Crônica

As viúvas do Zico

Eu odeio o Flamengo.

Minha avó se estivesse viva ralharia comigo. “O que é isso, menino? Primeira linha do seu livro com uma palavra tão feia?” Pois é. Acho que você vai concordar comigo sobre tanto ódio em meu pobre coraçãozinho depois de ler essa breve história do Clube de Regatas Flamengo. Não faltam razões para tanta amargura e mágoa. Lançarei nessas páginas lamentos e mais lamentos porque, de verdade, não é fácil ser torcedor do rubro-negro.

Mas pera aí, cara! Você está falando do time de maior torcida do Brasil, quem sabe, do mundo. Eu sei disso. Mesmo assim, dói no peito pacas acompanhá-lo. O último exemplo disso foi em 3 de julho de 2016. Partida pelo Campeonato Brasileiro. O Flamengo ganha, perde, demite técnico, confirma interino, porém, nessa temporada a equipe se mantém entre os sete, oito melhores. Então, jogo contra o Corinthians em São Paulo no estádio de Itaquera, construído pra Copa do Mundo de 2014 e que eu não conhecia ainda. Ótimo programa para uma tarde de domingo. Ah, esqueci de dizer que sou flamenguista, mas nunca morei no Rio de Janeiro. Quase sempre vivi na cidade de São Paulo, longos 400 quilômetros do mágico Maracanã. Mas só vou falar disso mais adiante, voltemos ao clássico do povo.

Por causa do Mundial, pulularam pelo país as tão famosas Arenas. Não se fala mais estádio de futebol, a modinha agora é Arena disso, Arena daquilo. Tá, ok, que seja. Tudo mudou, o Maracanã mudou, virou outra coisa. E até o jeito de se comprar ingressos também se transformou significativamente. Por isso, adiei ao máximo a compra da minha entrada para esse Flamengo e Corinthians em Sampa. Em outros tempos, quando havia o carinho (será?) de um pai, o Mengão em São Paulo era certeza da minha presença no lugar, era importante, era um evento imperdível, eu tinha que estar lá. Agora, com pouco mais de 40 e sem ingenuidade nenhuma simplesmente desencanei do estádio. Quando a manhã de domingo chegou, não tinha ingresso nas mãos e já havia a certeza de que ahhhh, não vou sair de casa pra ver esse time não, vai passar na televisão.

Seu traidor! Claro que você dirá isso. Mas se ponha no meu lugar. Sou torcedor, mas mas… Enfim… o jogo começa um minuto antes do tempo e o Mengo dirigido por Zé Ricardo, ótimo técnico da base que foi lançado aos lobos, me surpreende. De verdade. Na mesma hora, em outro canal, a França jogava contra a Islândia pelas quartas de final da Eurocopa e quase me lancei nessa empreitada. Mas porra, o Flamengo dava um baile no Corinthians. William Arão, Ederson e até mesmo Pablo Guerrero deixavam os corintianos respirando com dificuldade. Termina o primeiro tempo e meu time está bem demais.

Poxa, eu tinha que desconfiar.

Quando o jogo recomeça, Arão perde um gol impressionante. Minutos depois, o mesmo Arão falha na marcação depois de uma cobrança de escanteio. Sem merecer, gol do Timão. Outros minutos, nova bobeada rubro-negra, e a porteira é aberta de vez. Corinthians faz dois, três, quatro gols e eu me afundo no sofá e a primeira coisa que penso depois de dizer merda várias vezes “que bom que não gastei dinheiro com isso”. No entanto, eu queria ter dito, “mas tudo estava indo tão bem…” Sentiu? Essa tem sido minha vida nas últimas três décadas. Sofrimentos e vergonhas de todos os níveis. Cabañas? Atlético Mineiro na Copa do Brasil? Pior ataque do mundo? Quase rebaixamento em um monte de temporadas? Um ou outro motivo de alegria, quase nunca. E dessa sensação de tragédias e vergonhas nasceu a certeza de que precisava contar essa história. A história das viúvas de Zico. A história do time que nunca mais foi o mesmo depois da aposentadoria de seu maior ídolo. A história de um gigante que se apequenou…

