Gol da Alemanha

DSC_0036Todo mundo lembra onde estava quando o homem desceu na lua. O mesmo serve para o 11 de setembro. A morte de Senna também. São exemplos de fatos marcantes que extrapolaram seu universo, seu nicho, e transbordaram para a vida cotidiana das ditas pessoas normais. Eu, você, ele, enfim. Pra muita gente é difícil perceber, por causa da falta de distanciamento temporal, o fato histórico se desenhando na sua frente. Realmente, não é simples entender que aquilo que conhecíamos não é mais aquilo que, bom, conhecíamos. Tragédias, mudanças sem aviso prévio, tiram o seu chão. Para os que amam futebol, o 8 de julho de 2014 ganhou sua aura de inesquecível num padrão do nível da queda do Muro de Berlim (sim, parece exagero, mas não é não). Não? Vou dar uma dica (ou duas): o 7 a 1? Gol da Alemanha? Pois é, o futebol brasileiro tem seu Waterloo. Você lembra o que sentiu naquela tarde?

Tenho que confessar que muitas vezes torço contra a seleção brasileira. Foi assim em 2010 na Copa do Dunga. Tem sido agora também. Vibrei contra os times de Zagallo, Parreira e até Luxemburgo. Rancoroso, sei bem. Sou, entre outras coisas, uma viúva do time de 1982, aquele do meio campo formado por Falcão, Sócrates e Zico. Putz grila, você tem noção do que foi aquela equipe? Se tem, então, entende como me sinto em relação aos escretes canarinhos que vieram depois. A comparação é cruel. Agora, sempre tive simpatia por Luiz Felipe Scolari. Tive a chance de entrevistá-lo duas vezes antes da Copa de 2002, a Copa do Penta. Fiz perguntas complicadas e ele não virou os olhos nenhuma vez e ainda fez graça quando respondia. Pouco passional eu, torci por Scolari no Mundial do Japão e da Coreia. O título veio e o tempo passou. Então, chegou a Copa do Mundo do Brasil em 2014.

Scolari substituiu Mano Menezes (que eu gostava), quando finalmente o time do treinador demitido engrenava. Aliás, a saída de Mano pegou todo mundo de surpresa. Agora, a seleção de 2014 estaria sob comando de Felipão e, nas sombras, Carlos Alberto Parreira. Por mais carinho que tivesse por Scolari, difícil engolir as pataquadas de Parreira. Aí, a Copa começou. Neymar era o único talento de um grupo nada mais do que esforçado. Claro, todo mundo que quisesse ver essa verdade, viria. Mas a pachecada entrou naquele esquema do ame-o ou deixe-o (que enche pacas o saco)… eu deixei a seleção de novo. Mas gosto (amo?) futebol e fui ver tudo da Copa do Mundo.

Via Messi se desdobrando pra levar a Argentina nas costas. O Chile vencendo um dos grupos da morte. Itália e Inglaterra dando novos vexames. A Espanha, até aí a campeã do mundo, numa participação frustrante. E tinha o time do Felipão, a duras penas, passando pela Croácia (lembra do apito amigo do japonês), empatando com o México, derrotando um ultrapassado Camarões. Na sequência, dois clássicos sul-americanos. A quase eliminação contra o Chile e depois (talvez único bom jogo do Brasil) a vitória sobre a Colômbia, que trouxe na bagagem o fim do Mundial para Neymar depois da entrada dura de Zuniga. Nada de especial, na verdade. A choradeira dos boleiros amarelos na hora do hino chamou mais a atenção do que boas partidas de fato. Que venham as semifinais.

O Brasil, suando por demais, ao lado de Holanda, Argentina e Alemanha – que havia apresentado um melhor conjunto mas sofreu como nunca nas mãos da Argélia nas oitavas-de-final. Não esqueça também que os alemães acabaram virando o segundo time de todo mundo tamanha a simpatia que exalaram em terras tropicais.

Sem Neymar, a seleção enfrentaria o melhor time do Mundial de olho na final. Felipão surpreendeu todo mundo escalando o franzino Bernard para encarar os gigantes germânicos. Seleção brasileira, sim senhor, jogando pra frente. Não posso dizer que fiquei triste com esse arrojo do nada do treinador tupiniquim. Mas, e nesse história sempre tem um mas, o problema é que o Brasil não tinha time para encarar ninguém, não tinha meio campo, a defesa era uma festa e o coitado do Fred, bom, era só um coitado lá na frente. Deficiências claras e evidentes apresentadas há tempos.

O jogo começa e não podemos dizer que os dez primeiros minutos foram ruins. Foram não. As coisas até que caminhavam bem para os comandados de Felipão. Bernard, outro coitado, parecia uma criança no meio do jogo de adultos, porém o Brasil encarava a Alemanha. Então, aos 11, um escanteio e a casa caiu. É importante lembrar que Muller apareceu sozinho na área. Só deu um totozinho e rede. Ninguém para marcá-lo. Ok, meninos, então vamos acordar e continuar a peleja. Como disse, eram só meninos, nada mais do que isso. Não havia um líder em campo, nem fora dele. Quando o 23º minuto aportou no relógio, a seleção amarela desandou de vez. Levou quatro gols em pouco mais de 300 segundos. E o resto virou história.

