudei de emprego três vezes. Consegui um trabalho numa revista bacana há dois anos. Voltei a fotografar. Até me disseram que aqueles olhos tristes do primeiro dia tinham sumido. De verdade, eu era mais mulher ali. Achava que a tempestade cruel havia passado. Até reconstruí meu seio. Fiquei gostosa. Os homens voltaram a me desejar. Não fui pra cama com mais ninguém desde a doença, mas estava finalmenteem paz. Ovazio do câncer tinha sido preenchido por tantas coisinhas bobas, livros, cinema, minhas fotos, um bebê lindo da vizinha que eu sempre cuidava quando ela saía.

 

Não pensava no amanhã, mas navegava em águas tranqüilas, desconhecidas águas tranqüilas. Viajei à África para um trabalho. Fiquei um mês por lá num campo de refugiados. Quando voltei havia uma mensagem na secretária. “Oi Sofia, sou eu. Então, você ta no outro lado do mundo, e me deixou aqui me sentindo tão sozinho. Preciso falar contigo. Quero falar muito falar com você. Liga assim que chegar. Saudade demais. Beijo”. Eu parecia uma adolescente boba. Pulei, gritei, estava ali vivendo FELICIDADE. Tinha 32 anos. O pior ficou para trás.

 

No dia seguinte, acordei tarde. Estava de folga, não ia para a revista. Quando me levantei da cama, uma tontura gigante me atirou ao chão. Tudo girava. Senti um gosto ruim na garganta e pelo meu nariz escorria sangue em alta velocidade. Me engasgava com ele. Deu tempo apenas de ligar pra emergência e pedir socorro. Apaguei. Mas mesmo apagada, sentia um cansaço imenso. Algo tão forte que desejei não seguir adiante. Apaguei. O gosto de sangue ainda estava ali quando acordei no hospital. Eu até sabia para onde me encaminhava novamente. Não chorei e esperei o inferno surgir na minha frente.

 

Exames, exames, exames. Nenhum médico bonito. Flores do pessoal da revista. Flávio do lado da cama, beijando minha mão. “Estou com você”, ele disse e achei tão sincero. “Quero ver isso depois que vomitar em você três dias seguidos”, só pensei.

 

Estava cansada demais, distante. O doutor careca, com cara de bobão, me visitou no dia 20 de janeiro. Trazia os resultados. Eu e ele apenas no quarto. Havia uma cópia barata de um quadro famoso de não sei quem na parede. Eram cores bonitas…

 

“Sofia, …”

 

Olhei para o quadro colorido, para a cara de bobão do médico, para a janela.

 

Olhei para dentro de mim.

 

Sorri assim um sorriso sincero. Sorri, apenas…

Rascunho #4


UM OUTRO TIPO DE POLÍTICO

Quando se fala em político brasileiro todo mundo (ou quase todo mundo) torce o nariz. “Tudo ladrão!”, dizem. Claro, generalizar não faz bem a ninguém, mas ao longo de nossa história é difícil não concordar. De qualquer forma, assim como tudo na vida, as maçãs podres sobressaem e aí você acha que tudo está estragado. Em 1996, passei um dia acompanhando, fotografando, um político. Era a campanha para a prefeitura de São Paulo e o candidato que eu deveria seguir era Luiza Erundina. Sou de esquerda, nunca escondi isso, e logo que me foi designada a tarefa abri um sorrisão.

Erundina havia sido prefeita de SP anos antes. Candidata do PT, era a primeira mulher e nordestina a comandar a principal cidade do país. Lembro bem que ela levou porrada de todos os lados. A oposição e até seu partido não deram folga em seus quatro anos de governo. Parecia, para quem só assistia televisão, que era o pior governo de nossa história (e depois tivemos Pitta, Kassab, enfim). Isso não era verdade, pelo menos, para o “povão” que votou nela. Eu era moleque e nunca no meu bairro tivéramos tantas linhas de ônibus como no governo dela. Pode parecer bobagem isso, no entanto, é o que conta, é o onde sentimos de fato o trabalho do prefeito. Ônibus a cada 15 minutos. Ponto pra moça.