Ah, mas o Nick Hornby fez isso com o Arsenal!!! Eu sei. Li essa pequena obra-prima em 2001. Não pretendo ler novamente enquanto fizer esse livro. É claro que me serviu de inspiração. Não sejamos hipócritas. Porém, a história é outra, o time é outro, minha vida é outra. Relaxa aí na sua cadeirinha e não começa a reclamar. Deixa que eu farei isso quase que o tempo todo… afinal…

Eu amo o Flamengo…

Contos

Outside

Fiquei fora o dia todo. Estudei, trabalhei, andei quilômetros por aí. Vi uma pessoa morta, que acabara de morrer. Ainda de capacete, policiais ao seu lado, no meio da rua, nenhum movimento do corpo. Olho pra sua mão esquerda, nada. O peito não sobe e desce. Os olhos não se abrem. Morta. Passo por ela, dois metros de distância. Volto minha cabeça para ela duas, três vezes, enquanto me distancio seguindo meu caminho. Os pés doem, o par velho de tênis. Ela morreu, eu estou vivo. Não me dou conta no momento porque meu dia não havia acabado. Tenho que editar, publicar, divulgar. É uma rotina de poucos anos, que mal paga minhas contas, mas me faz isso, me faz viver sem máscara alguma. Máscaras essas que aprendemos a usar desde pequenos porque senão ninguém nos amará. Não gosto delas, não as uso e termino sozinho no último capítulo, mas tudo bem! Como meu almoço janta como fazia quinze anos atrás, qualquer pão com o queijo quente derretendo e queimando o céu da boca. Enquanto a lua enche todo o céu e pisca pra mim quando passo pela janela e com desdém a ignoro, finjo ignorar, mas sempre penso “como é linda”. Como meu lanche, tomo meu Danone de uma marca baratinha, banho quente que esfola a pele, a barba que continuará na cara porque assim será, o cansaço e decido dormir cedo para um sábado, são dez e pouco… Desperto agitado com o coração doendo, sabendo que o coração não dói, por volta das duas da manhã. Tenho sede. Ouço um passarinho com insônia cantando na minha janela. Lá longe, a noite dos outros não acabou. Decido então escrever uma história boba de um dia normal num único parágrafo. Penso na menina que morreu, penso na menina que está viva. Minha cabeça é um mar gigantesco de pensar. Mais ondas, mais ondas, maiores, maiores, maiores, pensar, pensar, pensar. Fiquei fora o dia todo…

Contos

NUDEZ

Deixei que ele me mordesse não porque o amava

A moça dos olhos verdes não podia, não queria, não sei

Eram dela os dentes que eu queria rasgando meu corpo

Não por perversão, talvez sim,

Precisava sentir algo que não fosse aquele nada…

Outro diferente tipo de sentido, quem sabe?

Meu sangue escorria pela barriga

Ele já tinha ido há tempos…

A velha senhora, mentindo, sorrindo, diria

“É apenas coincidência”

Num mês estranho, sem sono, sem voz, sem chuva

Numa sequência sem método

Primeiros, as cartas de Van Gogh

A dança macabra de Stephen King

A biografia de Cobain

A ficha caiu do tamanho da mobidez

Na vitrola, era Nevermind…

Sorri o sorriso falso de décadas

Olhei no espelho, as olheiras fundas,

Mas talvez eu só estivesse cansado

Uma gota caprichosa do meu sangue manchou o carpete…

Eu queria aprender a odiar novamente…

Era mais fácil acordar de manhã …

A caixinha mágica dizia lá de longe

“Ei, velhinho, não esquece de mim, não esquece de mim

Ei, velhinho, eu gosto de você, eu gosto de você

Ei, velhinho, vem dormir comigo… pra sempre

Vem”

Naquela noite, chovia, eu fui…

Crônica · Ensaio fotográfico

Gol da Alemanha

DSC_0036Todo mundo lembra onde estava quando o homem desceu na lua. O mesmo serve para o 11 de setembro. A morte de Senna também. São exemplos de fatos marcantes que extrapolaram seu universo, seu nicho, e transbordaram para a vida cotidiana das ditas pessoas normais. Eu, você, ele, enfim. Pra muita gente é difícil perceber, por causa da falta de distanciamento temporal, o fato histórico se desenhando na sua frente. Realmente, não é simples entender que aquilo que conhecíamos não é mais aquilo que, bom, conhecíamos. Tragédias, mudanças sem aviso prévio, tiram o seu chão. Para os que amam futebol, o 8 de julho de 2014 ganhou sua aura de inesquecível num padrão do nível da queda do Muro de Berlim (sim, parece exagero, mas não é não). Não? Vou dar uma dica (ou duas): o 7 a 1? Gol da Alemanha? Pois é, o futebol brasileiro tem seu Waterloo. Você lembra o que sentiu naquela tarde?