Eu estava chocado vendo tudo aquilo. Uma sensação maluca de não estar vendo aquilo. Não era real. Porque ali dentro do campo ninguém de amarelo corria ou fazia algo ou quebrava alguém ou ia pra porrada e nada acontecia além de gol da Alemanha, gol da Alemanha, gol da Alemanha. Pesadelo para quem assistia ou um certo torpor ou as duas coisas. Mesmo sendo da torcida do contra, jamais imaginara que algo assim pudesse acontecer com o outrora melhor futebol do mundo. Eu sabia há algumas décadas que o Brasil não era mais o dono da cocada. Era só mais um. Mas dói quando aquele seu amor mais antigo é maltratado, humilhado, pisado. Eu ria de nervoso, não era real. Gol da Alemanha. O primeiro tempo acabou, 5 a 0 pra eles.

Devo ter ido tomar café, meu vício mais querido. Voltei pro meu canto do sofá. O intervalo passou letárgico. As imagens dos torcedores incrédulos, muita gente indo embora do estádio (o que não acho certo porque se é pra torcer, torce até o final e ponto). De verdade, já imaginava coisas piores do tipo vira 5 acaba dez. Claramente, no entanto, quando os alemães voltaram ao jogo, o fizeram num ritmo mais lento. Não fariam mais nada para nos humilhar. Não avisaram pro tal do Schurle que ainda marcou mais dois gols. Vexame escrito e nem o gol do Oscar aliviou muita coisa. 7 a 1. Não chorei nem nada. Atônito e com a garganta seca e um pouco envergonhado. Maior goleada já sofrida na história da seleção brasileira. Acho que só isso já basta como epitáfio. A maior humilhação já sofrida pelo time brasileiro em seus 100 anos de história. Nada havia sido pior do que aquilo.

O juiz apitou o fim do jogo e senti que poderia acordar a qualquer momento com aquela sensação de que havia tido um sonho muito ruim. Quando acordasse, tudo seria melhor. Pois é, amiguinho, foi não. Como um crítico do status quo da sociedade humana acreditei (ingênuo coitado) que a vergonhosa derrota serviria como o marco zero de uma nova realidade. Aqueles que faziam mal para o nosso futebol (um bem cultural, sim senhor) seriam limados da face da terra, gente séria assumiria o comando e hoje, um ano depois, estaríamos ainda lambendo as feridas, mas com uma perspectiva diferente.

Claro, nada disso aconteceu. Mandaram o Felipão pra China e trouxeram de volta o Dunga. A Copa América que acabou no último sábado foi a prova de que não aprendemos nada com os 7 a 1. A arrogância, incompetência, cegueira global seguem mais fortes do que nunca. E me levam a uma leve sensação de que precisaremos de outras humilhações, como não se classificar para uma Copa do Mundo, por exemplo, o que nunca esteve tão próximo como agora… Mas relaxa, meu pai dizia que eu era pessimista. Devo estar exagerando (o que de fato estou sendo é sarcástico). Sei não, sei não, a luz que aparece no fim do túnel é um belíssimo de um trem sem freio vindo em nossa direção. Que pena.

A CASA

Era um corredor extenso, grande mesmo. Saía da cozinha e levava aos dois quartos, um maior outro menor, e ao banheiro. Havia tapetes nesse caminho. Todas as cores do mundo, se você olhasse com atenção poderia ver que eles – os tapetes – brilhavam no escuro e um par de olhos verdes dizia todos os segredos impublicáveis sempre depois da meia-noite. Mas era preciso acreditar, antes de tudo. Quase sempre, a lâmpada que ficava no meio desse corredor se apagava sozinha, se acendia depois com força quase de um sol inteiro, se apagava novamente pra nunca mais. Em noites de pesadelo e de chuva forte, que bate na janela com força de um grito dizendo “eu sou a sua morte e te quero bem…”, aquele corredor não tinha fim e nenhuma de suas milhares de portas se abria. Nenhuma porta se abria. E o desespero só aumentava porque simplesmente nenhuma porta se abria e o corredor não tinha fim.

Você sabe que eu não minto muito. Essa história é a história de um velho e de uma velha casa. Tudo que virá a seguir é verdade. Ambos demoraram séculos para se encontrar. Me sinto triste quando lembro do velho. Ele não era de todo mau, tinha um humor peculiar e via a vida com olhos verdadeiros, sem filtros, sem pudores, sem medo ou com o maior pavor de todos. Ele era um velho que conheceu o mundo. Sim, o velho não tinha mais idade e por causa desse detalhe, não ter um fim, decidiu numa bela manhã de abril, quando a lua tinha dito adeus, partir sem rumo. Ele partiu a pé, se foi, sem dizer adeus, não havia ninguém para dizer adeus. Ele foi. Antes, porém, queimou suas asas, queimou seus quadros, discos e livros, queimou seu coração. Andou, andou e andou e andou porque não servia para nada correr desembestado feito um besta.

Ele estava cansado, só isso.

Andar era o remédio para não pensar em mais nada, naquilo que havia deixado para trás (teria deixado algo para trás mesmo?), naquilo que não prestava pra mais nada. Conheceu então o mundo inteiro. Sem saber, enquanto percorria montanhas, oceanos, rios, campos, sistemas solares, ele procurava algo… ele não sabia, mas procurava sua casa, seu lar, o lugar no qual fincaria suas raízes e finalmente encontraria paz. O lugar em que fecharia seus olhos e se deixaria levar como alguém que decide na hora do afogamento parar de lutar e deixar toda aquela água fluir pra dentro de si. O local que fecharia o imenso buraco de seu peito, buraco esse que existia bem antes de tudo. Um buraco invisível que nunca se fechara, que nunca se contentara, um buraco que nunca deixara o velho quando era apenas um homem comum se aquietar num canto qualquer. Esse buraco trouxe inquietação, desejos, perdas. Com o seu vazio, de certa forma, esse buraco matou o velho, mas não conte pra ninguém porque ele nunca percebeu que na verdade não existia mais.