Anos depois, a história do ônibus no meu bairro me veio à cabeça assim que a encontrei lá pelas sete da manhã. Ao longo daquele dia, visitamos favelas, quatro bairros da periferia, centros comerciais e era impressionante o apelo que aquela mulher tinha. Não havia gente nesses bairros pobres que não a abraçasse e recordasse seus tempos de prefeita. Ponto pra moça.

No final da tarde, Erundina chegou perto de mim. Deixou o segurança de lado e veio conversar. Claro, sou esperto, papo de político, certo? Mas não foi o que pareceu (sim, às vezes, sou ingênuo).

“Menino, não vi você comendo o dia todo. Toma aqui umas bolachas!”

Naquela época, eu ainda era um menino, mas aquela cena da ex-prefeita de São Paulo me dando bolacha e perguntando se eu estava bem foi marcante…

Erundina sumiu de cena. Não enriqueceu. Cumpre seu quarto mandato como Deputada Federal. Poderia ter sido mais!

Calili

O manto negro da morte. Minha avó usava bastante essa expressão. Ela – a frase – me assustava quando pequeno. Havia noites que a cortina do meu quarto escurecido para o sono me remetia instantaneamente a essa ideia de manto negro da morte. Na verdade, não compreendia muito o seu significado, mas a escuridão das histórias que minha avó contava deixara marcas. Hoje, eu velho lembro com saudade daqueles tempos em que a morte era só história e nada além disso.  Calili era uma pastor alemão. Pelagem bonita, cinza, branco, manca da pata esquerda traseira, olhar intenso, era velha como todos nós éramos. Ninguém sabe direito dizer quando Calili chegou ao asilo. Estou aqui há alguns anos e a cadela já frequentava seus corredores há tempos. Um dia apareceu na entrada, a porta esquecida aberta e pronto: a cachorra perambulava pelos corredores do abrigo. Silenciosa, sem escândalos, calma, carinhosa até, deixaram ficar. Se mal não fazia, deixa estar, é o que diziam e ela ficou.

O abrigo Nossa Senhora de Guadalupe tinha 39 velhos. Toquei a campainha do lugar quando me vi definitivamente só há três anos.  Deixei meu cartão de aposentadoria na secretaria para pagar minhas contas. Me deram um quartinho de 6 metros quadrados com espaço pra uma cama e um pequeno armário. Pra mim, de verdade, era mais do que suficiente. Éramos 40 agora. Eu, talvez, o mais novo deles com 63 primaveras. Mas o que interessa, de fato, é Calili e dela falarei mais agora.

Sendo bem honesto não gosto de cachorros, aliás, de nenhum tipo de animal incluindo o homem. O cheiro do cachorro me incomoda e assim sempre foi. Por isso mesmo, logo que vi a cadela me mantive distante, observador, sem ação alguma, como sempre fizera em minha miserável vida. Todos do lugar, funcionários e moradores, no entanto, tratavam o bicho com extremo carinho. E ela, do seu jeito, retribuía. Calili nunca entrava nos quartos que permaneciam sempre com suas portas abertas – norma da direção. Ela se mantinha no jardim mal cuidado (havia até uma casinha que a cachorra nunca usava) e, como já disse antes, andava pelos corredores ciscando aqui e ali. Nada de mais, vida tão miserável sem sal quanto a minha fora.

Há seis meses, o manto negro da morte caiu sobre o asilo. Fato, claro, que não era de se estranhar afinal nós todos já estávamos com os dois pés praticamente nas covas do cemitério Vila Matilde. O estranho não foram as mortes mais do que aguardadas (e não sejamos hipócritas). O esquisito foi como ela – a MORTE – fez o seu trabalho.