Tenho que confessar que muitas vezes torço contra a seleção brasileira. Foi assim em 2010 na Copa do Dunga. Tem sido agora também. Vibrei contra os times de Zagallo, Parreira e até Luxemburgo. Rancoroso, sei bem. Sou, entre outras coisas, uma viúva do time de 1982, aquele do meio campo formado por Falcão, Sócrates e Zico. Putz grila, você tem noção do que foi aquela equipe? Se tem, então, entende como me sinto em relação aos escretes canarinhos que vieram depois. A comparação é cruel. Agora, sempre tive simpatia por Luiz Felipe Scolari. Tive a chance de entrevistá-lo duas vezes antes da Copa de 2002, a Copa do Penta. Fiz perguntas complicadas e ele não virou os olhos nenhuma vez e ainda fez graça quando respondia. Pouco passional eu, torci por Scolari no Mundial do Japão e da Coreia. O título veio e o tempo passou. Então, chegou a Copa do Mundo do Brasil em 2014.

Scolari substituiu Mano Menezes (que eu gostava), quando finalmente o time do treinador demitido engrenava. Aliás, a saída de Mano pegou todo mundo de surpresa. Agora, a seleção de 2014 estaria sob comando de Felipão e, nas sombras, Carlos Alberto Parreira. Por mais carinho que tivesse por Scolari, difícil engolir as pataquadas de Parreira. Aí, a Copa começou. Neymar era o único talento de um grupo nada mais do que esforçado. Claro, todo mundo que quisesse ver essa verdade, viria. Mas a pachecada entrou naquele esquema do ame-o ou deixe-o (que enche pacas o saco)… eu deixei a seleção de novo. Mas gosto (amo?) futebol e fui ver tudo da Copa do Mundo.

Via Messi se desdobrando pra levar a Argentina nas costas. O Chile vencendo um dos grupos da morte. Itália e Inglaterra dando novos vexames. A Espanha, até aí a campeã do mundo, numa participação frustrante. E tinha o time do Felipão, a duras penas, passando pela Croácia (lembra do apito amigo do japonês), empatando com o México, derrotando um ultrapassado Camarões. Na sequência, dois clássicos sul-americanos. A quase eliminação contra o Chile e depois (talvez único bom jogo do Brasil) a vitória sobre a Colômbia, que trouxe na bagagem o fim do Mundial para Neymar depois da entrada dura de Zuniga. Nada de especial, na verdade. A choradeira dos boleiros amarelos na hora do hino chamou mais a atenção do que boas partidas de fato. Que venham as semifinais.

O Brasil, suando por demais, ao lado de Holanda, Argentina e Alemanha – que havia apresentado um melhor conjunto mas sofreu como nunca nas mãos da Argélia nas oitavas-de-final. Não esqueça também que os alemães acabaram virando o segundo time de todo mundo tamanha a simpatia que exalaram em terras tropicais.

Sem Neymar, a seleção enfrentaria o melhor time do Mundial de olho na final. Felipão surpreendeu todo mundo escalando o franzino Bernard para encarar os gigantes germânicos. Seleção brasileira, sim senhor, jogando pra frente. Não posso dizer que fiquei triste com esse arrojo do nada do treinador tupiniquim. Mas, e nesse história sempre tem um mas, o problema é que o Brasil não tinha time para encarar ninguém, não tinha meio campo, a defesa era uma festa e o coitado do Fred, bom, era só um coitado lá na frente. Deficiências claras e evidentes apresentadas há tempos.