O velho andou anos-luz. Viu estrelas nascerem, cometas colidirem, anjos fazendo anjos. O velho viu deus morrer.

Ninguém se lembra como, quando e por que a casa foi construída. O que todos garantem é que ela sempre esteve lá, desde a aurora dos tempos, desde quando aquela mulher comeu o que não devia ou teria sido aquele homem, ninguém sabe mesmo traçar uma linha do quando essa casa apareceu na face da terra. O fato, ela está lá, sempre esteve, estará quando nós partirmos dessa pra melhor ou pior. Na sala, há uma cortina vermelha, bonita, que impede, quando totalmente fechada, que a luz entre e clareie toda a escuridão. Ninguém também nunca viu aquelas cortinas abertas ou pelo menos não se lembram. Na sala, há um sofá, pequenas estantes, duas portas, uma para entrar outra pra sair. A lâmpada nunca se apaga sozinha.

Em uma das paredes, um quadro queimado pela metade que talvez tenha sido salvo de algum incêndio, quem sabe? No que sobrou desse quadro, um coração também queimado servido aos demônios como prato principal. Percebe-se numa análise mais detalhada que os demônios não aceitam o coração. Se você encostar seu ouvido, se aproximar do quadro, ouvirá o coração lamentando… “nem eles me quiseram…” Se você tivesse coragem de abrir as cortinas vermelhas veria uma bela janela de ouro que te levaria a outros mundos, bastava para isso dizer sim, eu quero ir… As cortinas nunca foram abertas…

Na cozinha, uma grande mesa, talvez comportasse em seus bons tempos 500 soldados, quem sabe mil donzelas em seus vestidos rosa e azul anil. Hoje, a mesa não recebe mais ninguém. Um forno antigo, que dizem ter acolhido o primeiro fogo do mundo, jaz sozinho no canto pedindo um pouco de atenção. Há uma janela ali também, sem cortinas. Quando você olha por ela, vê o futuro, tudo aquilo que poderá ser e não o é agora, mas ninguém, nunca, em nenhum tempo, olhou por aquela janela. Se assim tivesse feito, qualquer pessoa, nossa história hoje seria diferente, no entanto, claro, essa é uma outra história.

O chão dessa velha casa é de terra batida, terra tão velha quanto a casa, quanto a Terra, quanto o velho. Milhares andaram por esse chão. Agora não mais, apenas sombras e uma boneca, brinquedo de criança, que insiste em viver mesmo sabendo que bonecas não podem viver, não faz sentido um brinquedo viver, mas aquela boneca é danada, quer viver e quando a meia-noite bate, depois dos olhos verde proclamar todos os segredos do mundo, ela passeia pelos cômodos, rindo alto, correndo feito moleque, brincando com cachorros imaginários e filhos perdidos, que se foram antes de seus pais. Aquela boneca quer viver, poético isso, ela quer viver, mas não pode, não dá, não faz sentido algum… onde já se viu uma boneca de brinquedo querer viver?

Antes das bestas saírem para caçar, alguns minutos antes, a casa para de ranger. Tudo silencia. O corredor. A boneca. A janela. A chuva. Os grandes e tristes olhos verdes. A cachorra manca que não existe mais. Quando o relógio toca três da manhã shuuuuuuu nada mais se move naquele pedaço de mundo esquecido por deus …

Numa manhã fria, gelada mesmo, de neve nos trópicos, finalmente, o velho parou em frente ao portão daquela casa. Os dois finalmente depois de eras se encontravam. O portão rangia pra lá e pra cá com o vento e o velho pensou um pouco se deveria entrar ou não entrar na casa. Ele sabia, não sei como, que ela o esperava, que ela de certa forma, seria o fim da linha. O velho pensou e pensou. Concluiu que nada poderia ser pior do que tudo fora antes. Ele, portanto, decidiu entrar na casa. Como por mágica, no instante em que decidiu dar o primeiro passo, um raio cruzou todo o céu cinza. Teria sido uma bela foto.

Me esqueci de falar como se entra na casa. Há duas portas. Bom, antes, você abre o portão, segue pela trilha de cruzes plantadas metodicamente por uma senhora que vivera muitos anos antes. Essa trilha se bifurcará. Então, as duas portas. Uma levará à cozinha. A outra à sala. Se você está esperando alguma surpresa quanto à escolha de uma das portas, me desculpe, nada de especial acontecerá. O velho sabia disso, de alguma forma, ele sabia que qualquer porta era uma porta e ponto final. Escolheu a da sala. Ah… não havia chaves para essas portas. Bastava girar a maçaneta e pronto.

O velho escolheu a porta da sala,

girou a maçaneta e entrou…

Dois passos para dentro,

o velho na casa,

a casa no velho.

a porta se fecha…

A ENTREVISTA

Jesus Cristo me olha com intensidade. Não tenho idéia do que passa em sua cabeça. Negro, bonito, cabelo raspado estilo jogador da NBA. Ele dá um longo gole. Esvazia a taça de vinho. Jesus Cristo está com uma camiseta branca, uma calça jeans básica e uma barba de dois, três dias. No pulso esquerdo, percebo uma tatuagem. É um nome. Não importa qual. Eu também tenho um nome em meu corpo. Não importa. Jesus Cristo coloca a taça vazia em cima da mesa. Olha ao redor, faz um clima (percebo!). O bar está cheio, ninguém nos nota. Ele me encara novamente, se ajeita na cadeira. Seu cheiro é doce. Não identifico a fragrância. Não entendo de cheiros. Ele me encara novamente, se ajeita na cadeira.

“É foda!”

“É”, concordo sem hesitar. Realmente, é foda.

“Como você sabe que não sou uma fraude?”