O inverno acabara de começar. O frio era intenso, inesperado até. Tanto que não havia cobertores para todos os quartos. Foi uma correria danada da administração para resolver o problema. Na primeira noite em que os termômetros baixaram a casa dos 10 graus, Calili perambulou pela ala C por uns bons minutos. Sim, estava frio até para ela. No terceiro quarto, da direita de quem entra, a cadela encontrou seu refúgio. Pela primeira vez, Calili aportava em um quarto. Levava na boca sua inseparável galinha de borracha sem cabeça. Lá ela ficou por três noites. Lembro que durante a segunda noite, tive uma forte dor de barriga. A enfermaria é na ala C. Passei pelo corredor e vi a cachorra deitada aos pés da cama do terceiro quarto. Ela olhava atentamente para o velho Batista enquanto esse dormia.  Assisti a cena e senti um arrepio e as histórias de terror da minha avó voltaram do passado. Na manhã do quarto dia, Batista não acordou. Com 70 anos, o carioca torcedor do Flamengo era dos poucos que não tinha doença alguma. Reclamava dos dentes que faltavam e nada mais. Morreu dormindo assim em paz.

O inverno pegava fogo e muitas cidades viam nos trópicos a neve cair. Aqui não nevou, mas o frio aumentava. Calili mancava mais e sua galinha sem cabeça não imitia mais som algum. A cadela passava tempos deitada, pensaram ate que adoecera. Numa noite de julho, ela se levantou, em três patas e passeou pela ala C, foi até o pátio central e rumou para o corredor A. Lá, no quinto quarto da esquerda de quem chega, arrumou guarida. Sebastiana a recebeu feliz. Sebastiana fechava seus olhos e ao seu lado Calili permanecia desperta, atenta, velando o sono da velhinha. Nada de mal poderia acontecer com Sebastiana tamanha a proteção do bicho. Calili dormiu por três noites ao lado da velha. Na manhã do quarto dia, a vovó de 92 anos não acordou. Foi o coração disse o médico. Lembro que a morta tinha um leve sorriso no rosto enrugado e passado.

Julho terminava, o frio esmorecia um pouco, no entanto, era pesado, constante, com seu vento cortante. Nada de neve, porém. Alberto era um dos moradores mais antigos do asilo. Quando ele viu Calili deitada ao lado de sua cama não achou estranho. Foi divertido até. Alberto não sorria, não falava, tímido demais, mas com a cadela se abria num entusiasmo sem fim. Calili gostava dele também, parecia ao menos. Alberto acarinhou a cabeça da cadela antes de dormir e assim foi por três noite. Calili atenta, de olhos bem abertos, cuidando do velho morador. Na manhã do quarto dia, o primeiro de agosto, o enfermeiro achou esquisito Alberto ainda dormir. Foi ao quarto, o chamou três quatro vezes e nada. Foi um AVC disse o médico.

Só eu havia percebido que Calili levara a morte àqueles velhos. Só eu notara que aquele que a cachorra escolhera não acordaria na manhã do quarto dia. Não contei a ninguém porque de fato isso era uma ideia absurda. Mas a morte estava à espreita, em cada canto daquele asilo, sim sim a morte estava ali, rondando, ansiosa, perniciosa. A morte estava lá e Calili era sua agente.

Agosto acabava, o inverno amainava e o vento já não cortava. Vestíamos as blusas quentes, no entanto. E foi numa manhã dessas sem sol que Calili cruzava meu caminho. Eu estava sentado num banco na sala de visitas do asilo. Ficava lá horas, lendo revistas de fofoca, tomando chá, vendo TV. Calili surgiu na porta, fiz que não a vi, mas ela me viu. Lançou aqueles grandes olhos castanhos – que percebera pela primeira vez traziam uma tristeza que eu nunca vira antes – em mim. Minha espinha gelou, tremi de medo. Ela me escolhera. No dia seguinte, na fila do remédio – minha pressão subira um pouco – Calili ficou ao meu lado o tempo todo. Fingia que não era comigo, mas todos perceberam e até piada fizeram. Naquele dia, qualquer lugar que fosse, a cadela estava ao meu lado. No entanto, na hora de dormir, Calili sumia, eu respirava aliviado.