O jogo começa e não podemos dizer que os dez primeiros minutos foram ruins. Foram não. As coisas até que caminhavam bem para os comandados de Felipão. Bernard, outro coitado, parecia uma criança no meio do jogo de adultos, porém o Brasil encarava a Alemanha. Então, aos 11, um escanteio e a casa caiu. É importante lembrar que Muller apareceu sozinho na área. Só deu um totozinho e rede. Ninguém para marcá-lo. Ok, meninos, então vamos acordar e continuar a peleja. Como disse, eram só meninos, nada mais do que isso. Não havia um líder em campo, nem fora dele. Quando o 23º minuto aportou no relógio, a seleção amarela desandou de vez. Levou quatro gols em pouco mais de 300 segundos. E o resto virou história.

Eu estava chocado vendo tudo aquilo. Uma sensação maluca de não estar vendo aquilo. Não era real. Porque ali dentro do campo ninguém de amarelo corria ou fazia algo ou quebrava alguém ou ia pra porrada e nada acontecia além de gol da Alemanha, gol da Alemanha, gol da Alemanha. Pesadelo para quem assistia ou um certo torpor ou as duas coisas. Mesmo sendo da torcida do contra, jamais imaginara que algo assim pudesse acontecer com o outrora melhor futebol do mundo. Eu sabia há algumas décadas que o Brasil não era mais o dono da cocada. Era só mais um. Mas dói quando aquele seu amor mais antigo é maltratado, humilhado, pisado. Eu ria de nervoso, não era real. Gol da Alemanha. O primeiro tempo acabou, 5 a 0 pra eles.

Devo ter ido tomar café, meu vício mais querido. Voltei pro meu canto do sofá. O intervalo passou letárgico. As imagens dos torcedores incrédulos, muita gente indo embora do estádio (o que não acho certo porque se é pra torcer, torce até o final e ponto). De verdade, já imaginava coisas piores do tipo vira 5 acaba dez. Claramente, no entanto, quando os alemães voltaram ao jogo, o fizeram num ritmo mais lento. Não fariam mais nada para nos humilhar. Não avisaram pro tal do Schurle que ainda marcou mais dois gols. Vexame escrito e nem o gol do Oscar aliviou muita coisa. 7 a 1. Não chorei nem nada. Atônito e com a garganta seca e um pouco envergonhado. Maior goleada já sofrida na história da seleção brasileira. Acho que só isso já basta como epitáfio. A maior humilhação já sofrida pelo time brasileiro em seus 100 anos de história. Nada havia sido pior do que aquilo.

O juiz apitou o fim do jogo e senti que poderia acordar a qualquer momento com aquela sensação de que havia tido um sonho muito ruim. Quando acordasse, tudo seria melhor. Pois é, amiguinho, foi não. Como um crítico do status quo da sociedade humana acreditei (ingênuo coitado) que a vergonhosa derrota serviria como o marco zero de uma nova realidade. Aqueles que faziam mal para o nosso futebol (um bem cultural, sim senhor) seriam limados da face da terra, gente séria assumiria o comando e hoje, um ano depois, estaríamos ainda lambendo as feridas, mas com uma perspectiva diferente.

Claro, nada disso aconteceu. Mandaram o Felipão pra China e trouxeram de volta o Dunga. A Copa América que acabou no último sábado foi a prova de que não aprendemos nada com os 7 a 1. A arrogância, incompetência, cegueira global seguem mais fortes do que nunca. E me levam a uma leve sensação de que precisaremos de outras humilhações, como não se classificar para uma Copa do Mundo, por exemplo, o que nunca esteve tão próximo como agora… Mas relaxa, meu pai dizia que eu era pessimista. Devo estar exagerando (o que de fato estou sendo é sarcástico). Sei não, sei não, a luz que aparece no fim do túnel é um belíssimo de um trem sem freio vindo em nossa direção. Que pena.

Contos

A CASA

Era um corredor extenso, grande mesmo. Saía da cozinha e levava aos dois quartos, um maior outro menor, e ao banheiro. Havia tapetes nesse caminho. Todas as cores do mundo, se você olhasse com atenção poderia ver que eles – os tapetes – brilhavam no escuro e um par de olhos verdes dizia todos os segredos impublicáveis sempre depois da meia-noite. Mas era preciso acreditar, antes de tudo. Quase sempre, a lâmpada que ficava no meio desse corredor se apagava sozinha, se acendia depois com força quase de um sol inteiro, se apagava novamente pra nunca mais. Em noites de pesadelo e de chuva forte, que bate na janela com força de um grito dizendo “eu sou a sua morte e te quero bem…”, aquele corredor não tinha fim e nenhuma de suas milhares de portas se abria. Nenhuma porta se abria. E o desespero só aumentava porque simplesmente nenhuma porta se abria e o corredor não tinha fim.