“Eu não sei. Bom, você não teria porque mentir para mim. E depois, sua taça cheia agora não é algo muito comum. Não?”

“Ah, a taça vazia, depois cheia (rs). É um bom milagre! Gosto dele”

“Percebo (rs). Preciso chamá-lo de senhor? Afinal, és o filho de Deus”

“Relaxa. Não sou tão mais velho que você. Vai gravar?”

“Sim. Se incomoda? Posso começar?”

“Seu filho pediu para dizer que é preciso ter fé… ok, comece!”

“Arrependido de ter morrido por nós? Afinal, você já deve ter percebido que a humanidade não melhorou muito depois da sua morte.”

“Por que vocês, jornalistas, sempre começam pela mesma pergunta?”

“Hum, será que é porque somos jornalistas?”

Ele sorri. Eu sorrio. Estamos indo bem. Acho.

“Cara, não me arrependo daquilo tudo não! De certa forma havia dentro de mim um mínimo de esperança que a morte do filho de Deus abrisse a cabeça das pessoas. Como você disse, não deu muito certo… vocês ainda não sabem o que fazem.”

“Você acreditava naquela história toda de paz e amor?”

“ E você acredita?”

“Às vezes, mas o entrevistado é você.”

“Sim, acreditava. Acreditava…”

O olhar de Jesus Cristo se perde em algum lugar que não identifico. Não leio seus pensamentos. Mais um gole de vinho. Seus olhos castanhos brilham.

“Jesus, você acredita em Deus?”

Um longo suspiro…

“E você, acredita nisso que sente no coração agora?”

 

Penso alguns segundos.

 

“Não sei… dessa vez o final da sua história vai ser diferente?”

“Sim, será. Mas lamento dizer que o final de vocês não será bacana. Inclusive, o seu.”

“Ok, sem problemas. As pessoas te ouvirão desta vez?”

“Não. Ninguém me ouvirá. Você tem medo do futuro, meu caro repórter?”

“Não. Honestamente, não penso sobre ele!”

“Entendi. Carpe diem, não? Sabe o que mais me incomoda nessa história de ser filho de Deus?

“Não imagino”

“Sou apenas um instrumento. Não altero nada. Não modifico. Não transformo. Digo coisas como tantos dizem e isso se perde no meio do tanto que é dito. Meu pai não é um ser fácil de se lidar. Estou cansado”

“Jesus, você está deprimido?”

“Hum, senti uma certa ironia nas suas palavras”

E rimos, rimos, rimos…

“Suas palavras são honestas. Elas significam muito para aqueles acreditam. Você não é apenas um instrumento!”

“Tá, você é gentil, mas isso não reverterá em pontos para entrar no paraíso!”

A gargalhada de Jesus Cristo é exagerada. Impossível não se contagiar. O cara, filho de Deus, bêbado, deprimido e reclamando da vida. Cada uma, elaia.

“Você sente falta deles. Sua dor é quase palpável . Você não entendeu nada”

“ Não sou perfeito, lamento!”

“Ninguém é, caro repórter. Ninguém é!”

Fitas rolam. Taças vazias se enchem do nada. Palavras são ditas e se perdem no tempo. Tempo que passa sem percebermos (gosto desse clichê. Algum problema?)

“Me responda uma coisa, caro repórter. Por que você quer respostas?”

“Para entender aquilo que você sabe que não entendi! Talvez…”

“Hum, você está bêbado também!”

“Jesus, é possível viver sem medo?”

“Não!”

“Jesus, você está com medo?

Ele não responde.

“E você, está?

Eu não respondo.

“Não há um outro jeito? Uma outra saída? È preciso acontecer tudo isso?”

“Vocês tiveram a chance de mudar… agora…. é tarde…”

“Poxa…”

 

“É”

Uma última pergunta.

“Por que você me escolheu para essa entrevista?”

“Porque ninguém te escutará!”

Ele se levanta. Um adeus sem palavras. Vira-se e parte. Fico sentado, olhando o filho de Deus ir embora. Em tempos (nossa como fazia tempo!), não há pensamento algum em minha cabeça. O barulho daquele boteco me absorve. Cigarro, maconha, vodka. Cheiros. Há tanta vida ali naquele momento. Fecho os olhos.

“Posso voar?”, pergunta a menina de cabelos castanhos, olhos castanhos, vestido branquinho e com um machucado na testa do lado direito.

Eu sorrio. É o sinal. Ela voa.

 

….

 

Lá em cima

“Então, Jesus, conseguiu falar com ele?”

“Sim”

“E agora?”

“Não há nada para fazer além de esperar”

O ESPELHO

Papai dormiu. Por muito tempo, no entanto, ouvi o nheconheco da cama velha. São poucas as horas em que ele fecha os olhos e se deixa levar por Morpheus. Mas desde o dia que me matou acho que o Deus do Sonho desistiu dele. Assim como todo o resto. Então, meu pai não me matou assim do jeito que você pensa. Minha tia que gosta de falar dessa forma para machucá-lo. Não sei porque falei assim também. Você pode pensar mal do meu paizinho. Desculpe, assim como ele, às vezes não penso no que digo e acabo sendo cruel…

Papai sempre cometeu muitos erros em sua vida. Muitos. Isso não significa dizer que ele é uma pessoa do mal.Talvez incapaz em alguns momentos. Incapaz de lidar com fatos, verdades e seus próprios defeitos. Temperamental. Nunca fugiu de brigas, nunca manteve a boca fechada quando preciso, nunca deixou de acreditar…