Essa perseguição dela durou mais alguns dias. No último deles, Calili deixou pra trás sua galinha descabeçada. A peguei e isso foi a senha. Levei o brinquedo pra ela, que começou a brincar comigo. Jogava a galinha, a cadela rodopiava, mordia meu chinelo, parecia sorrir feito criança.  Naquele mesmo dia, eu sentado, folheando um livro bobo, Calili enfia o focinho no meu colo e lá fica. Pela primeira vez, não resisti e acarinhei aquele animal. Ela dormiu alguns minutos, roncou até. E eu, depois de muito, mas muito tempo, me senti alguém. No domingo, depois da missa, fui eu quem procurou Calili. Cuidei da sua comida, levei-a pra passear. Onde eu ia, Calili ia atrás. Arrumou namorada, velho turrão? Perguntavam.

Me doava a um ser como nunca fizera antes. E gostava disso. Me afeiçoei àquele bicho que parecia sentir o mesmo por mim. Até que na última noite de agosto, quando me preparava para dormir, ouvi os passinhos mancos de Calili pelo corredor da minha ala. Meu coração disparou. Ela parou em frente à minha porta. Me olhou com aqueles olhos tristes, fingi que dormia. O bicho entrou em meu quarto e se deitou no chão ao meu lado. Lá ficou.

Tive vontade de chorar quando senti o bafo dela quase na minha cara. Sabia que era o fim. Repassei toda a minha vida. Cheguei a conclusão de que nada vivera. E o pior: ninguém sentiria a minha falta. Não chorei então. Quando finalmente peguei no sono, sonhei o sonho dos mais lindos. Acordei na manhã seguinte em paz. Calili já não estava mais no quarto. A blusa pesada eu já guardara. Andei procurando a cachorra por alguns minutos quando ela me encontrou na velha fila do remédio. Fiquei feliz de vê-la. Me ajoelhei à sua frente, brinquei com ela, tirei a galinha descabeçada de sua boca, joguei longe pra buscar. Não percebi que minha atitude paralisara todo asilo. Não havia pessoas naquele lugar que não via a cena perplexo. O que deu no velho chato? Com certeza, se perguntavam.

Na segunda noite, esperei acordado por Calili. Pontualmente, os passinhos mancos pelo corredor, a cara deprimida na porta, o bafo quente na minha cara. Nana bem, cachorrinha e fechei meus olhos. Sonhei que tinha 20 anos. No sonho, eu decidia ficar, não entraria no avião. Estava feliz com a minha decisão e abraçava a moça com intensidade. Meu coração acordou feliz e Calili bobona me encarava com um quê de com que diabo sonhou esse velho? Brincamos o dia todo. Não lembrava de um dia mais lindo. Havia o inverno, havia frio, mas o céu era de um azul tão forte, tão vivo, que me deixava levar por ele. Calili ia junto ao meu lado. Dividi meu almoço e minha janta com ela. Roubei um pão de queijo na cozinha e dei pra minha companheira antes de seguir para o quarto. Era a terceira noite chegando e eu estava feliz.

Calili foi comigo. Escovei meus dentes velhos e amarelados. Passei um pente pelo ralo cabelo branco. Escolhi um pijama dos menos desbotados. Deitei na cama. Calili tomou seu posto. Virei de lado e assim conseguia acarinhar minha cachorra. Ela fechava seus olhinhos parecendo gostar do chamego. Adormeci. Sonhei com meu filho. Sonhei com aquele moleque de covinha no queixo e olhos claros. Estávamos na praia. Ele empinava pipa e eu babava a minha cria. Como eu amava aquele moleque. Um orgulho imenso. Meu filho me olhava pra ver se eu o olhava empinando o quadrado que voava longe, longe, longe. Ele ria. Eu ria. Amor.