Você sabe que eu não minto muito. Essa história é a história de um velho e de uma velha casa. Tudo que virá a seguir é verdade. Ambos demoraram séculos para se encontrar. Me sinto triste quando lembro do velho. Ele não era de todo mau, tinha um humor peculiar e via a vida com olhos verdadeiros, sem filtros, sem pudores, sem medo ou com o maior pavor de todos. Ele era um velho que conheceu o mundo. Sim, o velho não tinha mais idade e por causa desse detalhe, não ter um fim, decidiu numa bela manhã de abril, quando a lua tinha dito adeus, partir sem rumo. Ele partiu a pé, se foi, sem dizer adeus, não havia ninguém para dizer adeus. Ele foi. Antes, porém, queimou suas asas, queimou seus quadros, discos e livros, queimou seu coração. Andou, andou e andou e andou porque não servia para nada correr desembestado feito um besta.

Ele estava cansado, só isso.

Andar era o remédio para não pensar em mais nada, naquilo que havia deixado para trás (teria deixado algo para trás mesmo?), naquilo que não prestava pra mais nada. Conheceu então o mundo inteiro. Sem saber, enquanto percorria montanhas, oceanos, rios, campos, sistemas solares, ele procurava algo… ele não sabia, mas procurava sua casa, seu lar, o lugar no qual fincaria suas raízes e finalmente encontraria paz. O lugar em que fecharia seus olhos e se deixaria levar como alguém que decide na hora do afogamento parar de lutar e deixar toda aquela água fluir pra dentro de si. O local que fecharia o imenso buraco de seu peito, buraco esse que existia bem antes de tudo. Um buraco invisível que nunca se fechara, que nunca se contentara, um buraco que nunca deixara o velho quando era apenas um homem comum se aquietar num canto qualquer. Esse buraco trouxe inquietação, desejos, perdas. Com o seu vazio, de certa forma, esse buraco matou o velho, mas não conte pra ninguém porque ele nunca percebeu que na verdade não existia mais.

O velho andou anos-luz. Viu estrelas nascerem, cometas colidirem, anjos fazendo anjos. O velho viu deus morrer.

Ninguém se lembra como, quando e por que a casa foi construída. O que todos garantem é que ela sempre esteve lá, desde a aurora dos tempos, desde quando aquela mulher comeu o que não devia ou teria sido aquele homem, ninguém sabe mesmo traçar uma linha do quando essa casa apareceu na face da terra. O fato, ela está lá, sempre esteve, estará quando nós partirmos dessa pra melhor ou pior. Na sala, há uma cortina vermelha, bonita, que impede, quando totalmente fechada, que a luz entre e clareie toda a escuridão. Ninguém também nunca viu aquelas cortinas abertas ou pelo menos não se lembram. Na sala, há um sofá, pequenas estantes, duas portas, uma para entrar outra pra sair. A lâmpada nunca se apaga sozinha.

Em uma das paredes, um quadro queimado pela metade que talvez tenha sido salvo de algum incêndio, quem sabe? No que sobrou desse quadro, um coração também queimado servido aos demônios como prato principal. Percebe-se numa análise mais detalhada que os demônios não aceitam o coração. Se você encostar seu ouvido, se aproximar do quadro, ouvirá o coração lamentando… “nem eles me quiseram…” Se você tivesse coragem de abrir as cortinas vermelhas veria uma bela janela de ouro que te levaria a outros mundos, bastava para isso dizer sim, eu quero ir… As cortinas nunca foram abertas…

Na cozinha, uma grande mesa, talvez comportasse em seus bons tempos 500 soldados, quem sabe mil donzelas em seus vestidos rosa e azul anil. Hoje, a mesa não recebe mais ninguém. Um forno antigo, que dizem ter acolhido o primeiro fogo do mundo, jaz sozinho no canto pedindo um pouco de atenção. Há uma janela ali também, sem cortinas. Quando você olha por ela, vê o futuro, tudo aquilo que poderá ser e não o é agora, mas ninguém, nunca, em nenhum tempo, olhou por aquela janela. Se assim tivesse feito, qualquer pessoa, nossa história hoje seria diferente, no entanto, claro, essa é uma outra história.