Ele era o meu herói…

Papai ao meu lado se transformava. As marcas de tensão de sua testa sumiam. O sorriso era fácil. “Meu tesouro!”, era o que dizia antes de me fazer girar, girar, girar. E a minha gargalhada deixava no coração do papai uma marca de eternidade como aquelas histórias bonitas que lia. Assim foi por anos. Mesmo longe da minha mãe, ele estava presente o tempo todo na minha vida. Aliás, mamãe foi outro erro em sua vida. Papai, de fato, nunca amou mamãe. Eu nasci, ele não suportou a mentira que vivia com ela e se foi. Não me deixou, no entanto. Mamãe atazanou papai muito depois disso. Vovó, titia, também. Elas queriam enlouquecer papai…

conseguiram…

Na noite anterior à minha morte, papai me abraçou forte e chorou como eu nunca vira antes. Papai não chora, eu pensava. Papai é forte, eu pensava. Papai chorava, papai era fraco. Aí o universo se fez verdadeiro na minha cabecinha de 10 anos. Ali naquele momento, descobri que precisava ser uma mulher de verdade porque ia cuidar do meu paizinho cansado de guerra. Minha inocência acabava ali. Hora de crescer.

Antes, no entanto, houve Sophia. Houve Sophia e papai. Houve paz. Papai ali com Sophia parecia papai comigo. Sorriso fácil. Rosto de menino. Barba feita todas as manhãs. Havia uma outra mulher na vida de papai além de mim. Eu estava feliz com isso. Sophia estava começando tudo de novo. Quando viu papai pela primeira vez, Sophia ficou vermelha de vergonha. Juro, ouvi o coração de Sophia batendo como nunca. Papai também… Gostava de ver a cara de bobo dele.

Mas tudo mudou…como tudo muda. Papai chorou e eu não virei mulher…

Havia cheiro de chuva forte no ar. Meu paizinho me ensinou a sentir esse cheiro. Lá longe, as nuvens já se agrupavam escuras e nervosas. Arrepiou meu coração quando vi aquela cena. Mais do que isso, mamãe dizia muitas bobagens dessa vez. Não sabia para quem. Demorei para sair daquele sono até perceber que quem gritava junto com ela era meu pai. Coisas tão tristes foram ditas, tão tristes… Pela primeira vez em minha vida, senti que perderia meu pai para sempre. Não podia deixar isso acontecer…

Papai era instável, perdia a paciência com a família da minha mãe com facilidade. Desta vez, elas mexeram de fato com papai. Ele se segurou para não bater em mamãe. Saiu. Bateu a porta como tantas vezes fizera antes. Entrou no carro.

E acelerou….

acelerou…

acelerou…

acelerou…

acelerou…

acelerou…

acelerou….

e …

tummmmmmmm….

O mundo girou. Por pouco, papai não se foi para sempre. Bom, de certa forma, ele se foi…

Papai sentiu o sangue escorrendo por sua testa, mas percebeu que havia algo a mais naquela cena. Primeiro, um ursinho cor-de-rosa. O mundo girou novamente. Depois, o maior de todos os seus erros se fez presente: meu rostinho no meio das ferragens. Minha testa machucada do lado direito… Tanto sangue sujou a roupinha que ele tinha me dado. O mundo girou novamente. Tanta coisa se perdeu em vermelho… Tanta coisa….

Não sei como ele saiu do carro e nem como ele me tirou de lá…

…eu não deixaria ele ir embora sem mim.

Papai caminhou horas com seu tesouro sem vida no colo. Horas. Não havia mais nada dentro dele quando as pedras voaram em sua direção.

Sophia o defendeu.

Papai a expulsou de sua vida, como fizera com todo o resto…

Papai não quer piedade, nem perdão…

Papai comete muitos erros…

Papai não é perfeito…

Enfim, e nesse mundo de meu Deus, quem é?

A canção

O fim de um livro que amo me destroça. As últimas páginas, frases, palavras e aí acabou. Então, choro feito uma criança com fome. Bobo, talvez. Faltavam dois capítulos. Minha leitura era voraz, qualquer canto, qualquer lugar, e lá estava o livro aberto sendo devorado. Quero o fim, mas não quero, sabe? Dói essa saudade deixada lá dentro. O trem parou na estação tatuapé abarrotado, cheio por demais, havia um pequeno espaço e lá me enfurnei. Me ancorei no balanço do trem num surf esquisito, as duas pernas abertas, toca o sinal, fecham-se as portas, caminho que segue e a história retomada de onde eu havia parado. Vagão lotado, barulho intenso, grande, desconcertante e que incomodava. Poluição. Todos dizendo tudo e nada ao mesmo tempo. Eu me concentrava, tentava, me deixava ser engolido por aquele elemento, perdido no branco da página, no negro das letras que contavam uma história…contavam uma história, era feliz assim, sozinho, “com meus livros e discos e nada mais”. Absorto, em meio ao silêncio de um barulho constante que não cessava, as palavras me ferindo, me chocando, me entristecendo e o peito doeu uma, duas, três vezes. Estação brás, mais gente pra entrar. A campainha toca, o trem parte e então…

Hum hum…

Hum hum

Hum hum

Hum hum…

Eu conhecia aquela melodia. Sabia exatamente quando havia a escutado pela primeira vez. “Segura na mão de Deus e vai… Segura na mão Deus pois ela te sustentará…” Enterro de meu avô e a primeira vez que percebi que o fim era assim desse jeito, que tudo que vivia, morria, não havia segunda chance. Ali chorei sentido não por meu avô, acho que nem gostava tanto dele, mas por tudo acabar um dia. Na época não sabia a benção disso…