Na manhã do quarto dia, Calili não acordou.

 

 

 

O FIM DO MUNDO

Fato consumado. Quando acordamos naquela manhã, sabíamos há tempos que seria a última manhã. Porque futuro não existiria depois desse dia. Essa realidade, cruel talvez, que pode causar dramas, lamentos, pesares, não surgira da noite para o dia. Avisados fomos, muitos correram feito barata para qualquer lugar, outros rezaram, rezaram, mas Deus – como sempre – não ouviu ninguém, alguns deram de ombros e poucos, quem sabe apenas eu, disseram “finalmente”. Não havia saídas, resoluções diplomáticas, milagres. O mundo tinha seus dias contados e não importa de verdade o por quê.

Como o fim era certo, e assim sempre foi afinal o fim era a nossa única certeza desde o início, as pessoas, depois do choque inicial, levaram suas vidas como faziam todos os dias. Alguém de outro mundo que desembarcasse no planeta terra e não soubesse de seu canto dos cisnes, jamais imaginaria que o tempo corria e que não correria mais logo ali, daqui a pouco. Absorvermos a dor, aceitamos, fizemos o nosso melhor e por isso mesmo, acredito, nunca viver nesse espaço foi tão VIVER.

O caos não houve. As classes sociais se dissolveram. Trabalhava-se pelo prazer. Fome não se passava. Frio idem. Solidão não se via. Um admirável mundo novo se fez diante do apocalipse iminente. E fomos felizes. Alguém (para celebrar? E por quê não?) vislumbrou nosso acabar com luzes, som, abraços, beijos, festa, cachaça, cannabis, pecados, mas não uma orgia de Calígula, desesperada e solitária…

Ninguém deu nome para a despedida. Ninguém criou contratos, aceitou dinheiro ou colocou empecilhos. Não, na verdade, todos queriam estar presentes. Então, imensos telões foram montados nos maiores estádios do planeta. A celebração da vida começaria com o fim do dia no norte. Havia sol – mais vermelho do que de costume – no sul. Aqueles irlandeses do cantor de óculos escuro foram os primeiros. Onde tocavam ao vivo pouco importava. Todo mundo voltava seus olhos para eles. Aquela guitarra, ah, aquela guitarra, antes do fim do mundo.

Nem todos, centenas quem sabe, não foram às arenas. Para eles, templos, igrejas, mesquitas, mantinham suas portas abertas. Havia cinco crentes numa, outros 12 noutra, mais 3 naquela ali. Se Deus a todos abandonou, todos resolveram também abandonar Deus. Amém…

Agora, o som triste de uma gaita de fole ecoava e sete bilhões de seres humanos suspiravam. Shouganai, dizia os japoneses. E mãos dadas se viam como nunca em nossa história. Uma moça bonita, de olhos castanhos, pequena, frágil até, pegou o microfone. Suavemente declamou os mais belos poemas e “no meio do caminho tinha uma pedra”.

Com a madrugada que se aproximava do norte vinha o fim. Todos os corações dispararam, se fosse possível ouvi-los o barulho seria ensurdecedor, os dois que sobraram dos quatro de Liverpool subiram ao palco e o mundo bateu palmas uníssono, sufocando os corações tumtumtumtumtumtum. Paul disse Oi e cantou o que todos queríamos cantar. Mais sorrisos no mundo do que desespero. Não havia alma sozinha. Não havia boca fechada enquanto os dois dos quatro comemoravam, sim, comemoravam.

E se os dias todos antes tivessem sido como o último?

