A IRMÃ

Desperto agitado com meu nome sendo gritado no portão. Leeeeee. São quatro e meia da manhã. Ainda escuro. Reconheço a voz, sei quem é, mas não pode ser. Não tem como. Espero uma segunda vez, nada. Silêncio em todo o mundo. Som algum depois do primeiro chamado. Procuro o telefone para ligar, não o encontro, desencano. Fico na cama e encaro o teto descascado. Penso em todas as razões para ter sido acordado dessa forma. Algo sério? Não tem como! Adormeço porque assim tem que ser quando um dia longo se aproxima.

Eu tinha oito anos e talvez essa seja a lembrança que mais tenha viva dela. Mamãe a mandava para a padaria sempre depois da novela da tarde. Bia corria para a porta, fazia graça e abria os braços esperando o irmão mais novo para passear. Eu sabia que ela não iria sem mim. O prazer nunca mudava em relação àquele cuidado todo dela por mim. Na rua, Bia segurava minha mão como se fosse uma mãe. Não era, claro. Só tinha 13. De verdade, no entanto, nunca mais me senti tão protegido como naqueles momentos.

O trajeto até a padaria, ida e volta, não passava de vinte minutos. Não percebia o tempo naquela época. Olhava pra cima e a via, quase sempre sorrindo, os cabelos castanhos, escorridos, compridos, a bermuda velha, a camiseta, ela era a maloqueira e me deixava orgulhoso ser irmão da maloqueira. Ninguém mexia com a Bia. E do jeito dela, havia uma beleza naquela moça que nunca entendi direito.

Tinha chovido de manhã. Havia poças por toda a calçada. Era tarde de uma sexta-feira, eu vestia ainda o uniforme da escola. Minha mãe lavaria só à noite. O ritual de sempre. Mas a Bia era livre, não tinha rótulos, não gostava de regras. E havia uma poça no meio do caminho. Ela acelerou o passo, segurava minha mão ainda, e em seu rosto de menina o capeta aparecia (risos). Quando ela fazia essa cara, eu sabia que ia sobrar pra mim. Sobrou.

Bia, dois passos antes da maior poça que já se viu no planeta, solta minha mão e salta bonito em direção à água. Cai com perfeição, um pezinho do lado do outro pezinho, bem no centro do riozinho e levanta uma cachoeira para todos os lados. Minha primeira reação foi falar o pior palavrão que conhecia na época: “BUNDA”. Era tanta água me afogando que não deu tempo de xingar minha doce irmã. Aí a maloqueira de vez entra em ação e chuta todas as poças contra mim e como eu não era santo e sim irmão dela – muito parecido com ela, diga-se – retribuí o banho forçado. Molha daqui, molha dali. Ensopados. Esquecemos o pão. Encaramos a mãe – que bronca! E nessa hora, de novo, na hora dos confrontos, da tristeza, da briga, sempre, a mãozinha dela procurava a minha. Nessas horas, eu que protegia Bia.

Ninguém chamou novamente no portão. Não havia como. Olhava para o teto de novo, atrasado como sempre, porém o que via era o sol batendo uma luz bonita em Bia cabelos molhados da água de chuva de uma manhã qualquer numa tarde de um bom tempo que, poxa vida, nunca mais…

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