A montanha lá em cima e eu subindo, um passo de cada vez, cada vez mais lento e como de costume, todo o peso do mundo em minhas costas. É fato. Eu não sabia deixar de lado as coisas, não sabia me desapegar, não sabia como consertar nada ou simplesmente seguir em frente, poxa, eu não sabia

O sol forte batia na minha cara, me esquentava, me fazia suar tanto, parei, larguei longe a mochila, larguei tudo, tirei minha roupa, nu, joguei tudo longe, abri meus braços e entregue ao deus sol, ali, lá em cima, me olhando, me engolindo, comendo, secando por dentro e por for. Eu era ali tudo e nada e com olhos fechados esperava apenas, o que até hoje não sei direito, mas sei que o que esperava, chegou…

Me perco das linhas do livro, das letras, frases, palavras, agora ouço a canção na minha cabeça, que não está na minha cabeça, está ali sim senhor naquele vagão, alguém canta a música do meu fim e somente pra mim, sabendo que escuto com toda atenção. Quem é? Quem está aí? Quem me chama de tão longe? Eu penso assim bem alto, ninguém ouve, claro, porque estou pensando, no entanto, aquela velha senhora, sorri discretamente, sentada, absorta também, está ela lá… zumbiando humhum, humhum, humhum.. ela me olha, não há mais expressão alguma em sua cara, ela procura o fundo dos meus olhos, minha alma, não há mais ninguém naquele vagão… eu e dois metros lá, menos até, aquela velha senhora com cara de bruxa ou nem tanto. Ela me consome, sabe tudo de mim… humhum, humhum, humhum. O livro cai das minhas mãos, cai em câmera lenta, nada é como a física manda, meus movimentos são vagarosos, mais do que costume e como nunca, estou desperto, esperto, sinto todos os cheiros, toda a eternidade que finalmente acabará, agora, sim porque aquela velha viera me buscar e eu estava pronto. “Segura na mão de deus e vai…” eu não acredito em Deus, fica quieto moleque… Vem e eu fui…

Quando ela chegou, não pediu licença, nem nada, ela me conhecia como ninguém. Meu sangue gela, meu coração dispara, mas aperta, diminui, não sei bem descrever o que acontece com a porqueira do meu coração. Ela está dentro de mim, vai devargazinho, penetrando cada poro, o sol lá em cima acha graça, tenho quase certeza que gargalha, porém, aqui, eu, me arrepio, corpo arrepiado, sendo possuído por ela, por eles, ela não veio sozinha, eles me consomem, me tomam todo, eu frágil, sozinho, lá longe o topo da montanha, e eu não sou mais eu porque aqueles que me amavam tomam por dentro e num segundo ao abrir os olhos, pude ver a vida de um outro jeito, de uma outra forma, sei que lágrimas corriam pelo meu rosto velho e enrugado, mas não era tristeza não… a vida que eu procurava, finalmente, encontrei, ali no fim…

… tamanha ironia…

Estação República, desembarque pelo lado direito do trem.

As portas se abrem, quase todo mundo, aos atropelos, tipo gado, sai sem dizer adeus.

Humhum, humhum, humhum…

A chuva

Beijei Maria

Como sempre fazia

Antes do galo cantar o novo dia

Era noite mesmo, noite escura

Beatriz dormia

Abraçada com a tartaruga de pelúcia

Luca e Léo, na cama de baixo,

No outro canto do barraco,

Se espreguiçavam, cansados, sem ânimo

Droga, mais um dia na escola

“Ah, pai, só dois minutos”

Eu deixava, claro, tudo bem

Beijava os moleques, beijava a menina

Beijo na testa

Rotina divina

Leo me puxou pelo braço, meio desperto

“Pai, tive um sonho ruim”

“Se preocupa não, menino”

Virou de lado

Deixou o sono chegar e foi..

Fui também…

Os pingos da chuva prometida tamborilavam no telhado

Não era forte… ainda

Gorro na cabeça, frio, vento

São 4h33… pego o trem das cinco

Fecho a porta do barraco,

Dessa vez foi diferente

Olho para eles

Eles, aquilo que tudo importa, dormem,

Viajam por reinos distantes

Maria, Bia, Leo e Luca estão em paz

Eu corro, corro porque correr é preciso

Às sete na fábrica, no outro lado da cidade

Aperto o passo

Chuva aperta o passo

Desço o morro em tempo recorde

Chuva cai com força, raiva, ódio, som e fúria

Ódio da gente. Por quê?

O peito apertou uma dor diferente

Olho pra trás uma última vez

Lá em cima, tudo escuro, noite ainda escura, vida escura, o barraco

TANATOS

As torres gêmeas ainda estavam de pé.

O verão não era diferente de como sempre fora no meio dos Estados Unidos.

Aquela família era comum. Cristã, devota, temente a deus como todas são nos Estados Unidos da América, o berço da democracia, igualdade e justiça e hipocrisia…

Aquela mulher era comum, sem mais nem menos. Era uma mulher.

Aquele homem era comum.

Os filhos eram filhos como todos filhos pequenos e grandes são filhos.

 

Naquela manhã, o homem saiu de casa para trabalhar. Em casa, a mulher ficara com seus cinco filhinhos, como sempre. A menorzinha tinha seis meses. O mais velho, sete anos. A mulher enche a banheira para lavar a pequena. O telefone não toca. A TV está ligada. A mulher dedicara toda a sua vida a cuidar de sua família. Antes dos filhos e dos maridos, ela cuidou de seu pai até sua morte. Para ela, era fundamental servir os outros. Não havia o demônio em sua casa.