O chão dessa velha casa é de terra batida, terra tão velha quanto a casa, quanto a Terra, quanto o velho. Milhares andaram por esse chão. Agora não mais, apenas sombras e uma boneca, brinquedo de criança, que insiste em viver mesmo sabendo que bonecas não podem viver, não faz sentido um brinquedo viver, mas aquela boneca é danada, quer viver e quando a meia-noite bate, depois dos olhos verde proclamar todos os segredos do mundo, ela passeia pelos cômodos, rindo alto, correndo feito moleque, brincando com cachorros imaginários e filhos perdidos, que se foram antes de seus pais. Aquela boneca quer viver, poético isso, ela quer viver, mas não pode, não dá, não faz sentido algum… onde já se viu uma boneca de brinquedo querer viver?

Antes das bestas saírem para caçar, alguns minutos antes, a casa para de ranger. Tudo silencia. O corredor. A boneca. A janela. A chuva. Os grandes e tristes olhos verdes. A cachorra manca que não existe mais. Quando o relógio toca três da manhã shuuuuuuu nada mais se move naquele pedaço de mundo esquecido por deus …

Numa manhã fria, gelada mesmo, de neve nos trópicos, finalmente, o velho parou em frente ao portão daquela casa. Os dois finalmente depois de eras se encontravam. O portão rangia pra lá e pra cá com o vento e o velho pensou um pouco se deveria entrar ou não entrar na casa. Ele sabia, não sei como, que ela o esperava, que ela de certa forma, seria o fim da linha. O velho pensou e pensou. Concluiu que nada poderia ser pior do que tudo fora antes. Ele, portanto, decidiu entrar na casa. Como por mágica, no instante em que decidiu dar o primeiro passo, um raio cruzou todo o céu cinza. Teria sido uma bela foto.

Me esqueci de falar como se entra na casa. Há duas portas. Bom, antes, você abre o portão, segue pela trilha de cruzes plantadas metodicamente por uma senhora que vivera muitos anos antes. Essa trilha se bifurcará. Então, as duas portas. Uma levará à cozinha. A outra à sala. Se você está esperando alguma surpresa quanto à escolha de uma das portas, me desculpe, nada de especial acontecerá. O velho sabia disso, de alguma forma, ele sabia que qualquer porta era uma porta e ponto final. Escolheu a da sala. Ah… não havia chaves para essas portas. Bastava girar a maçaneta e pronto.

O velho escolheu a porta da sala,

girou a maçaneta e entrou…

Dois passos para dentro,

o velho na casa,

a casa no velho.

a porta se fecha…

Contos

A ENTREVISTA

Jesus Cristo me olha com intensidade. Não tenho idéia do que passa em sua cabeça. Negro, bonito, cabelo raspado estilo jogador da NBA. Ele dá um longo gole. Esvazia a taça de vinho. Jesus Cristo está com uma camiseta branca, uma calça jeans básica e uma barba de dois, três dias. No pulso esquerdo, percebo uma tatuagem. É um nome. Não importa qual. Eu também tenho um nome em meu corpo. Não importa. Jesus Cristo coloca a taça vazia em cima da mesa. Olha ao redor, faz um clima (percebo!). O bar está cheio, ninguém nos nota. Ele me encara novamente, se ajeita na cadeira. Seu cheiro é doce. Não identifico a fragrância. Não entendo de cheiros. Ele me encara novamente, se ajeita na cadeira.

“É foda!”

“É”, concordo sem hesitar. Realmente, é foda.

“Como você sabe que não sou uma fraude?”

“Eu não sei. Bom, você não teria porque mentir para mim. E depois, sua taça cheia agora não é algo muito comum. Não?”

“Ah, a taça vazia, depois cheia (rs). É um bom milagre! Gosto dele”

“Percebo (rs). Preciso chamá-lo de senhor? Afinal, és o filho de Deus”

“Relaxa. Não sou tão mais velho que você. Vai gravar?”