The last song, disse Paul. Meu filho apertou minha mão. Apertei sua mão. Todo mundo fez isso. Era a deixa, era a certeza de que amanhã não seria amanhã. Leo disse tudo bem, eu disse tudo bem. E the last song, uma suave ironia com um doce sorriso no canto, gracejou com simplicidade assim “and in the END, the love you take is equal to the love you make”

No sul, o sol morria no mar para nunca mais…

Rascunho #3

O BRASIL DE 82

Há uma semana morria o doutor Sócrates. Não vou escrever sobre ele porque muitos já falaram e de formas tão bonitas que minhas mal traçadas linhas nem chegariam perto. Não posso, no entanto, deixar passar uma coisinha sobre essas homenagens, justíssimas diga-se. Invariavelmente, aqueles que destilaram laudas e laudas sobre o craque mencionaram – mais ou menos – a seleção brasileira de 1982. Aquele time formado por Telê Santana que tinha no mesmo meio-campo Zico, Falcão e Sócrates. E não era “só” isso. Havia Leandro e Júnior nas laterais. Nas zagas, se revezavam Oscar, Luizinho e Edinho. Na ponta esquerda, tinha o Éder. Na direita não tinha ninguém, mas sempre aparecia por lá Paulo Isidoro, entre outros, e como centroavante passaram pela nove Careca (que seria o titular do time se não tivesse se machucado), Reinaldo (outro titular ferido) e Serginho que acabou sendo o homem-gol do time na Copa da Espanha. Enfim, um timaço.

Repito o primeiro parágrafo: o mais interessante dessas homenagens ao Magrão é que não houve pessoa do mundo que não lembrasse desse time maravilhoso (acho que colocaria esse Barcelona de Messi na roda), de Sócrates jogando fácil ao lado de Zico, de Falcão chegando com toda maestria que lhe cabia e por aí vai. Mas o detalhe é que aquela equipe – e lá se vão quase 30 anos – não ganhou nada. Perdeu a Copa do Mundo e ficou na história. Como pode?  Todos que falaram de Sócrates, se lembraram dessa seleção com saudade, não tristeza. O que teria sido do futebol se o jogo bonito tivesse vencido? Talvez, a última coisa boa que a amarelinha produziu, mesmo tendo conquistado títulos mundiais depois, em 1994 e 2002. Acho que foi o Flávio Gomes – comentarista da ESPN –  que disse que foi o último Brasil pelo qual ele torceu. Concordo.

Eu era moleque em 82, tinha sete anos. Foi minha primeira experiência real de Copa do Mundo. Fã de Zico, amante do futebol, meu coração batia acelerado a cada partida daquele time. E veio a Itália, veio a derrota que não se esquece e antes de fechar o livro por que não lembrar de Sócrates na direita chutando com força na saída de Zoff?

Gooooll do Brasil!!

E eu pulava de alegria como nunca mais.

Era bom ser criança naquele instante, era bom ver seus heróis te encherem de vida…

A descoberta

Terminava o banho quando o burburinho se transformara num alvoroço lá embaixo. Eu não conseguia distinguir o que era aquele barulho de pessoas se juntando e aumentando o volume. Não pareciam gritar, mas de fato e era claro pra mim, enquanto me enxugava, que algo acontecia e que isso deixava a todos estupefatos. Vivo no terceiro andar de um prédio antigo, dos anos 60 talvez ou nem tanto, anos 70 ou final deles, não sei precisar. Digo isso porque edifícios como esse costumam ser maiores e, portanto, o caminho que percorri entre o banheiro, quarto e sala levou mais de três minutos. Tenho que confessar que sou manco da perna direita, anos de dores crônicas no joelho me transformaram num aleijado. Foram três minutos de passos vagarosos.

Quanto mais próximo da janela da sala, que estranhamente deixara aberta já que minha fobia de tudo impede um maior contato meu com o meio ambiente e por isso tudo fechado deixo, o som de uma descoberta se fazia perceber. Passo a passo e eu já conseguia ouvir coisas do tipo “nossa”, “como pode?”,“é o fim do mundo”, “maravilhoso”, “chamem a polícia”. Minha excitação crescia enquanto minha perna direita manca doía a cada tentativa de acelerar a minha chegada. Queria saber o que estava acontecendo… Queria saber tudo… Queria saber como as coisas funcionavam… Queria saber por que eu fiquei sozinho no fim… Queria saber por que toda madrugada acordo com a respiração de alguém ao meu lado e nunca há alguém ao meu lado… Queria entender por que agora algumas pessoas aplaudiam lá fora, enquanto outras pareciam aterrorizadas…

Mas não havia como apressar meu lento passo e nem explicar o muito que eu não entendia ou sabia.