 

A mulher enche a banheira para lavar a pequena. Cheia, a banheira transborda e molha o piso. A mulher pega seu bebê e o coloca por inteiro na água. Assim o deixa, com seus olhinhos abertos até que não haja mais vida. Foi aí, então, que os olhos abertos da criança já não diziam mais nada. O mais velho flagra a mãe. Corre, ela o pega. Assim o deixa, com seus olhinhos abertos até que não haja mais vida.

 

A mãe é metódica. Faz o mesmo com os outros três filhos. Depois, embrulha cada um em lençóis, colocando-os em suas camas. Ela liga para o marido:

 

“Eu matei nossos filhos”

 

Presa, disse que era uma mãe má. Seu pecado, comentavam, era que ela era boa demais. Antes do fim, a mãe nunca levantara a mão para nenhum outro ser humano. Depois da morte do pai, ela havia tentado se matar de overdose.

 

“Não julguem minha mulher!”, disse o marido no enterro dos cinco filhos.

 

Quando ele volta para casa não há mais ninguém. Tenta dormir. Difícil. Quando consegue, sonha com a mulher que ama. Sonha que desta vez era ele que cuidava dela. Sim, desta vez ele percebera a dor de sua mulher. E nesse sonho, ela estava feliz de verdade, sorriso lindo, rodeada pelos filhos.

PARADO NAQUELA ESTAÇÃO

Tic-tac-tic-tac-tac-tic-tac, não é um relógio. Nem bomba. Tentei imitar o barulho do trem chegando na estação. Mas não sei fazer o barulho do trem chegando, partindo, indo. Não entendo de trens. Entendo de partidas, quase nunca chegadas. Entendo da viagem e da sensação do vento batendo no rosto. Livre como o pássaro daquela música. Entendo poucas coisas.

Invento diálogos com meu travesseiro desde sempre. Não é um amigo imaginário. Muito menos uma amante imaginária. È um diálogo inventado com meu travesseiro em um universo no qual não há a dor. Sim, um mundo paralelo que você sente a onda do mar batendo nos pés como no final feliz mais feliz que já fizeram. È uma viagem de ácido. Ou a primeira vez na heroína. Meu travesseiro já foi Bia. Já foi filho. E todas as vezes antes das últimas palavras, o sorriso doce sem pressa e culpa embalava minha insanidade.

Falo pouco com meu travesseiro atualmente.

Falo pouco com qualquer um.

 

Pai, você sabe contar uma história sobre trens?

Não sei, filho.

Eu sei!

Conta pra mim?

Conto…

Quando, menino?

Um dia!

Promete?

Prometo!

Olha o que eu fiz pra você…

 

Então, eu acho que toca um apito. Sei que navios tocam apitos na partida. Não sei nada sobre trens. O menino corre para o seu vagão. Está feliz de verdade. Não cabe em si. Está feliz de verdade. O homem fica na estação e vê o menino feliz correndo para o seu vagão. O homem não anda, não segue o menino. Ele só olha ele mesmo indo, indo, indo. “Não vai… fica”, ele não diz. A locomotiva puxa o rebanho de ferro. Bye. O menino na janela só olha pra quem fica na estação. O homem não sabe o que passa na cabeça do menino. O menino sorri.

 

Prometoooooooooooooooooo!

 

Quando a curva engoliu o trem, o homem ficou ali parado naquela estação, sem direito saber pra onde ir e o que fazer…

 

Pai, era uma vez, um menino que desenhava trens…

O sótão

Tinha que decidir um monte de coisas. Era tanto pra minha cabeça e ninguém percebia de fato que eu não queria decidir nada. Último ano na escola. Vestibular chegando. Boletim parecendo um matadouro em dia de festa de gente. Tanto pra pensar. Não gritava, não pedia um tempo, não fugia. Seguia a correnteza. Não era feliz, mas isso também não importava. Quem sabe de fato o que é ser feliz? Eu poderia estar enlouquecendo naquela época, vai saber. Sétima aula na quinta-feira, véspera de feriado. A professora falava, falava, falava, falava e aí num segundo parou de falar. Tudo meio que tomou uma outra cor, um outro nível de consciência. Então, eu vi.

Onde os olhos deveriam ser verdes, azuis, castanhos, pretos, o vermelho. Destacavam-se na escuridão. Podia vê-los perfeitamente e sabia que aqueles olhos vermelhos me olhavam de volta. Não tive medo. Há tempos desconheço isso. Uma das placas do teto da minha sala havia se soltado. Ninguém deu muita importância pra isso. Ninguém reparou nada. Mas aqueles olhos vermelhos estavam ali em cima, me diziam algo, diziam sim, não sei o que diziam. Vislumbro a fileira do outro lado. As carteiras a minha frente. A professora que ainda falava, falava, falava. Nenhum deles percebera a menina no sótão nem que eu havia a descoberto.

O sinal toca. A manada sai em disparada. A professora ainda falava, mas o som de sua voz já ia distante. Eu ficara para trás. A menina escondida no breu.

 

“Oi”

Demorou um pouco… e

“Oi”

“Você existe?”

Escuto os passos acima de mim.

Ela se ajoelha, um rostinho pálido, doente, aparece no vão da placa perdida.

“É, parece que você existe…”

“Você quer ouvir minha história?”

Ela pergunta de um jeito tão delicado, tão intenso, que meu peito sente um corte profundo, um aperto tão grande, que meu deus, não sei…

Olhos vermelhos perdem o brilho, um rastro de sangue passeia do canto da sua boca até o queixo. Sangue antigo, sofrido, de outros tempos. O olhar é tão triste… mas é a menina quem diz antes.