“Sim. Se incomoda? Posso começar?”

“Seu filho pediu para dizer que é preciso ter fé… ok, comece!”

“Arrependido de ter morrido por nós? Afinal, você já deve ter percebido que a humanidade não melhorou muito depois da sua morte.”

“Por que vocês, jornalistas, sempre começam pela mesma pergunta?”

“Hum, será que é porque somos jornalistas?”

Ele sorri. Eu sorrio. Estamos indo bem. Acho.

“Cara, não me arrependo daquilo tudo não! De certa forma havia dentro de mim um mínimo de esperança que a morte do filho de Deus abrisse a cabeça das pessoas. Como você disse, não deu muito certo… vocês ainda não sabem o que fazem.”

“Você acreditava naquela história toda de paz e amor?”

“ E você acredita?”

“Às vezes, mas o entrevistado é você.”

“Sim, acreditava. Acreditava…”

O olhar de Jesus Cristo se perde em algum lugar que não identifico. Não leio seus pensamentos. Mais um gole de vinho. Seus olhos castanhos brilham.

“Jesus, você acredita em Deus?”

Um longo suspiro…

“E você, acredita nisso que sente no coração agora?”

 

Penso alguns segundos.

 

“Não sei… dessa vez o final da sua história vai ser diferente?”

“Sim, será. Mas lamento dizer que o final de vocês não será bacana. Inclusive, o seu.”

“Ok, sem problemas. As pessoas te ouvirão desta vez?”

“Não. Ninguém me ouvirá. Você tem medo do futuro, meu caro repórter?”

“Não. Honestamente, não penso sobre ele!”

“Entendi. Carpe diem, não? Sabe o que mais me incomoda nessa história de ser filho de Deus?

“Não imagino”

“Sou apenas um instrumento. Não altero nada. Não modifico. Não transformo. Digo coisas como tantos dizem e isso se perde no meio do tanto que é dito. Meu pai não é um ser fácil de se lidar. Estou cansado”

“Jesus, você está deprimido?”

“Hum, senti uma certa ironia nas suas palavras”

E rimos, rimos, rimos…

“Suas palavras são honestas. Elas significam muito para aqueles acreditam. Você não é apenas um instrumento!”

“Tá, você é gentil, mas isso não reverterá em pontos para entrar no paraíso!”

A gargalhada de Jesus Cristo é exagerada. Impossível não se contagiar. O cara, filho de Deus, bêbado, deprimido e reclamando da vida. Cada uma, elaia.

“Você sente falta deles. Sua dor é quase palpável . Você não entendeu nada”

“ Não sou perfeito, lamento!”

“Ninguém é, caro repórter. Ninguém é!”

Fitas rolam. Taças vazias se enchem do nada. Palavras são ditas e se perdem no tempo. Tempo que passa sem percebermos (gosto desse clichê. Algum problema?)

“Me responda uma coisa, caro repórter. Por que você quer respostas?”

“Para entender aquilo que você sabe que não entendi! Talvez…”

“Hum, você está bêbado também!”

“Jesus, é possível viver sem medo?”

“Não!”

“Jesus, você está com medo?

Ele não responde.

“E você, está?

Eu não respondo.

“Não há um outro jeito? Uma outra saída? È preciso acontecer tudo isso?”

“Vocês tiveram a chance de mudar… agora…. é tarde…”

“Poxa…”

 

“É”

Uma última pergunta.

“Por que você me escolheu para essa entrevista?”

“Porque ninguém te escutará!”

Ele se levanta. Um adeus sem palavras. Vira-se e parte. Fico sentado, olhando o filho de Deus ir embora. Em tempos (nossa como fazia tempo!), não há pensamento algum em minha cabeça. O barulho daquele boteco me absorve. Cigarro, maconha, vodka. Cheiros. Há tanta vida ali naquele momento. Fecho os olhos.

“Posso voar?”, pergunta a menina de cabelos castanhos, olhos castanhos, vestido branquinho e com um machucado na testa do lado direito.

Eu sorrio. É o sinal. Ela voa.

 

….

 

Lá em cima

“Então, Jesus, conseguiu falar com ele?”

“Sim”

“E agora?”

“Não há nada para fazer além de esperar”