Nesses três minutos, pensei nos filhos que não tive, na mulher que não amei, nas viagens que não fiz, nos cachorros que não criei. Pensei na vida que tive e tenho agora e o que restou de tempo é tão pouco, tão pouco, tão pouco…

Dois segundos, um passo a mais e alcanço a janela. De lá, tudo agora é possível ser visto. Um céu azul preenche a moldura dessa janela. Olho para baixo e não posso dizer quantos lá estão. Incontáveis. Todos olham para cima, a sua frente, o que significa minha direita. Forço mais a velha janela, tão doente e só quanto eu, apoio minhas cansadas mãos e viro minha cabeça para a direita também. E agora sim posso ver o que todos viram… “lindo, lindo, lindo demais!”

Rascunho #2

RISCADO DO MAPA

Passou despercebido. Ninguém notou, cobriu o evento, mandou fotógrafo ou equipe de filmagem. Pelo menos, que eu saiba (você sabe?), o Ocidente não fez isso. Maldosamente chamado de “clássico de fome”, Etiópia e Somália disputaram na última quarta-feira o segundo jogo da luta por uma vaga na próxima fase da Eliminatória africana para a Copa 2014. Agora, responda, sobre a África o que não se passa despercebido?

Em agosto passado, a pior seca dos últimos 60 anos no continente colocou 13 milhões de pessoas em situação de emergência. Um mês depois, presidentes da Somália, Quênia, Djibuti e Etiópia lançaram-se a um “pedido desesperado” de ajuda financeira à ONU. Na ocasião, inclusive, outro número macabro lançado a quem estivesse disposto a ouvir: 750 mil pessoas da região conhecida como Chifre da África correm sérios riscos de morrerem de fome até o final do ano. Sabe a África? Aquele continente que se encaixa no Brasil? Cerca de 900 milhões de pessoas vivem nele, lembrou? Pois é, mas parece que não existe mais.

Mais números: 71% dos infectados com o vírus HIV estão na África. E aí alguém se mexe para mudar esse quadro? Se sabemos que mais de 500 mil pessoas morrerão de fome, por que não fazemos nada? Há algum tempo, li um artigo no qual o tiozinho dizia que 80% do mundo de hoje não fariam falta ao Capitalismo. Isso quer dizer que pouco mais de um bilhão de pessoas são suficientes para que o sistema econômico vigente continue sua vida. E o resto? É apenas resto? Quando penso em escrever sobre o continente africano, só chega à minha cabecinha que não entende as coisas um monte de perguntas (algumas, inclusive, já as fiz nesse rascunho). Foram mais de 400 anos de escravidão, depois um século de invasão e permanência europeia e agora nada. Nada! Como se 900 milhões de pessoas não existissem, não estivessem aqui vivendo, tentando sobreviver, sorrindo, amando. Um vazio no mapa e nada mais.

Não sei se você acha normal pensarmos nesse continente de forma tão distante. Eu não acho. Sabemos que as culturas brasileiras têm muito mais a ver com os africanos do que com os europeus, mas nós, em nossa ignorância de pequenos emergentes de um mundo novo, fechamos os olhos ou fazemos pensar que o problema não é nosso. É claro que algumas iniciativas existem. No entanto, são tão poucas, tão insuficientes tamanho o abandono de uma África inteira. Parte da fortuna de um desses homens mais ricos do mundo resolveria a questão da fome nesse lugar… e daí, não é? A tempo, a Etiópia goleou a Somália por 5 a 0 e ainda sonha com uma vaga na Copa do Mundo de 2014.