“Teu olhar é tão triste…”

Esboço um sorriso falso ou talvez o mais verdadeiro que eu tivesse pra ocasião. A loira faz o mesmo. Cabelos compridos, escorridos, básico se é assim que se fala de cabelos de meninas. Aí, ela fala coisas, tantas coisas e ouço atentamente, me esqueço do tempo, de ir embora. A menina loira perdida no sótão conta a sua história. Eu perdido em qualquer lugar só quero estar ali e ali fico.

 

O sinal toca e a dormência na minha perna faz eu gemer alto. Todos riem. A professora não. Depois não reclama se repetir de ano, ela sempre diz isso. Vermelho de vergonha, guardo as coisas na mochila, parto sem dizer nada.

 

Fazia tempo que não passava nessa rua. Sabia que o prédio seria demolido, não tinha certeza da data. Era noite já bem noite. Paro o carro na esquina e dois minutos a pé estou em frente ao meu antigo colégio. Avisto lá no segundo andar a janela em que encostava a minha cabeça tão vazia de sonhos. Me distraio um segundo com a buzina do ônibus e quando volto meus olhos pra janela, velhos tristes conhecidos olhos vermelhos me encaram. Como antes, eles ainda dizem coisas. Eu encaro a menina e me pergunto em qual momento tudo desandou. “Quando eu peguei o caminho errado?” Ela, de longe, parece querer responder, mas sua boca não se mexe. Aceno um tchau bobo, respiro fundo, sigo para minha vida e quando olho para trás, dos olhos vermelhos que me seguem da janela apenas uma tristeza tão triste que ainda não inventaram um nome pra ela.

 

As gotinhas caem uma atrás da outra. Dois canos machucam meu nariz com o ar que não consigo pescar sozinho. Uma linha sobe e desce no monitor. Fim da linha e tenho certeza que nunca imaginei que seria diferente. O remédio alivia a dor, não alivia a dor da alma que ainda dói.  Mas tudo bem. Está acabando…

 

“Oi”

Demoro pra responder, penso não dizer nada, digo…

“Oi”

Os olhos vermelhos sorriem.

“Vai ser diferente da próxima vez”

 

O sinal toca. Estridente. Me assusta, quase caio da carteira, o caderno desaba no chão.   Todos riem. A professora também. Me atropelo, saio correndo, tudo jogado na mochila. Não olho pra trás, as risadas ainda persistem e por tudo isso, apenas isso, não percebo a menina loira que não ri, mas que está ali, estará ali no mesmo lugar, sentada em sua carteira, seus cadernos cor-de-rosa, como sempre estivera, só que agora vai ser diferente.

 

 

A IRMÃ

Desperto agitado com meu nome sendo gritado no portão. Leeeeee. São quatro e meia da manhã. Ainda escuro. Reconheço a voz, sei quem é, mas não pode ser. Não tem como. Espero uma segunda vez, nada. Silêncio em todo o mundo. Som algum depois do primeiro chamado. Procuro o telefone para ligar, não o encontro, desencano. Fico na cama e encaro o teto descascado. Penso em todas as razões para ter sido acordado dessa forma. Algo sério? Não tem como! Adormeço porque assim tem que ser quando um dia longo se aproxima.

Eu tinha oito anos e talvez essa seja a lembrança que mais tenha viva dela. Mamãe a mandava para a padaria sempre depois da novela da tarde. Bia corria para a porta, fazia graça e abria os braços esperando o irmão mais novo para passear. Eu sabia que ela não iria sem mim. O prazer nunca mudava em relação àquele cuidado todo dela por mim. Na rua, Bia segurava minha mão como se fosse uma mãe. Não era, claro. Só tinha 13. De verdade, no entanto, nunca mais me senti tão protegido como naqueles momentos.

O trajeto até a padaria, ida e volta, não passava de vinte minutos. Não percebia o tempo naquela época. Olhava pra cima e a via, quase sempre sorrindo, os cabelos castanhos, escorridos, compridos, a bermuda velha, a camiseta, ela era a maloqueira e me deixava orgulhoso ser irmão da maloqueira. Ninguém mexia com a Bia. E do jeito dela, havia uma beleza naquela moça que nunca entendi direito.

Tinha chovido de manhã. Havia poças por toda a calçada. Era tarde de uma sexta-feira, eu vestia ainda o uniforme da escola. Minha mãe lavaria só à noite. O ritual de sempre. Mas a Bia era livre, não tinha rótulos, não gostava de regras. E havia uma poça no meio do caminho. Ela acelerou o passo, segurava minha mão ainda, e em seu rosto de menina o capeta aparecia (risos). Quando ela fazia essa cara, eu sabia que ia sobrar pra mim. Sobrou.

Bia, dois passos antes da maior poça que já se viu no planeta, solta minha mão e salta bonito em direção à água. Cai com perfeição, um pezinho do lado do outro pezinho, bem no centro do riozinho e levanta uma cachoeira para todos os lados. Minha primeira reação foi falar o pior palavrão que conhecia na época: “BUNDA”. Era tanta água me afogando que não deu tempo de xingar minha doce irmã. Aí a maloqueira de vez entra em ação e chuta todas as poças contra mim e como eu não era santo e sim irmão dela – muito parecido com ela, diga-se – retribuí o banho forçado. Molha daqui, molha dali. Ensopados. Esquecemos o pão. Encaramos a mãe – que bronca! E nessa hora, de novo, na hora dos confrontos, da tristeza, da briga, sempre, a mãozinha dela procurava a minha. Nessas horas, eu que protegia Bia.

Ninguém chamou novamente no portão. Não havia como. Olhava para o teto de novo, atrasado como sempre, porém o que via era o sol batendo uma luz bonita em Bia cabelos molhados da água de chuva de uma manhã qualquer numa tarde de um bom tempo que, poxa vida, nunca mais…